24.5.08

TWO CLEAR EYES

ERA UM REDONDO VOCÁBULO #7


Entro na noite como um sussurro. Ando perdido entre os pingos de uma chuva teimosa, entre algumas sombras que me fazem sentir deslocado. Meto-me nas brigas alheias, salvo um guarda-redes agressivo de levar bem no fundo a amargura dos últimos penaltys. James Johnston canta como se estivesse a ter um orgasmo, acende um cigarro e olha-me nos olhos a alma em chamas. Tudo arde nestas noites desencontradas, descontroladas, declaradamente sexuais. É preciso regressar a casa, serenar, fazer amor. Ou então fiquemos com o fogo na língua, dancemos um para o outro, nus, enrolados nos vícios de estimação. In The Long Still Night, num baile de província, o exotismo das maracas, um saxofone delirante, guitarras tão poderosas que, por vezes, parecem motores acelerados. Um erotismo imenso na compressão saloia dos músculos, nos olhos amargurados de quem, sentado, olha quem dança, nas bebedeiras ambulantes de quem violenta os outros só com a mera presença. Mas também o groove das bailarinas, a mão caindo na anca, rodando a saia, o corpo numa ponte perfeita com os braços por cima das cabeças vazias de quem sente, de quem se limita a sentir. Para beber de shot. Imaginem uma tenda de circo a levantar voo, um western em alta rotação, perseguições assombrosas. E, novamente, pela estrada fora, imagens fugazes de concertos num baile de província. Eu estive lá, nesse rock que, por momentos, lembra as explosões da orquestra de Count Basie. Eu estive lá, nesse jazz em excesso de velocidade. Vejo um organista e um céu em chamas, as meninas dos coros foram mudar o traje. Se eu soubesse que seria assim, quando este disco saiu em 1996 não teria falhado tantos penaltys. Agora ando para aqui a segurar guarda-redes desesperados. Yeah.

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MICROBIOLOGIA #12

NO JARDIM

Sentada no jardim, ela viu-o correr na sua direcção.
“Tina! A minha flor! O amor da minha vida!”
Finalmente ele o dizia.
“Oh, Tom!”
“Tina, a minha flor!”
“Oh, Tom! Eu também te amo!”
Tom chegou ao pé dela, ajoelhou-se e empurrou-a para o lado.
“A minha flor! Tu estavas sentada em cima da minha rosa preferida!”

Hope A. Torres
(Versão de HMBF)
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POSITIVO

A partir de 26 de Maio próximo não teremos de pagar os alugueres dos contadores de água, luz e gás, a cobrança bimestral ou trimestral, que tanta roubalheira tem permitido, será finalmente proibida, assim como a cobrança pela amortização ou inspecção periódica dos contadores. Para já, tudo isto parece muito positivo. É esperar para ver.

ESTADO ROUBA DEFICIENTES

Porque a bola intoxica, porque fazem-se capas e títulos com notícias caducadas, importa não deixar morrer os pormenores da actualidade:

A Palmira Gaspar tem um Lúpus Eritematoso Sistémico há mais de 41 anos. Aos 52 anos, após duas crises graves sucessivas, com 32 anos de trabalho, reformou-se por invalidez com 83% de incapacidade, beneficiando assim de algumas particularidades em sede de IRS. O Atestado Médico de Incapacidade da Palmira é permanente e, como tal, tem validade por tempo indefinido. Foi emitido pelo Ministério da Saúde, em 1995, e sempre aceite pela Administração Fiscal durante 12 anos. Recentemente, a Direcção de Finanças de Leiria deixou de considerar válido esse mesmo atestado, sugeriu que a Palmira pedisse uma nova Junta Médica de avaliação, com nova Tabela de Incapacidades, muito mais restritiva a partir de 2008 e, pasmem, que voluntariamente substituísse os mod. 3 do IRS, de 2004 a 2006, pagando coimas e juros compensatórios como se tivesse prestado falsas declarações. Do meu ponto de vista isto não só configura um autêntico roubo como demonstra, de um modo bem claro, que a Administração Fiscal está transformada numa autêntica máfia com um poder imenso de intimidação. O que pode e deve um cidadão fazer perante uma situação destas? Já não chega reclamar, é preciso, é fundamental uma enorme onda de indignação. Caros senhores jornalistas, bem sei que a selecção é muito importante e que os vícios do primeiro-ministro são fundamentais para o bem-estar da nação, mas há mais vida para lá do mero show off… Não acham?

VERÃO DE JULHO (título novo, poema mudado)

os cavalos relincham
talvez porque os cães uivam
os cães uivam
não parece que assustem os cavalos
as estrelas sobrevivem
num céu bradado de breu
e os foguetes estoiram
ainda que não se oiçam

alguns veículos cruzam-se
junto ao rio onde as rãs coaxam
as rãs travam amizade com os grilos
o cântico dos grilos
inunda de tristeza
este leve verão de julho

as luzes desistem lentamente
um homem absorto evade-se
por entre os canaviais
as estrelas ainda sobrevivem
entre nuvens finíssimas
aplicadas na ocultação dos planetas
e a lua lança-se desavergonhadamente
sobre a serena ondulação do mar

os veículos parados
asfixiam as estradas adormecidas
quase como eu
que sentado sob as tuas nádegas
edifico-me até ao imo
do indominável

Henrique Manuel Bento Fialho, antologia do esquecimento, p. 98, edição do autor, Maio de 2003.

23.5.08

UMA GERAÇÃO DO SILÊNCIO ENTRE VÍRGULAS

Escrevi aqui sobre a revista Criatura. Entretanto, outros escreveram muito melhor que eu. Porque as perspectivas, não sendo antagónicas, manifestam sentimentos diferentes, chamo aos arquivos outros testemunhos:

«(…) a vontade de diferença ou de distanciamento atravessa, de um modo por vezes notável, alguns poemas aqui reunidos. Percebe-se, sem dificuldade, que estamos quase sempre perante autores muito jovens, não faltando certos ecos adolescentes. E é provável – perdoe-se a crueza do reparo – que o que para uns serão os primeiros e auspiciosos passos possa vir a ser, para outros, um mero e inconsequente desabafo».
Manuel de Freitas, Actual, Expresso, 19 de Abril de 2008

«Não é muito evidente, nos tempos que correm, que uma revista de poesia surja logo no primeiro número com a afirmação de qualidade e de coerência que esta «criatura» apresenta. Entre um parágrafo introdutório e uma nota final, ao longo de 110 páginas, o leitor vai descobrindo 15 novos poetas com a surpresa de vozes originais e que dominam plenamente a linguagem poética. É evidente que se trata de um ponto de partida para o que se poderá designar um grupo, uma geração, ou apenas uma reunião de vozes que manifestam uma identidade temática e estilística (…)».
Nuno Júdice, JL, 21 de Maio de 2008

A DESCOBRIR



No P2 de hoje fala-se de Annemarie Schwarzenbach, autora de Novela Lírica (publicada, em Portugal, pela Granito e não pela Civilização como vem no artigo). Nasceu em Zurique, a 23 de Maio de 1908, estudou na Sorbonne, esteve ligada a um movimento socialista, era lésbica, viciada em morfina, dependente do álcool, foi várias vezes internada na sequência de crises de loucura e de violência, opôs-se ao nazismo, viajou imenso, morreu a 15 de Novembro de 1942 com apenas 34 anos. Como poderão ler aqui, «em vida publicou dois romances, uma novela, três livros de viagem e mais de 300 reportagens e textos de viagem em jornais suíços».

E já que estamos com a mão na imprensa, cabe dizer que o mais recente JL dedica praticamente uma página a Caravana e, mais à frente, oferece uma pequena coluna onde metade do texto é dedicado às edições da OVNI, com destaque para o recente O Espelho Atormentado, e a outra metade às edições da Angelus Novus. Começam a surgir na imprensa portuguesa termos como micronarrativa e microcontos. Isso é positivo.

POEMA COM RUÍDO NO INTERIOR (título e poema corrigidos)

tinha por destino as ruínas do antigo forte
repetidas vezes confirmara o itinerário
para que nada se perdesse pelo caminho

crescera dentro do seu coração
uma ferida de enganos
falira no peito toda uma manta de retalhos

quando cumpriu o destino
deparou-se com uma montanha de pó
desembainhou a espada de feltro
e rasgou as páginas em branco

o medo incrustara-se-lhe nas folhas
a solidão abarcou-lhe os dias
o ódio estribou-lhe a vontade

Henrique Manuel Bento Fialho, antologia do esquecimento, p. 43, edição do autor, Maio de 2003.

MICROBIOLOGIA #11

A JANELA

Desde o brutal assassinato de Rita, Carter senta-se à janela.
Nada de televisão, leituras, correspondência. A sua vida é tudo o que se passa fora daquelas cortinas.
Não lhe interessa sair do quarto, saber quem fornece refeições, pagar contas. O seu mundo é a mudança das estações, os caminhantes, carros em trânsito, o fantasma de Rita.
Carter não percebe que as celas almofadas não têm janelas.

Jane Orvis
(Versão de HMBF)
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TEATRO


INDIGNA-TE

Portugal foi apontado em Bruxelas como o Estado-membro com maior disparidade na repartição dos rendimentos, ultrapassando os Estados Unidos nos indicadores de desigualdade. À excepção de Portugal, os rendimentos são repartidos mais uniformemente nos Estados-membros do que nos Estados Unidos. Os países com um PIB mais elevado são, na sua generalidade, os mais igualitários. A notícia veio no Público de ontem. O Álvaro comenta-a muito bem:

Portugal não é apenas um país pobre, é um país de pobres, de muitos pobres e de poucos muito ricos. Mas é à custa do flagelo dos muitos pobres que se vai mantendo o barco à tona. Porque se os grandes grupos económicos continuam a ter lucros altíssimos, se as Galps, as Brisas, as PTs e demais pesos-pesados fazem figura nos dividendos aos accionistas, isso deve-se a uma cobrança injusta sobre os utilizadores, que naturalmente penaliza os que menos têm. Se os lucros são muito elevados as hipóteses não são muitas: a) o estado cobra menos impostos do que devia (o caso da banca e dos seguros é o mais óbvio); b) os utilizadores pagam mais do que deviam; c) as empresas investem menos do que deviam, nomeadamente ao nível dos postos de trabalho e das regalias sociais; d) todas as anteriores.

OS PORTUGUESES SÃO UM POVO MEDÍOCRE, ANALFABETO E DESINTERESSADO #6


E “os americanos”?
Via Analfabeto.
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INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #49

BRAÇO DADO COM O MORTO


O cós da saia ajustava vinte anos
de pobreza. Uma semana depois de enfiar
a aliança no dedo do marido, entrou
na drogaria um ataque cardíaco.
Galgando o muro do grito, jurou
não mais trocar de aliança.
O vento será seco até ao fim.

Passaram outros vinte anos e contínua
passando a ferro os tecidos pretos.
Janta na mesa de fórmica da cozinha
sem nunca deixar de pôr os talheres,
o prato e o copo para ele. Revela
nunca jantar sozinha. E a alegria que
ele lhe dá ao apreciar
a sua mão cheia de temperos?

O mundo girando permanentemente,
formando-se na deformação dos detritos
do desmazelo e das novas formações
ácidas. Mas isso não importa. Não
faz parte das atenções da sua rotina.
Lá em casa nunca ficou nada de pernas
para o ar e tudo se encontra
na mesma como a lesma.

Antes de pisar o altar era uma burra
de lavrar a terra, levando os vagares
da vida a cuidar das feridas dos anjos.
Na sua aldeia os homens eram todos
anjos de bondade aos seus olhos.
Às vezes chorava de desgosto
ao lembrar a puta da profissão
de sua mãe, e de ouvir escondida
os seus gemidos doridos, provocados
pelos homens brutos que levava
para casa. O talhante, o taxista
(este fazia-a sofrer demais, por ter
uma picha de burro e velocidade
dum cão eléctrico), o pedreiro...

Enfermeira de mezinhas curandeiras
dizia encontrar uma paz na alma
sempre que encontrava um anjo
precisando da sua ajuda. Da espécie
homem só provou o Jacinto, horas
mais tarde de cortar o Bolo de noiva.

Jorge Aguiar Oliveira

3 ANOS


Esta semana o Insónia completará 3 anos de existência. Desafio-vos, até à próxima sexta-feira, a deixarem comentários sobre esta casa insone. Ficará guardado num só post, estilo cadáver esquisito, a fechar no dia 23 de Julho. Vale tudo, até arrancar olhos. Comentários anónimos são bem vindos. Nada será apagado, desde que se refira única e exclusivamente ao weblog.
*

Nunca o que li me foi indiferente ou me causou tédio, tenho discordado mais do que concordado mas nunca tenho sido adormecido com o que aqui leio. Li um comentário sobre o livro do Mira George que me convenceu a ficar por aqui sempre, não dei pelo tempo passar! Gostaria de ver mais poesia tua, e gostaria que não te repetisses tanto. É um blog que informa, que faz humor, que provoca, que divulga autores e, muitas vezes, foi pedagógico para mim. Acabei the chegar. Sou leitor diário (desde o primeiro dia, penso) e vou continuar. A poesia deve ser sempre um tópico na ordem do dia. O insónia deve ser lido com os sentidos bem despertos - é um local de vigília, a insónia é a cura para qualquer doença do espírito, aqui cheguei de lupa. descobri micróbios rastejando entre poesia, labirintos, perspicácias... desenrola-se agora uma nova microbiologia! Para além de um grande esforço de abrangência temática e de actualidade, o que mais relevo neste blogue é a tentetiva de independência e não sectarismo ideológico ou estético, por aqui passo sempre, para iluminar a alma, que se dê o nome deste blog a uma rua em cada uma das capitais de distrito e regiões autónomas do país, de preferência ruas onde não more ninguém, :), gosto desta insónia desde que era um universo desfeito, três anos a contar carneirinhos, *Tout le Monde en Parle, que esta seja uma insónia crónica, de muito longa duração, posso garantir que o insónia foi dos blogues que mais visitei, ainda que esteja bastante cansado, quando regresso de viagem, posteriormente ao mail, o insónia é dos primeiros sites que abro, é excelente a ideia de partilhar uma garrafa de vinho... por todas as vezes em que nos detivemos nas vossas palavras. Foi lá que descobri um caminho para a micro-ficção, agrada-me a sua lucidez, a sua diferença (sou alérgico a papéis químicos) e, algumas vezes, a sua coragem, embora não me tire o sono é uma lufada de ar poético neste "mundo", sem paneleirices métricas ou outras, um guia obrigatório da minha actualização do "mundo", eu gosto, stay strong mano, é certamente um blog de grande importância, parabéns à casa, que dizer? é um dos melhores locais para "navegar" e aprender. Que continuem com o OlhO sempre desperto, do peito aberto às balas: Longa vida. Às vezes venho para colher discordâncias, outras para dar o meu prescindível sim, é o meu google de poesia, quando quero surpreender-me passo por aqui, é um dos meus livros de cabeceira, parabéns. A minha primeira insónia é logo ao começar (todos os dias) a manhã. Aqui gosto dos textos sobre escritores, gosto dos textos com sentido de humor, gosto de textos descritivos, gosto de textos que nos fazem pensar! Aprecio a poesia, a independência dos comentários políticos e a lucidez, o sonho do sono sem nada na margem do bocejo. À revelia das corporações, e longe das capelinhas de Lisboa e do Porto, o Henrique Fialho conseguiu impor o seu blogue como morada de referência, falando quase sempre de livros, em regra bem — bem no sentido de ter critério e ser bem escrito —, e muito pouco de politiquice, ou seja, fazendo o contrário do que garante audiências. Mas confesso que me chateia algo, até bastante, esta tanta insónia que permite tanto ler e tanto escrever - faz-me resmungar contra o meu constante sono. Eis os factos: chove para além de uma janela que me defronta, é (sem dúvida!) o sentido crítico o que me faz cá vir (quase) todos os dias. Insónia: antologia do esquecimento do(s) universo(s) (des)feito(s). Há palavras que estão a aparecer recorrentemente: poesia, obessão, sem filtro, pessoal, quixotesco e avalanche, boa poesia e boa crítica literária, três anos a escrever, à margem do circuito habitual da literatura e da crítica literária. Um blogue completo com bons textos, muita poesia, prosa, crítica, intervenção, música e devo-me estar a esquecer de alguma coisa.

22.5.08

ANSEIOS (título novo)

os anseios aguardam-nos
por detrás das sombras
fitam-nos esguios
por dentro do ar que respiramos
não nos é dado o sabor de vê-los
mas sabemos que estão lá
envoltos nas folhas das árvores
aguardando numa paciência horizontal
o momento certo
mais próprio
para nos engatarem os braços
e fazerem connosco
o que jamais faríamos com eles

Henrique Manuel Bento Fialho, antologia do esquecimento, p. 104, edição do autor, Maio de 2003.

MÁGOA DAS PEDRAS

Não é fácil escrever sobre a poesia de Joaquim Castro Caldas (n. 1956). Não porque seja uma poesia difícil – o que é isso de uma poesia difícil? -, mas porque os seus poemas encerram no âmago, enquanto entidades singulares em relação com o leitor, tudo o que possamos dizer acerca deles. Há uma transparência na poesia de Joaquim Castro Caldas que, muito frequentemente, a torna obscura. Recordo-me do poeta sentado, se a memória não me falha, no palco do café da Barraca. Recordo-me do poeta sentado, envolto numa nuvem de fumo, de copo de uísque na mão, a dizer/representar os seus poemas. Talvez seja aquele o ambiente natural desta poesia, uma poesia que nasce como uma voz que vem do fundo do corpo, palavras a pedirem uma pronunciação, vindo à boca como uma nuvem de fumo soprada no ar.

Continue a ler em Volumen.

um amigo

chora no ombro onde pousa
o amigo é um violino
estimado, obstinado
mesmo se dorme ao colo aberto de pau santo
de alfinete paciente e carinho antigo
o virtuoso ausente
omnipresente como um príncipe
e prenhe do murro seco
no estômago do mundo
o amigo é um chicote de raios de sol
para sacudir e arejar o pólen ao corpo indefeso
ao coração inocente e sábio
e ao suor da planície
é um homem à rasca pelo que fez por nós
mas não disse, não disse


Joaquim Castro Caldas

Joaquim Castro Caldas nasceu em Lisboa em 1956. Actor, boémio, poeta, diseur conhecido pela dinamização das segundas-feiras de poesia no Pinguim Café, no Porto, publicou livros de poesia tais como Português suave (1978), Convém avisar os ingleses (2002) e Mágoa das Pedras (2008).

UMA EXPLICAÇÃO

Tudo era mais simples quando apenas chovia
e a tristeza não reivindicava uma explicação,
quando o céu tingido de cinza era uma multa
passada ao excesso de velocidade do coração.

ESPELHO

A visibilidade coloca as pessoas à mercê da mais mortífera das armas: o olhar. Estas pessoas transformam-se em alvos disponíveis, sujeitos a julgamentos invariavelmente fabricados à superfície de impressões, sensações, suspeitas completamente subjectivas. Deste modo, se eu olho alguém devo, pelo menos, admitir que aquilo que vejo não é o que alguém é nem mesmo o que aparenta ser. É apenas o que os meus olhos, obnubilados pela subjectividade das minhas impressões, conseguem ver. De olhar os outros à sombra dos nossos próprios vícios e defeitos, se fazem a maior parte das críticas. Nenhum espelho resiste à parcialidade.

21.5.08

AS PESSOAS SAUDÁVEIS (título novo, reescrito)

as pessoas saudáveis são todas desinteressantes
arrastam os rostos pelo alcatrão das avenidas
de pálidos olhos trabalhados pelas rugas
sucumbem ao quebranto das sombras promíscuas

dissimulam-se em nédias bochechas
pulverizadas por uma vida disfarçada
agradecem-se em rubicundos troncos
perfeitos mas desmedidamente incompletos

Henrique Manuel Bento Fialho, antologia do esquecimento, p. 99, edição do autor, Maio de 2003.

OS PORTUGUESES SÃO UM POVO MEDÍOCRE, ANALFABETO E DESINTERESSADO #5

Mussolini foi um líder benevolente que nunca matou ninguém. Mussolini mandava as pessoas de férias para fora das fronteiras.

Silvio Berlusconi
(actual presidente do Conselho de Ministros da Itália, cargo que já ocupou no biénio 1994-1995 e de 2001 a 2006)
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MICROBIOLOGIA #10

AVÓ ENFRENTA ASSASSINO DO MACHADO

O louco assassino do machado aproximou-se da casa. Tendo saqueado o bairro inteiro, o seu saco de pilhagens estava quase cheio.
Sozinha dentro de casa, a avó sentou-se a fazer malha. O assassino levantou o seu machado ensanguentado e tocou a campainha do átrio. Lentamente, ela abriu a porta e lançou um olhar perscrutador ao rosto do assassino.
“Partida ou doce!” gritou o rapazito.


Diane Elliott
(Versão de HMBF)


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LABIRINTO #25


Maria João

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INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #48

SOPRO DE LUZ MORIBUNDA



Decidindo desligar o coração da corrente
puxou a ficha do sangue para o olhar
não voltar aos mares ou poisar
no parapeito da espera. Tudo ficou
apenas por um curto-circuito.
Uma parte de si apeou-se para sempre
no gesto, onde nunca houvera desespero algum.
Somente a constatação da sua vida ser
um tremoço a que Deus veio um dia tirar
o miolo
ficando casca seca, na berma da descrença.

Também nunca mais a vida fica a mesma
a partir do primeiro beijo
ou do primeiro corpo nu tocado.
Nem se esquecem as frésias depois
de lhes tomarmos o cheiro
ou dormimos em paz
quando uma paixão nos foge.
Como nunca desejamos amar
alguém que traga o nome
do desgosto mais amargo.

Um vinho ou um comprimido ajudam
a esquecer, mas, um novo amor, não.
Nunca. Um desgosto de amor é uma ferida
que mesmo sarando, deixa para sempre
uma cicatriz de disfarce impossível.

Não sabendo o que fazer destes minutos
senão guardar na lata vazia de salsichas,
luas de noites podres
onde o bolor viçoso prende
este enxovalhado olhar.
Se apanho secas de espera
é por ele ser a única razão de andar
por aqui, mesmo sabendo que
os planos de futuro
moram num cata-vento sem norte.

E se sonho vê-lo pegar numa seringa
espetar a agulha no seu coração
colher o sangue do amor
e vir cravá-la,
descarregando o seu no meu sangue

é por não suportar o medo
da nossa vida poder vir a ser
tão curta.


Jorge Aguiar Oliveira

20.5.08

WAITIN' FOR A SUPERMAN

ERA UM REDONDO VOCÁBULO #6


No final do século passado o mundo estava medonho, agora está apenas perigoso. Talvez se recordem da verdade suprema contida numa botija de gás, de pessoas pegando fogo a si próprias no templo do sol, de suicídios colectivos com transporte garantido para a estrela Sirius ou para a porta do paraíso na cauda brilhante do cometa Hale-Bopp. Esta surrealidade real assemelha-se à trajectória dos The Flaming Lips, que, com The Soft Bulletin, um álbum catalogado de pop sinfónica, assinaram um dos melhores retratos da chamada tensão pré-milenar. Wayne Coyne deixou de ser um compositor meramente extravagante, experimental e megalomaníaco para se transfigurar num dos mais perspicazes observadores da alienação moderna. A filosofia é algo simplista: a existência exige-nos uma luta permanente contra a insanidade, uma insanidade que não se vence senão sonhando, amando, impondo menos condições à vida, mantendo a esperança. A ironia é certeira: tell everybody waitin’ for a superman that they should try to hold on best they can. E, deste modo, atrasar a partida, adiar o fim, resistir ao simplismo tentador da morte. Muitos insectos zunem na cabeça dos seres humanos, importa organizar-lhes os zunidos numa melodia épica, instrumentalizar o ruído. Violinos, sintetizadores, programações apaixonadas, o ritmo sincopado de um coração, alguém a apanhar um tiro sem dar por isso, coros celestiais, súbitas transformações. O melhor químico é o amor. E esta a melhor banda sonora para ver o cometa passar.

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DAVA UM BELO MICRÓBIO

Uma pessoa como eu sofre quando vê telejornais ou lê jornais. E fica muito contente quando vê que o arrumador da cerveja cergal, para justificar a moeda pelo redundante trabalho de me apontar um lugar de 20m2 num gigantesco pátio vazio de 500m2, espanta um pombo que ali está por perto, não vá ele importunar o senhor doutor. «Sai daqui ó pombo!» diz o arrumador desdentado. O pombo não obedeceu com muita convicção, sabe quem o espanta.

MICROBIOLOGIA #9

ÚLTIMA TESTEMUNHA

A confusão instalou-se. A próxima testemunha acabara de atravessar as portas da sala de audiências.
“Ordem no tribunal!” bramiu o juiz, batendo com o martelo.
Todos os olhos postos em Tommy, que estava sentado na barra das testemunhas, com a boca aberta em estado de choque.
Era agora óbvio quem tinha assassinado a sua mulher.
Ninguém.

Candice C. Mutschler
(Versão de HMBF)

O edita por escrito

2.

Na estação de Santa Justa, em Sevilla, senti uma náusea análoga à que contenho no aeroporto del Prat del Llobregat. Mas no aeroporto não se deve senão tratar-se do meu local de trabalho e num local de trabalho nunca se pode esperar encontrar o paraíso, quando muito o purgatório.
Na verdade, o que me faltou é a estranheza extrema que senti, no verão de 2006, à estação de Sants, em Barcelona. Ai essa experiência é irrepetível, irrecuperável!

*

Enquanto aguardava pela tapa da casa, um pedaço de tortilha, observei a fauna em redor.
Os velhos eram iguais aos velhos portugueses, na felicidade com que se sentam à mesa e na expressão triste com que se levantavam na direcção da casa de banho. As andaluzas tinham pinta de provocadoras e faziam jus à fama das espanholas em geral e desta região em especial. A minha experiência com estas criaturas é parca mas suficiente para perceber que são umas porcas. A única vez que estive com uma criatura destas, vi-me na boca dela. Eu costumo vir-me na boca, mas, alto aí com as egolatrias e com o meu mérito, não à primeira. Adiante e para rematar, ao balcão vi um maluco sobre o qual nada tenho a dizer se não que era igual a todos os outros malucos que existem no mundo.
Finda a refeição, tomei um café. Se a minha língua bem se lembra, já tinha tomado este café antes e em Portugal. Este era o pior dos portugueses cafés possíveis. Por conseguinte, o melhor dos cafés possíveis em Espanha.

*

Ainda em Santa Justa, o tédio do tempo de espera tomou-me o corpo todo. Até que quase me tomba num torpor total, dos pés à cabeça.
Então elevei-me ao espaço etéreo da escrita. E fico como que a ver estrelas…
Mas a escrita, à medida que escoa, também chega à exaustão. E esgota-se.
Quem não tem cão, tem trolley, concluo eu, e pus-me a dar volta à estação com a mala, como quem leva o bicho à rua.
Ai como eu gostava de soltar o trolley, para depois chamá-lo pelo nome, Trolley assim mesmo, como um animal de estimação, ouvi-lo responder com um latido e viesse a correr ao meu encontro, devidamente domesticado, tudo para uma mistura de choque e gáudio dos presentes.
Mas isto não passou de um delírio de quem trabalha no departamento de malas perdidas de uma companhia aérea. Ou de me esquecer que não tinha ninguém a quem dar a mão e passar o tempo nesse espaço sem tempo onde existem os apaixonados.
Vítor Vicente
1

LAMÚRIA

tinhas um jeito
que me domesticava
como a um cão faz o dono
encaravas-me como o resto
de uma refeição mal digerida

retraí os ombros
as mãos as pernas
continuei indiferente às horas
encerradas na lamúria do desejo

podia aguardar nos teus gestos
o amadurecimento das palavras
que cantei sem garganta

podia
mas não aguardei

agora
lamento apenas
que seja tão banal
o nosso amor

Henrique Manuel Bento Fialho, antologia do esquecimento, p. 34, edição do autor, Maio de 2003.

19.5.08

EM DESACORDO #17

"Parece-me um bocado absurdo este princípio do 'se não consegues vencê-los, junta-te a eles' que rege a política educativa do 'injenhero', de que o Acordo Ortográfico é mera faceta, não só pelo nivelamento por baixo que introduz mas sobretudo pela demissão de objectivos que confessa, incompatível com a excelência que se quer meta para a formação dos portugueses. (...) Porque a fonética dos regionalismos vai acabar por reivindicar desvios à norma que, sem a perspectiva histórica da etimologia, fica desamparada para suster esses anseios agora legitimados..."
Adolfo Luxúria Canibal, Correio da Manhã

Via Corta-fitas

POSITIVO

hino português suave
nós
portugueses
juramos:
jamais seremos «calvinistas morais radicais».
nós
portugueses
juramos:
jamais fumaremos tabaco
tão pouco charros
nós
portugueses
juramos:
jamais nos embebedaremos
nós
portugueses
juramos:
jamais seremos corruptos
nós
portugueses
juramos:
jamais interferiremos nos assuntos do estado, pois consideramos (a partir deste momento de grande indignação por parte do nosso líder incontestável) que os nossos estadistas (todos sem excepção) estão acima de qualquer crítica. que são pessoas íntegras, insuspeitas etc & tal.
e
em nossas casas jamais entrará um fumador, um alcoólatra, um corrupto, um homossexual, um fundamentalista calvinista.
nós
portugueses
somos católicos fatimistas (mesmo que não saibamos o que isso quer dizer) e perdoamos os pequenos deslizes tabagistas e mesmo sexuais de qualquer político nacional aerotransportado...
viva a pátria
viva o povo
viva o senhor primeiro ministro, nosso grande timoneiro
viva Portugal

(Encontrado na Confraria da Alfarroba)

Maria João

BOLOR NA SOLA DOS SAPATOS

sais-me da boca como um grito arquejante
tão ódio que dir-te-ia de pedra
língua transmudada em cópula
pareces gemer em não sei que sádico desejo

marcas-me o ritmo do coração
com batuta de maestro
tenho-te por mãe puta alimento
castrado que fico na tua ausência

procuro-te nos lugares
nos corpos nas coisas
encontro-te nos desastres do tempo
nas imagens nos sons que me respiram
nas pegadas que os sapatos cravam na terra

arrumo-te no fundo do pensamento
e envelheces húmida
como o bolor que se agarra às paredes
em profundo descanso

Henrique Manuel Bento Fialho, antologia do esquecimento, p. 91, edição do autor, Maio de 2003.

MICROBIOLOGIA #8

8 DE DEZEMBRO, 1980, 17:59

Ela fechou o livro de história e suspirou.
“Aquele General Custer. Nunca deveria ter deixado a segurança do território de Dakota.”
Ele estava com demasiada pressa para ouvir. Pegou na guitarra e dirigiu-se para a porta.
“Que diabo, Yoko. Vamos embora. Já estamos atrasados.”

David Congalton
(Versão de HMBF)

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #47

SMSúplica



negro
meu coração
está negro
todo negro

volta para mim
para dentro
de mim

prometo
deixar-te desfiar
o xaile negro
de cambraia
que cobre
meu coração
e nu de sangue
recomeçar
de novo
a viagem
para o teu

volta para mim
para dentro
de mim

se por maldade
ou vingança
não vieres
malvado
malvado sejas
até ao fim
da tua sombra


Jorge Aguiar Oliveira

18.5.08

A TAÇA É NOSSA


OS PORTUGUESES SÃO UM POVO MEDÍOCRE, ANALFABETO E DESINTERESSADO #4

Os fãs do Zenit São Petersburgo são racistas. Afirmou-o o treinador do clube russo, Dick Advocaat, que lamenta não poder contratar jogadores brasileiros porque os adeptos não gostam de pretos.

LUCKY THREE

ERA UM REDONDO VOCÁBULO #5


Como o rosto de alguém obsessivamente marcado na memória, pode um som permanecer dentro de nós para lá do desejável. Não há como apagá-lo, silenciá-lo. Não conhecemos o rosto, não sabemos a proveniência do som, é um som sem assinatura que surge, fica, cola-se-nos ao corpo e percorre todas as artérias da alma de um modo inexplicavelmente belo. Foi assim que me chegou a voz melíflua de Elliott Smith, indubitavelmente um dos melhores escritores de canções que a América ouviu nos últimos anos. Soube há pouco, numa consulta rápida, que foi dada uma designação àquela voz: "whispery, spiderweb-thin delivery". Não sei o que possa tal designação significar. Para mim é a voz dos anjos no corpo de um homem amargurado, numa personalidade também ela catalogável, porque tudo é catalogável quando nos faltam as palavras, com o rótulo da tristeza, dos caminhos perdidos na ausência de respostas para perguntas infindáveis. Smith morreu demasiado novo, com 34 anos, e muitas feridas no peito. Literalmente. Depressões, álcool, drogas e a lenda que persegue as estrelas pelo tempo adentro: suicídio ou homicídio? Matou-se, como todos os grandes poetas, nas canções que deixou. A formação filosófica, as leituras de Kierkegaard, emergem nas letras existencialistas, nos casos errantes, nos tiros no escuro, nos sonhos, nas dúvidas, nos amores platónicos – na ternura inocente dos amores platónicos – nas dúvidas que ameaçam as certezas. E aqueles arranjos vocais, acompanhados por violas acústicas, piano, algumas cordas e sopros, são como o vento a assobiar o sufoco da existência. Tenho uma questão, Elliott: who can really tell?

MICROBIOLOGIA #7


GOURMET COMESTIBLES

Os olhos opulentos de Mrs. Wigelsworth brilharam quando pediu o filete tenro de poldra de Pat R. Hamm, proprietário da Gourmet Comestibles, para um jantar de festa em honra do chefe da polícia.
Quando a sua filha não apareceu, o chefe prometeu encontrá-la. E encontrou.
Mr. Hamm foi preso.
O chefe teve uma indigestão.
Mrs. Wigelsworth tornou-se vegetariana.

Dolorez Roupe
(Versão de HMBF)

ENTRE NÓS (modificado)

entre nós, no inverno
as pessoas andam
de ombros encolhidos
gorjeiam suspiros
que contrastam rostos
inflamados de medo

entre nós, no inverno
histriões acocorados
nos desvãos das pensões
hipotecam o corpo
enquanto cospem a alma

entre nós, no inverno
as sombras fulguram
no gelo das luas
imbuindo-se do escarro
das criaturas

abandonados numa enxerga
de rosáceas pétalas
conquistada com os punhos
de um velho inimigo
os fantasmas que
entre nós, no inverno
reclamam brasas para o espírito
suicidam-se ouvindo Bach
e declamando Goethe

Henrique Manuel Bento Fialho, antologia do esquecimento, p. 52, edição do autor, Maio de 2003.

17.5.08

POSITIVO

HOTELLOUNGE (BE THE DEATH OF ME)


ERA UM REDONDO VOCÁBULO #4


Cheguei a dEUS por causa das camisas aos quadrados, um Nirvana a cheirar a espírito adolescente, numa época em que só se falava da terra que viu nascer Jimi Hendrix (ou Deus, ele mesmo, com uma guitarra em fogo nas mãos). Este dEUS tinha algo de diferente e invertido, já não era o Deus da mera desgraça, enxotado pelas linhas podres do mal-estar social. Havia arte neste dEUS, um pé à frente do tempo, aquilo a que, noutros tempos, alguém apelidaria de vanguarda. Nascido na capital da Europa, este jamais poderia ser o deus compassado do capitalismo americano. Havia nisto algo mais, algo diferente, uma mescla progressiva de canções apuradas. Nada de vinho a martelo. Deixei-me então embrenhar no caos poético destas canções, abanado por um violino frenético, guitarras distorcidas, ritmos entesados, solos de teclas a lembrarem as portas da percepção, uma certa alienação surrealista. Fui prestar culto a este dEUS na cidade de Coimbra, em plena Queima. Ouvi um contrabaixo a marcar a dança, territórios desconfortáveis, penosos, bebi um shot na companhia do Barman, um sopro sinistro a evoluir para o caos absoluto. E uma bela imagem do tempo: As far as I'm concerned time is the state of my jeans. Em certos momentos, a calmaria arty que pontua as construções complexas e intrincadas do pior de todos os cenários transporta-me para um fundo soturno. Aleister Crowley numa orgia sincopada. Ainda assim, sempre notei neste dEUS uma vontade imensa de fazer algo diferente e melhor. Isso é bom.