30.6.05

MÁGOA

As ondas são as filhas brancas dos oceanos
E as filhas da chuva são as gotas de água,
Por que terá o meu corpo tremeluzente
Uma mãe como a Mágoa?

A noite é a mãe das estrelas
E o vento é o pai do mar –
O mundo está repleto de beleza,
Mas eu devo permanecer no meu lugar.

Versão possível de HMBF


Sarah Teasdale nasceu em St. Louis, Missouri, EUA (1884-1933). Pertenceu à Academia dos Poetas Americanos. Filha de uma família abastada, foi educada em casa até aos nove anos, após o que estudou na escola pública. Afectada por depressões e vivendo num mundo isolado da rua, afastado de todos os ruídos, tornou-se uma pessoa emocional e, simultaneamente, numa firme apoiante da literatura e das causas das mulheres. Rejeitada por um homem, acabou por se casar com Ernest Felsinger, o qual lhe alterou positivamente a existência e até os objectivos da sua produção literária. Apesar de frequentemente internada em hospitais psiquiátrios, tinha meios e usou-os para realizar diversas viagens dentro do seu país e na Europa, com uma estada na ilha da Madeira, onde escreveu alguma da sua poesia. Temendo a morte, caiu-lhe nos braços pelo suicídio. Entre outros trabalhos, realce para os seus livros Flame and Shadow, Helen of Troy and Other Poems (que inclui poesia sobre a Madeira) e Love Songs. A sua escrita evoluiu da tendência tradicional feminina dos finais do século XIX para entrar na modernidade do século XX, com laivos de vanguardismo.

Biografia encontrada aqui.

29.6.05

ESQUECIMENTO

O esquecimento é como uma canção
Que, sem pulsação nem medida, se perde.
O esquecimento é como um pássaro de asas reconciliadas,
Estendidas e imóveis, -
Um pássaro infatigável que costeia o vento.

O esquecimento é chuva nocturna,
Ou uma velha casa na floresta, - ou uma criança.
O esquecimento é lívido, - lívido como uma árvore golpeada,
E pode ensurdecer as profecias da sibila,
Ou ocultar os Deuses.

Eu consigo lembrar demasiado esquecimento.

Versão (muito) livre de HMBF
Hart Crane, Harold Hart Crane, nasceu no Ohio em 1899. Levou uma vida agitada e nómada, dentro e fora do seu país. As suas inclinações homossexuais, num meio socialmente homofóbico, condicionaram bastante a sua vida afectiva e emocional. Relações temporárias e, por vezes, violentas, terão sido forte contributo na formação de uma personalidade conturbada, impetuosa e, já numa fase final da vida, com claras tendências depressivas. Publicou a sua primeira colecção de poemas em 1926: White Buildings. Antes disso, havia já publicado alguns poemas em pequenas revistas de culto. Agastado com o insucesso daquela que Crane considerava ser a sua obra fundamental, The Bridge (1930), o poeta foi-se deixando tomar pelo vício do álcool. Suicidou-se no dia 26 de Abril de 1932.

28.6.05

Três poemas

Os meus lábios
como dóceis
ruidosas ceifeiras inflamadas
que pedem um rincho
de gasolina
porque beijar-te
é cortar erva
erva
erva
odor a erva
odor a erva
recém cortada.

O meu corpo
fervedouro de erva
gelada
para ensinar anatomia
e botânica
e o meu corpo
ensinamento
erva que ninguém recolhe
erva que o vento pisa
erva que se faz sola
de mil sapatos vazios.

A tua cama
fria e pedregosa
é o leito de um rio:
És um rio
um rio que chora
debaixo dos meus abraços de madeira
madeira que flutua
madeira que não sabe penetrar
és um rio
és um rio que transborda
és um rio e nos meus lábios
nos meus lábios desembocas.


1977

Versão possível de HMBF
Pedro Casariego Córdoba, Pe Cas Cor, nasceu em Madrid em 1955. Poeta e pintor de culto, dedicou-se à escrita entre 1974 e 1986. Cada um dos seus livros de poemas resulta de uma sequência temática meticulosamente organizada. Foram reunidos postumamente em Poemas encadenados (1977-1987). Publicou muito pouco em vida, em edições marginais, e participou em algumas antologias e revistas. O seu primeiro poemário, La canción de Van Horne, foi escrito contava o poeta 22 anos de idade. Mas o primeiro a ser publicado seria La risa de Dios, em 1985, escrito em 1978. Suicidou-se em 1993, depois de terminar um conto ilustrado para a sua filha com o qual deu por encerrada toda a sua obra.

27.6.05

A JAULA

Lá fora há sol.
Não é mais que um sol
porém os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Eu sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até de manhã
quando a morte pousa nua
na minha sombra.

Eu choro debaixo do meu nome.
Eu agito lenços na noite e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Eu oculto cravos
para escarnecer dos meus sonhos enfermos.

Lá fora há sol.
Eu visto-me de cinzas.


Tradução possível de HMBF.


Alejandra Pizarnik nasceu em Buenos Aires no dia 29 de Abril de 1936. Os seus pais eram imigrantes judeus russos. Estudou filosofia, letras e pintura. O seu primeiro livro, La Tierra Más Ajena, foi editado em 1955, tinha Alejandra 19 anos. Viveu em Paris entre 1960 e 1964, onde trabalhou na imprensa escrita, publicou poemas e crítica literária, traduziu poetas (Artaud, Michaux, Cesairé, entre outros). O regresso a Buenos Aires é marcado pela edição de algumas das suas obras mais representativas, nomeadamente Los Trabajos y Las Noches (1965). Noctívaga e frequentadora assídua de cafés literários, Alejandra Pizarnik sofria de depressão crónica. Acabaria por se suicidar aos 36 anos de idade.

26.6.05

NAVEGADOR

Embala-me no batel das estrelas!
Cansam-me a cabeça as vagas!

Há muito quero acostar – cansam-me
A cabeça os sentimentos:

Hinos – louros –heróis –hidras –
Cansam-me a cabeça os jogos!

Deita-me entre ervas, carumas –
Cansam-me a cabeça as guerras…

12 de Junho de 1923
Marina Tsvetáeva nasceu a 6 de Setembro de 1892 em Moscovo. Em 1910 editou o seu primeiro livro de poesias, Álbum Nocturno, e em 1912 o segundo, Lanterna Mágica. Depois, até 1922, as suas poesias só saíam em publicações periódicas. Em 1922 emigrou para o estrangeiro, onde viveu durante dezassete anos (Boémia, Alemanha, França). De 1922 a 1928, foram editados vários livros seus de poesia, tanto na Rússia como no estrangeiro; além disso, iam sendo editadas, em publicações periódicas, as suas peças teatrais em verso, autotraduções, traduções da poesia de Púchkin e de alguns poetas russos e alemães para língua francesa, e também as suas obras autobiográficas em prosa. Em 1939 voltou com o filho Gueórgui para a União Soviética, para se juntar ao marido e à filha (que tinham regressado em 1937) e para «dar uma pátria» ao filho (que nascera em 1925 no estrangeiro). Em Agosto de 1939, a filha e o marido de Tsvetáeva foram presos e condenados: a filha a 8 anos de trabalhos forçados, o marido à pena máxima (foi fuzilado em Outubro de 1941). Em Agosto de 1941, na altura da invasão nazi (II Guerra Mundial), Marina Tsvetáeva foi evacuada, juntamente com o filho, para a cidade de Elábuga, nas margens do rio Kama, e em 31 de Agosto de 1941 suicidou-se. O seu filho Gueórgui morreu na frente de combate em 1944.
In Depois da Rússia, 1922-1925, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio D'Água, Novembro de 2001.

24.6.05

DREAM SONG 118

Ele questionou-se: Amarei eu? todos estes aplausos,
jovens beldades sentadas a meus pés & tudo,
e tudo.
Cansa-me, ponderou: ou quebro as regras
e amo-me a mim próprio, ou as estúpidas questões que me colocam
levar-me-ão ao homicídio –

tantas beldades, de um lado ao outro,
os muros atrás de mim, para os quais rastejo
fora da minha voz repetitiva –
o micro dobrado para baixo, os perguntadores tolos caem
sobre si próprios numa audiência de cinzas
e Henry volta a regozijar-se

no escuro e no sossego, e uma única beldade solitária
que nunca se aproximara de Henry enquanto a populaça
se reunira à sua volta:
viu para além do óbvio, ela viu que ele estava só
e esperou que ele se escondesse atrás do muro
e tudo.

Versão possível de HMBF.
John Berryman, John Smith, nasceu no Oklahoma em 1914. O seu pai suicidou-se, contava o poeta apenas doze anos. Alguns meses depois, a sua mãe casou mudando-se para Nova Iorque. Em 1931, John Berryman tentou suicidar-se pela primeira vez. No ano seguinte, foi estudar para a Universidade de Columbia, publicando aí os seus primeiros poemas. Mais tarde, viria a estudar dois anos em Inglaterra onde terá conhecido Yeats, Eliot, Auden e Dylan Thomas. Já em 1939, Berryman foi leccionar para a Wayne University, em Detroit, ocupação que acumulou com a de editor de poesia da The Nation. Nesse mesmo ano foi hospitalizado, devido a problemas de epilepsia. Outros problemas foram então desenvolvendo-se na personalidade de Berryman, como os esgotamentos nervosos agravados pelo vício do álcool. A sua primeira colecção de poemas apareceu em 1940 em Five Young American Poets. Casou-se em 1942 e, no ano seguinte, publicou Poems. Desde então, o poeta americano foi-se consolidando como académico e autor de ensaios e poesia. Ganhou vários prémios literários, ao mesmo tempo que a sua vida privada se foi degradando devido ao alcoolismo. Em 1964 foi-lhe atribuído o prémio Pulitzer pelas suas The Dream Songs, obra composta por mais de 380 poemas onde o personagem central, Henry, expõe a sua controversa personalidade. Depois de várias tentativas de desintoxicação, divórcios, condenações, despedimentos, John Berryman acabaria por suicidar-se, saltando de uma ponte em Minneapolis, em 1972.

23.6.05

DESBORDAMENTO

Por tanta vida que transporto no meu sangue
vacilo
no vasto Inverno.

E de repente,
como por uma fonte que se solta
na estepe,
uma ferida que no sonho
se reabre,

nascem pensamentos
no desértico castelo da noite.

Criatura de fábulas, pelas mudas
habitações onde se consomem as lâmpadas
esquecidas,
transcorre leve uma palavra branca:
voam pombas desde a açoteia
como numa paisagem marítima.

Bondade, regressas a mim:

desfaz-se o Inverno no desbordamento
do meu sangue mais puro,
o pranto ainda pode ser docemente nomeado perdão.


12 de Janeiro de 1935

Tradução possível de HMBF.


Antonia Pozzi nasceu em Milão em 1912 e suicidou-se aos vinte e seis anos de idade, no ano de 1938. Licenciada em Letras com uma tese sobre Flaubert, a sua poesia apenas foi tornada pública postumamente. Parole, editado pela primeira vez em 1939, tem sido alvo de inúmeras reedições. Começou a escrever poesia muito cedo, interessando-se por literatura e filosofia. A sua poesia, de ritmo diário, é marcada por uma forte intimidade e pelo desassossego emocional. É importante referir que apenas em 2001 os seus poemas foram editados tal como Antonia os havia escrito, já que nas primeiras edições de Parole sofreram algumas transformações operadas pelo seu pai. De temperamento frágil e muito sensível, Antonia Pozzi suicidou-se quando a guerra assolava toda a Europa.

22.6.05

O OFÍCIO DO POETA

Contemplar as palavras
escritas sobre o papel,
medi-las, sopesar
o seu corpo no conjunto
do poema e, depois,
tal qual um artesão,
distanciar-se a observar
como emerge a luz
da delicada textura.

Assim é o velho ofício
do poeta, que começa
na ideia, no sopro
sobre a poeira infinita
da memória, sobre
a experiência vivida,
a história, os desejos,
as paixões do homem.

O povo oferece-nos
a matéria do canto
com a sua voz. Devolvamos
as palavras reunidas
ao seu autêntico dono.


Tradução possível de HMBF.

José Agustín Goytisolo nasceu em Barcelona no dia 13 de Abril de 1928. Sua mãe faleceu, tinha o poeta dez anos, vítima de um bombardeamento franquista. Palabras para Júlia, um dos poemas mais célebres de José Agustín Goytisolo é dedicado à sua mãe. Publicou o seu primeiro livro, El retorno, no ano de 1955, já depois de haver começado a estudar Direito, estudos que viria a terminar na capital espanhola. Amigo de vários poetas e ficcionistas combatentes da ditadura franquista, Goytisolo foi sempre um poeta anti-academista, mais inclinado para a vida nocturna e para a boémia. Ganhou vários prémios literários, traduziu vários poetas, organizou antologias. O seu último livro, Cuadernos de El Escorial, data de 1995, depois de alguns interregnos motivados por depressões, excessos, crises criativas várias. Suicidou-se no dia 19 de Março de 1999.

21.6.05

POEMA DO SÉCULO 30

Esta é a sonhada
Coerência
Que a paz de
Não recordo quem
Esteja convosco Irmãozinhos do Planeta Terra
Próximo da Vizinha Centauro
A 80 milhões de quilómetros
De Vénus
E mais coisa menos coisa de Marte:
No Astro
Há cristais
Quartzo
Cores
Trepadeiras
Cheias
De flor
What’s that flower
you have on?
Could it be a faded
rose from days gone by
A cada dia que passa escrevo pior
Inglês. Ma to parlo.
E a pior gestão
É a que não se realiza
Será isto poesia?
Oui.


Tradução possível de HMBF.

Luis Hernández Camarero nasceu em Lima no dia 18 de Dezembro de 1941. Médico de profissão, é hoje considerado um dos mais originais poetas da geração de 60 da poesia peruana. Deixou de publicar em 1965, depois de três auspiciosos conjuntos de poemas: Orilla (1961), Charlie Melnick (1962) e Las Constelaciones (1965). Na década de 1970, a sua produção foi composta por pequenos cadernos manuscritos que oferecia aos amigos. Muitos desses cadernos eram embelezados com desenhos do poeta e foram alvo de uma mais ampla divulgação após a sua morte, que viria a acontecer em 1977, na cidade de Buenos Aires, em consequência de suicídio.

20.6.05

OS BOMBARDEIROS

Nós somos a América.
Somos os enchedores de caixões.
Nós somos os merceeiros da morte.
Nós empacotamo-los como se fossem couves-flor.

A bomba abre-se como uma caixa de sapatos.
E a criança?
A criança certamente não boceja.
E a mulher?
A mulher lava o seu coração.
Foi-lhe estropiado
e, porque está queimado,
num acto derradeiro,
ela enxagua-o no rio.
Este é o mercado da morte.

América,
onde estão as tuas credenciais?


Tradução possível de HMBF.

Anne Sexton (Anne Gray Harvey) nasceu em Newton, Massachusetts, em 1928. Talvez devido aos problemas de alcoolismo do pai, Anne procurou cedo libertar-se da família. Fala-se em abusos sexuais na infância e de muita hostilidade por parte da mãe. Com graves problemas de concentração e uma atitude desobediente, nunca foi boa aluna. Começou a escrever poesia numa escola em Lowell, para onde foi enviada em 1945. Em 1953 foi mãe pela primeira vez. Em 1955, depois de dar à luz pela segunda vez, Anne iniciou um programa terapêutico devido a depressões que se vinham agravando nos últimos anos. Tentou suicidar-se algumas vezes, na sequência das depressões provocadas por uma vida familiar bastante conturbada. Em 1967 recebeu o prémio Pulitzer pelo livro Live or Die (1966). A sua popularidade e reconhecimento foram crescendo ao longo dos anos, quer como poeta quer enquanto dramaturga. Em 1973, depois do divórcio, agravaram-se os problemas de solidão, alcoolismo e depressão. Suicidou-se em Outubro de 1974, asfixiando-se com monóxido de carbono na sua garagem.

19.6.05

JAZES, POETA

Jazes, poeta, em teu discurso
pífio quando tentas poéticas
alheias. A meias vou tentar,
e a ti tentar dar melhor ar,
outra tristeza alegre. Jazes poeta,
mas vá lá!, vá lá!, ainda resolves
as palavras cruzadas desta vida.
Vidinha airada, como assim convém
a quem no campo tem um batatal.
Mas, olha lá bem!, bens ao luar
não tens, pois na voragem foram
eirós, pinhais e bacelinhos. O canastro
vigilante – andor! – também se foi.

Trovas de uma história – tanto lastro!

Eduardo Guerra Carneiro nasceu em Chaves em 1942. Estudou História, mas cedo se dedicaria por inteiro à poesia e ao jornalismo. Trabalhou em várias publicações da imprensa escrita, tais como os jornais O século, República, Diário Popular, entre outros. Publicou o seu primeiro livro de poesia em 1961, O Perfil da Estátua, ao qual se seguiriam mais 12 títulos, o último dos quais em 2001: A Noiva das Astúrias. A par dos livros de poemas, deu também à estampa dois livros de crónicas. De espírito inquieto, amigo do copo e devoto de um certo retiro - morava no Bairro Alto -, nunca conviveu muito bem com o teimoso esquecimento a que a sua obra foi votada ao longo dos anos. Suicidou-se em Lisboa, em 2004.

17.6.05

DÉCIMA INGÉNUA

Oh lembrança de infância, e leite alimentício,
E oh adolescência e o seu esplendor de início!
Nos tempos de garoto era já meu labor
- Pra evocar a Fêmea e embalar a dor
De ter um pirilau, imperceptível ponta
Irrisória, prepúcio imenso aonde aponta
O esperma que há-de vir, ó sebácea miragem,
Bater punheta com essa bonita imagem
De uma suave pele de ama de menino.

Pois inda hoje bato a punheta sozinho!

1890

Tradução de Luiza Neto Jorge

Paul Verlaine nasceu na França em 1844. Foi, por dois breves anos, estudante de Direito. Leitor de Baudelaire aos 14 anos de idade, deixou-se seduzir rapidamente pela boémia dos cafés parisienses e pelo consumo de álcool. Devoto da bebida e da escrita, publicou o seu primeiro livro – Poèmes Saturniens – decorria o ano de 1866. Apesar das tendências homossexuais, casou-se em 1870. Para a história ficaria, porém, a relação apaixonada com Arthur Rimbaud. De temperamento violento, é difícil determinar, mas fácil de imaginar, o quão sofrível terá sido o relacionamento com a sua mulher. Abandonou a família para viver com Rimbaud, em Londres e Bruxelas. A relação terminaria com Verlaine a disparar sobre o poeta das Iluminações. Preso durante 18 meses, acabaria por se converter ao catolicismo mais tarde. Foi, entretanto, publicando poemas, pequenas biografias e contos. A saúde não resistiu aos excessos eróticos e alcoólicos, obrigando o poeta a passar largos períodos hospitalizado. Passou os seus últimos anos na companhia de prostitutas e de um homossexual de nome Bibi. Morreu em Paris, no dia 8 de Janeiro de 1896.

14.6.05

LAST BLUES, TO BE READ SOME DAY

Foi só um flirt
e sabias, claro –
alguém foi ferido
há muito tempo.

Mas nada mudou
o tempo passou –
um dia chegaste
um dia morrerás.

Alguém morreu
há muito tempo –
alguém que queria
mas não sabia.

11 de Abril de 1950

Tradução de Carlos Leite.

Cesare Pavese, o grande poeta da solidão, nasceu em Itália em 1908. Estudou filologia inglesa na Universidade de Turim, após o que se dedicou à tradução de escritores de língua inglesa. A sua obra abarca títulos ficcionais, ensaísticos e poéticos. Deixou, para a posteridade, um dos mais belos diários, publicado postumamente, alguma vez escritos: O Ofício de Viver. Passou um ano na prisão, por motivos que se prendem à sua resistência antifascista. Por essa altura publicou a sua primeira recolha de poemas: Trabalhar Cansa (1936). Trabalhou como conselheiro editorial de Einaudi. Depois de várias crises depressivas, acabou por se suicidar, num hotel de Turim, no dia 27 de Agosto de 1950. Curiosamente, acabara de receber um prémio literário.

13.6.05

PARA FAZER UM POEMA DADAÍSTA

Pegue num jornal.
Pegue numa tesoura.
Escolha no jornal um artigo com o comprimento que pretende dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Em seguida, recorte cuidadosamente as palavras que compõem o artigo e coloque-as num saco.
Agite suavemente.
Depois, retire os recortes uns a seguir aos outros.
Transcreva-os escrupulosamente pela ordem que eles saíram do saco.
O poema parecer-se-á consigo.
E você será um escritor infinitamente original, de uma encantadora sensibilidade, ainda que incompreendido pelas pessoas vulgares.

Tradução possível de HMBF.

TZ

Tristan Tzara, pseudónimo de Sami Rosenstock, nasceu na Roménia em 1896. É especialmente conhecido por ter sido um dos fundadores e princiais teóricos do movimento Dada. São da sua autoria os principais manifestos da «revolução dádá», levada a cabo, primeiro, em Zurique e, posteriormente, em Paris. Nesses manifestos encontramos, provavelmente, os mais importantes contributos poéticos de Tzara. A defesa de um (anti)discurso essencialmente revolucionário, assente num nihilismo de base, com repercussões estéticas e políticas, são alguns dos princípios aí defendidos. Mais tarde, em 1930, abandonou a atitude avassaladora dádá em prol de um surrealismo eminentemente político. Aliou-se à Resistência francesa e ao Partido Comunista durante a II Grande Guerra, tendo-se tornado cidadão francês em 1947. Em 1956 abandonou o comunismo, em sinal de protesto contra acções perpetradas pelo regime estalinista. Morreu em Paris, no dia 25 de Dezembro de 1963.

Álvaro Cunhal (1913-2005)

Para um “jovem” nascido alguns meses após a revolução de Abril de 1974, Álvaro Cunhal só pode ter um significado construído na base de testemunhos mais e/ou menos fiáveis. Não me interessa minimamente o lado político do homem. Ainda que simpatize com o comunismo ideológico, jamais me reveria num sistema de ideias que, levado à prática, tem arrastado consigo atentados consecutivos contra os direitos humanos fundamentais, perseguições a intelectuais, homossexuais e intelectuais homossexuais, intolerância à diferença, paranóia “gregacionista” e cooperativista, tão péssima convivência com a liberdade de opinião e com a expressão individual. Paradoxalmente, para mim, Álvaro Cunhal ficará como um símbolo humano de certos valores que, por tanto rarearem nas sociedades actuais, são, cada vez mais, urgentes de relevar: perseverança, espírito de sacrifício, solidariedade, fé absoluta no homem e nas suas capacidades. Álvaro Cunhal, para este “jovem” nascido alguns meses após a revolução de Abril de 1974, ficará como sinónimo duma luta corpo a corpo com a mais paupérrima das ditaduras europeias do século XX. E ficará como o símbolo máximo de milhares que, lutando pela liberdade, ainda que em determinada altura saindo derrotados, só poderão hoje ser recordados como vencedores. Por isso lhe agradeço.

12.6.05

OS SONHOS DE UM CONDENADO À MORTE

Põe-me feliz todo o sonhar –
- O devaneio pelo encanto
De ler romances e findar
Só numa hora até nem tanto…

Fazer um mundo recriado,
Meu – em que tudo poderei –
Sem ter que querer o destinado
A património de algum rei.

Sem o futuro me aparecer
Como cuidado a repensar,
Só, me retiro no prazer
De, quando muito, recordar

- Quimera! – os tempos de menino
Facto mais forte que o ser velho:
É isso coisa que eu domino,
Porque envelheço sós e quero.

Palácios faço desmedidos
E neles belezas por achar.
No chão dos prados estendida
Liza, ao meu lado vejo estar.

O seio cobre-o claro véu
Que não me cobre de pensar
Que o mal está em ser só eu
Quando um tal sonho me findar.

Na minha antiga azul mansão
Feito marido e pai revelho
‘Inda mãe boa me dá a mão
Saltam-me netos nos joelhos,

E às sombras de árvores copadas
Sonho com ler e escrever.
Porquê – ah! – um som de trovoada
Pode um tal sonho suspender?...

Tradução de Aníbal Fernandes (?).

PFL

Pierre-François Lacenaire nasceu em 1800 em França. Estudou no liceu de Lyon e no seminário de Alés, que foi obrigado a abandonar devido a mau comportamento. Começou, muito novo, a cometer pequenos delitos. Apesar da sua reconhecida inteligência, nunca levou a cabo quaisquer estudos de monta. De temperamento difícil, debochado e indelicado, refugiou-se em Paris no ano de 1825. Tentou, com insucesso, publicar as suas poesias. Alistou-se no exército em 1828, vindo a desertar um ano depois. Diz-se que fundou uma associação de malfeitores, dedicando-se ao crime. Bréton descreveu-o assim: «desertor e falsário na França, assassino na Itália, mais tarde ladrão e matador em Paris, e sempre – como ele afirma – a meditar projectos sinistros contra a Sociedade.» Dedicou-se à redacção das suas Memórias, Revelações e Poesias, gozando tudo e todos, nos poucos meses que entremearam a sua última condenação (12 de Novembro de 1835) e a respectiva execução (9 Janeiro de 1836).

9.6.05

ORVALHO

ORVALHO. E eu deitado contigo, tu, no lixo,
uma lua lamacenta
atirou-nos com a resposta,

nós separámo-nos aos bocados
e voltámos a esmigalhar-nos juntos:

O Senhor partiu o pão,
o pão partiu o Senhor.

Paul Celan (Paul Antschel) nasceu na Roménia no dia 23 de Novembro de 1920. Foi estudar medicina em Tours no ano de 1938. No ano de 1942, em consequência da ocupação nazi, os pais de Celan, judeus-alemães, foram deportados para um campo de extermínio. Celan foi enviado para um campo de concentração, onde trabalhou até 1943. Em 1945, após a invasão soviética da sua terra natal, o poeta foi viver para Bucareste. Aí trabalhou como tradutor e leitor de uma editora. Mudou o seu nome para Paul Aurel, depois para Paul Ancel e, por fim, para Paul Celan. Em 1947 publicou os seus primeiros poemas, escritos em alemão, na revista romena Agora. Um ano depois foi editado, em Viena, o seu primeiro livro: A Areia das Urnas. Em Julho de 1948, Paul Celan fixou-se em Paris. Voltou a estudar Germanística e Linguística, licenciou-se em Letras, escreveu e traduziu (Jean Cocteau, E. M. Cioran, Picasso, Simenon, Jean Cayrol, Fernando Pessoa, Rimbaud, Mandelstam, etc). Em 1958 recebeu o Prémio Literário da Cidade Hanseática de Bremen e, dois anos depois, o Prémio Georg Büchner, da Academia Alemã de Língua e Poesia. Suicidou-se no Sena, em 1970.

8.6.05

metamorfose

uma namorada entrou-me em casa
fez-me a cama
esfregou e encerou o chão da cozinha
lavou as paredes
aspirou
limpou o banheiro
esfregou o chão do quarto
cortou-me as unhas dos pés e
o cabelo.

depois
tudo no mesmo dia
veio o canalizador e consertou as torneiras da cozinha
e do banheiro
e o homem do gás consertou o esquentador
e o homem dos telefones consertou o telefone.
agora sento-me no meio de toda esta perfeição.
é um sossego.
acabei com todas as minhas 3 namoradas.

sentia-me melhor quando tudo estava
desordenado.
precisarei dalguns meses para que tudo volte ao
normal:
nem consigo encontrar uma barata para conviver.

perdi o meu ritmo.
não durmo.
não como.

roubaram-me a minha
imundície.


Tradução livre de HMBF.

Charles Bukowski (Heinrich Karl Bukowski), filho de um soldado americano e de uma alemã, nasceu na Alemanha em 1920. Aos três anos foi viver para os EUA, tendo residido 15 anos em Los Angeles. Estudou literatura e jornalismo. Começou a escrever muito cedo e publicou os seus primeiros contos em 1944. Apenas terá começado a escrever poesia quando já tinha 35 anos. Trabalhou em bares, nos correios, estações de serviço, levando uma vida boémia à base de álcool, mulheres, apostas em corridas de cavalos e lutas de boxe. Foi várias vezes hospitalizado, devido a problemas relacionados com o consumo excessivo de álcool. De personalidade inconformada e iconoclasta, Bukowski nunca se deixou associar a qualquer movimento literário. Completamente independente, foi construindo uma obra com cerca de 40 títulos publicados. O seu primeiro livro de poesia data de 1959: Flower, Fist and Bestial Wail. Morreu no dia 9 de Março de 1994.

7.6.05

NÃO QUERO MAIS DO QUE TENHO.

A medida para o malho,
Pela taxa da Cafeira
Que tem do malho a craveira,
São dois palmos de caralho,
Não quer nisto dar um talho.
E eu zombo do seu empenho
Pois, tenho um palmo de lenho
Com que outras putas desalmo,
Inda que tenha um só palmo
Não quero mais do que tenho.

Gregório de Matos, o Boca do Inferno, nasceu em Salvador, no Brasil, no dia 7 de Abril de 1623. Filho de um português e de uma baiana, estudou Humanidades no Colégio dos Jesuítas, tendo-se transferido posteriormente para Coimbra onde viria a doutorar-se em Direito. Em Portugal exerceu cargos de juiz criminal e procurador. Regressou ao Brasil com 47 anos de idade, recebendo cargos de vigário-geral e de tesoureiro-mor. Foi deposto desses cargos por não querer cumprir as ordens eclesiásticas. Optando por uma vida de boémia, ao mesmo tempo que aguçava o seu espírito mordaz em contundentes sátiras, foi-se transformando, com os anos, numa personalidade cada vez mais marginal. Uma das suas sátiras valeu-lhe a deportação para Angola. Em Luanda voltaria a exercer advocacia, regressando ao Brasil em 1695, para aí falecer um ano depois. A sua obra poética, satírica, pornográfica, mas também lírica e moral, foi compilada em seis volumes.

5.6.05

MÉZINHA DE PESSIMISTAS

Queixas-te que nada te sabe bem?
Continuas, Amigo, co’as mesmas manias?
Barafustas, cospes, injurias –
Paciência e coração se não contêm.
Dou-te um conselho, Amigo: Vê se um dia
Consegues engolir um sapo bem gordinho,
De repente e sem olhar um instantinho!
Vais ver como te passa essa dispepsia!


Tradução de Paulo Quintela.

FN

Friedrich Nietzsche nasceu no dia 15 de Outubro de 1844 numa região da Turíngia anexada à Prússia. Aos quatro anos de idade perdeu o pai e um irmão mais novo, mudando-se com a mãe para Naumburg. Aí viveu durante oito anos, na companhia da mãe, da avó paterna e de Elisabeth, a irmã mais nova que viria a publicar a primeira grande edição, distorcida, dos textos do filósofo/poeta alemão. Dedica-se à música, à poesia e à literatura. Faz os estudos em Pforta, Bona e em Leipzig. Em 1867 ofereceu-se como voluntário num regimento no conflito franco-prussiano, cumprindo cinco meses de serviço – interrompidos por uma queda de cavalo. Em 1868 conheceu Wagner. Já em 1869, Nietzsche foi para Basileia dar aulas de Filologia Clássica. Um ano depois, servirá o exército como maqueiro na guerra que opôs a França à Alemanha. Nietzsche contrai difteria e disenteria. Cada vez mais solitário em termos de pensamento, publica a sua primeira obra: A Origem da Tragédia. O livro é mal acolhido. Daqui até à sua morte, o filósofo alemão desenvolverá uma obra extraordinária e única, em completa solidão. Ao mesmo tempo, vai sendo assolado por crises de puro delírio, provavelmente resultantes de uma infecção de origem sifilítica. Dores de cabeça e de estômago constantes, perturbações oculares e dificuldades de palavra levam-no a um estado de insanidade mental. Faleceu demente, no dia 25 de Agosto de 1900.

Já está

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3.6.05

AMIZADE, AMOR…

Amizade, amor, igreja e santos, cruzes, imagens,
Altar e púlpito e música. Soa-lhe ao ouvido o sermão.
Depois de comer, o ensino dos filhos parece conversa
Ociosa e sonolenta pra homem, menino e raparigas, mulheres pias;
Depois vai ele, o senhor, o cidadão e artista,
Alegre campos fora e pelas veigas pátrias;
Os jovens seguem também, contemplativos.

Tradução de Paulo Quintela.

Friedrich Hölderlin nasceu em Lauffen, nas margens do Neckar, no dia 20 de Março de 1770. Seu pai faleceu tinha o poeta dois anos. Pouco tempo depois, faleceu sua mãe. Hölderlin começou a escrever poesia muito cedo. Aos 14 anos já os seus poemas eram lidos por colegas e professores seus. Em 1788 foi estudar Teologia para Tübingen, onde travou amizade com Hegel e Friedrich von Schiller. Por volta de 1793 foi trabalhar para Frankfurt, onde se apaixonaria pela mulher do patrão – Susette Gontard (a Diotima dos seus poemas). Hölderlin deixou Frankfurt em 1798, dedicando-se afincadamente à poesia, à filosofia e à tragédia. Após uma breve estadia em França, o poeta regressou ao seu país. Datam desta época os primeiros sinais de esquizofrenia, seriamente agravados pela notícia da morte de Susette Gontard. Hölderlin veio a falecer, obnubilado pela loucura, no dia 7 de Junho de 1843. De um estudo que Karl Jaspers dedicou ao poeta alemão, destaco estas palavras: Pode-se compreender o espírito de Hölderlin, podem-se ver também os efeitos da doença na sua obra; estes dois pontos de vista não se combatem, completam-se.

2.6.05

It's clear to see that you've become obsessed

Vou, de uma vez por todas, explicar porque acabei com o Universos Desfeitos (melhor, porque quero acabar… – aguardo resposta do Paulo Querido). As circunstâncias a isso me obrigam, dada a reacção de algumas pessoas e e-mails que tenho recebido e por aí fora. Quando resolvi transformar o Universos Desfeitos num weblog de/sobre poesia, nunca pensei que a coisa chegasse ao ponto de ter pessoas a pedirem-me para constar no Poemário que foi sendo construído, única e exclusivamente, na base de um gosto pessoal. Tive apenas um critério na selecção dos poemas: gostar dos mesmos e tê-los lido, não porque a isso me impus, mas porque assim calhou. Entretanto enviaram-me livros por correio normal e em formato digital, sugeriram-me/pediram-me leituras, pessoas desconhecidas e outras nem tanto. Foi bom receber alguma repercussão do trabalho ali desenvolvido, mas tornou-se um pesadelo ter que dizer não a algumas pessoas que me abordaram por várias motivos. Ainda hoje recebi dois e-mails de alguém que já editou poesia, publica frequentemente recensões nos jornais e em páginas online, alguém que admiro pela sua dedicação à poesia (note-se), a propor a sua contribuição e a “pedir” para constar naquele inventário de poetas que ainda lá vive (não porque eu queira, mas porque a isso me tenho visto obrigado). Não quero magoar ninguém, não é essa a minha intenção, por isso me custou tanto quando tive de dizer: não. Houve quem interpretasse isso mal, mas eu tinha para mim que a tal condição de haver lido o poema não por sugestão mas por acaso era absolutamente fundamental. O que me parece é que algumas pessoas se esqueceram que aquilo é apenas um weblog, e que tinha uma só pessoa na sua administração (uma pessoa que, por acaso, tem nove turmas de secundário para gerir). Não levo a mal essas pessoas, mas peço-lhes que não me julguem erradamente. Também penso que os weblogs se estão a tornar numa coisa demasiado séria e, em alguns casos, pouco mais que promocional. É possível que o fenómeno esteja associado ao facto de ser cada vez mais frequente encontrar no mercado livros que saíram de weblogs. Isso levará algumas pessoas a fazerem de um weblog uma espécie de meio para chegarem ao papel. Eu nunca aqui estive, nem estarei, por essa razão. Até porque sou ecologista. :) Agora, permitam-me, vem o choradinho da verdade: a minha filha, agora com dois anos, andava a interromper-me demasiadas vezes para que eu fosse brincar com ela. A ela, eu não podia dizer que não. Sendo assim, o Universos Desfeitos transformou-se-me num pesadelo. Esta Insónia será mais instantânea, o que me permitirá poupar tempo. Quero enchê-la, mas sem compromisso. A outra estava a transformar-se num compromisso. Ou seja, numa chatice. Afinal, eu só quero estar na blogolândia como uma criança que brinca.

A MINHA ALMA, FUGIU PELA TORRE EIFFEL ACIMA

A minha Alma, fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
- Fugiu, mas foi apanhada pela antena da TSF
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma)!...

Agosto de 1915


MSC

Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890 em Lisboa. Tendo perdido a mãe muito cedo, e estando o pai ausente, foi viver com os avós para uma quinta em Camarate. Aí começou a desenvolver uma sensibilidade complexa, atraída pelo mistério e pelo medo. Aos 9 anos morreu-lhe a avó, tendo ficado a cargo do avô. Começou a escrever pequenas peças de teatro e as primeiras poesias. Fascinado por temas como a loucura e o suicídio, a sua primeira peça, Amizade (publicada em 1912), escrita de parceria com Tomás Cabreira Júnior, ficou marcada pelo suicídio deste no dia 9 de Janeiro de 1911, com um tiro de pistola na cabeça, no pátio do Liceu de S. Domingos. Entretanto, Sá-Carneiro foi dando à estampa algumas novelas e o seu primeiro livro de poemas: Dispersão (1914). Muito se tem escrito sobre as obsessões literárias do poeta: loucura, suicídio, um certo kitsch, narcisismo, homossexualismo velado, delírio, etc. Mário de Sá-Carneiro passou os últimos anos da sua vida entre Lisboa e Paris, levando uma vida de boémia. Suicidou-se a 26 de Abril de 1916.