As lutazinhas
Aqui tudo é pequeno, tudo é ínfimo e efémero. Aqui, logo que nasce, tudo nasce com ferrugem. Tu és o meio de nada, eu sou o nada do meio. Aqui não importa, não interessa. Aqui o esquecimento marcha e pronto. Somos o esquecimento a marchar, em solene parada, pelas auto-estradas da (des)informação. Aqui o que importa só importa a quem importa. A quem não importa, aqui não tem porta. Porque irrita o que irrita, aqui? Porque comove o que comove, aqui? Porque ecoa o que ecoa, aqui? Porque o aqui vem de acolá e o acolá é também já o aqui. Digamos que, na verdade, não há aqui. Aqui é tudo um acolá em construção. Quem de acolá chegar aqui, quem de acolá vier para aqui, vem por quê? Que motivos trará aqui os que vêm de acolá? Confirmarem, reafirmarem, verificarem o quanto aqui são o aqui de acolá. Redondo? Redondo, este discurso? Tão redondo… Já alguma vez te perguntaste, ó homem, o que fazes aqui? Por que não ficas do lado de lá, do lado de fora? E porque te necessita tanto, a ponto de não resistires, o dizeres-te daqui ao mesmo tempo que te dizes de acolá? Com que prazer abres a porta aos teus inimigos? Tens inimigos? Ou simplesmente não tens amigos? Por mal que te pergunte, lembras-te quando os olhos se nos enchiam de lua? Quando o peito rebentava para dentro em fogos de artifício? Lembras-te quando os nervos se remexiam num formigueiro miudinho e as pálpebras ardiam de emoção? Oh! chorada comoção de lembranças! Eram os cachecóis em hélice, os cânticos do guerreiro, a afinada pantomima das palmas. Eram os devotados gritos da turba, a comunhão de um símbolo e um pingo de suor escorrendo-nos das fontes aos ombros. E nessa correria esquecíamo-nos da brasa que derretia o mundo. O esquecimento crescia, à medida que a fantasia tomava o lugar dos pés. Olha a bola no poste como um poema falhado. Olha o momento do penalty como a batalha da folha em branco. Olha a defesa instintiva como um verso caído do coração. Olha o drible como uma metáfora. Vê no remate certeiro, naquele que levanta a plateia em participado delírio, vê nesse remate um caminho para a imortalidade. Mas nunca esqueças, há horas em que o melhor é mesmo passar a bola. Passar a bola assim como quem passa a palavra. Porque aqui é um jogo, o jogo que nos predispusemos a jogar. Duvidas? Vá lá, confessa-te a ti próprio de uma vez. Mesmo por trás da palavra, o ego enche-se-te de tesão quando o drible é perfeito, o remate certeiro, o golo certo. Mas às vezes a bola vai-te ao poste. Sabes que às vezes a bola vai-te ao poste. É que lá fora, lá fora é bem pior. Rostos queimados. Corpos degoladas. Cidades extirpadas. Tudo porque a presunção deforma a vontade das forças que decidem por nós o destino do mundo. Se fossemos nós a mandar, seria tudo perfeito. Se fosse tudo como nós queremos, seria perfeito. Mas não é. Por isso mesmo vens aqui. Por mais nada, vens aqui e por aqui vais ficando. Milhares de anónimos votados à fome. Votados à miséria. São anónimos. Guerras que pretendem resolver, nunca saberemos bem o quê. Guerras que pretendem reorganizar, destruindo. Reformar, desfazendo. Guerras que pretendem salvaguardar-nos de vírus menos ameaçadores que os remédios. São as nossas lutazinhas, assim. Guerras ínfimas, pequenas, as possíveis. Nós, os ingénuos da política, sabemos que nesse jogo de poder apenas duas partes sairão vencedoras: o ódio e a incúria. Sob dissimuladas capas, assistiremos perpetuamente aos desfiles de medo e morte que a guerra, o motor do poder, imprime. Calados. Resignados. Quietos. Que se matem, matando-se. Que se nomeiem, nomeando-se. Que se afrontem, afrontando-se. Que se assassinem, assassinando-se. Os nossos filhos saberão dar valor ao nosso silêncio. Mas nós jamais saberemos dar valor à arte de fingir que não se vê, que não se sabe, que vai tudo correndo na boa… Fica sabendo: isto não tem nada que ver com lutar. Isto é apenas e tão só: estar aqui.



7 Comments:
Meu caro como há pouco coloquei a palavra "lutazinhas" lá no meu estaminé permite-me ficcionar uma ligação entre "as minhas" e as "daqui"? Pegando-lhe na melodia "bola", que aqui tão bem aborda?
"Fulano, no jornal Record, considera que no meu relato na SIC Sport do PSG-Bordeux aos 72 minutos me enganei no canto vs Pauleta. ORa isso é um sinal inadmissível da parcialidade não só da SIC Sport como de todo o sindicato a soldo dos interesses do Bordeaux, sendo este herdeiros do Saint-Etienne, como qualquer leitor da Bola (1971-1976) o saberá"
No relato radiofónico Salgueiros-Marco da época antepenúltima Sicrano invectivou o defesa Fernando por não se saber colocar aquando da realização de livres indirectos, algo que aqui demonstro errado e nada mais do que fruto da sordidez moral dos apaniguados ideológicos da corrente "salgueirista", algo só entendível por quem tem acompanhado a campanha do Olhanense e do Portimonense nesta época ..."
e de imbecilidade minha em imbecilidade minha (jpt) lá iria eu teatralizando as lutazinhas lá de outras paragens mediáticas agora constantemente transpostas para o bloguismo (mais me são irritantes quando a reboque de locomotivas bloguísticas, mas isso são meus gostos...)
desculpe lá o absurdo deste comentário. apenas me ocorreu ao ver a coincidência do termo, não tão usual assim, "lutazinhas"
Estamos aqui? então vamos jogar à bola?
JPT, na mouche (será assim que se escreve?). O meu problema, neste momento, é que acabe de chegar a casa de uma luta danada com uma garrafa de aguardente de cana. E agora? Respondo, não respondo? Bem…. O post, de longo, surge precisamente na sequência da invectiva ma-schambiana (será assim que se escreve?). Nisso pode estar certo, pois o que me levou ao dito foi, precisamente, o desdém. Fiquei triste, porque sou leitor assíduo, diário, do seu depositário. Rima e tudo. Bem, e isto tudo para dizer o quê? Aqui não importam as lutazinhas parolas de críticos e quejandos. A minha onda é outra. Sou leitor de livros, tá a ver? E sou leitor do que se diz sobre os livros que vou lendo, tá a ver? É claro e óbvio que tá! Limito-me a trazer para aqui o que me desgosta de acolá. Só isso. A pergunta será: por quê? Porque importa discutir esse quê. Há uns trafulhas que me irritam e outros que me perdoem. Eu, que não sou nada no meio da distracção, limito-me a dizer: o leitor tá atento! O leitor não dorme! O leitor até não se importa de apanhar as bolas! Mas tá atento, foda-se! É só isso, nada mais.
P.S.: Fica sabendo: isto não tem nada que ver com lutar. Isto é apenas e tão só: estar aqui.
P.S.2: Lutar, luto pelos meus. A mulher, a filha, o cão e o rebento que está a chegar.
pois a gente foi falando por email, como velhas comadres. as minhas lutazinhas não eram para aqui, como já disse. que eram sobre críticos e este estaminé nunca se me pareceu local de crítica. atenção, eu respeito e aprecio a crítica, literária ou outra. o que me irrita, já lho disse na surdina do privado, é este neo-hábito de vir para os blogs resolver contendas dos jornais sobre minudências
já agora, ando à procura de textos em português do heidegger o mais simples possíveis para dar a alunos do 1º ano, de cursos de pedagogia e direito (pouco dados a extremas sensibilidades filosóficas, entenda-se): este fim-de-semana reli um onde "no entanto" está traduzido (do francês) como portanto - o sentido do parágrafo altera-se. Vou fazer um post invectivando o tradutor mais a escola e amigos? (nem conheço o homem diga-se...)
era sobre isto que me referia. que isto quando chegar o dia para dar porrada nesta insónia há-de ser com link e tudo, caramba
abraço
Como pus uma auto-justificação auto-punitiva lá no meu recanto ligando para aqui permita-me o abuso de me citar, em email que lhe mandei, a propósito desta nossa bi-irritação:
"apenas me irritam ("que tenho eu a ver com isto?" perguntar-se-á V.) estas questões pessoais transpostas dos jornais e revistas para os blogs. está cheio de ajustes de contas o "literatismo" bloguístico. noutros ismos bloguísticos também, decerto. mas na maioria dos casos, pelo menos que eu apanhe, são contas ganhas e perdidas, lutadas, nascidas no entre-bloguismo
endobloguista? nem tanto. se calhar um pouco. mas acima de tudo desabafador..."
pronto, espero ter ficado mais claro.
Caro JPT,
Ficou tudo muito mais claro. Assim espero, também eu. Permito-me porém acrescentar: e no debate político? E no demais? Não há igualmente «o neo-hábito de vir para os blogs resolver contendas dos jornais sobre minudências»? O defeito, parece-me, é do meio e de “nós outros”. Como diria o russo, somos todos culpados. E eu mais do que os outros. A blogolândia, digo eu, não se livra de ser uma lândia inchada cá dentro do que vem lá de fora. Não se livra. O extraordinário é quando o lá de fora começa a inchar-se com o que vai cá de dentro. Quero com isto dizer, eu que não sou, nunca fui, de dualismos, que há uma amena confusão entre o que se passa no mundo e a forma como o mundo é por nós absorvido aqui “no meio”. Depois, depois cada um focará aquilo que lhe aprouver. Eu, para por mim falar só de mim, volto-me mais para as coisas dos livros porque são as coisas dos livros o que mais me interessa no quotidiano. E quando digo as coisas dos livros, digo todas as coisas dos livros. Mesmo as mais repugnantes, sórdidas e execráveis. Porque os livros também se fazem dessas coisas. Eles são tão humanos! A gente às vezes é que se esquece disso. E agora um P.S.: por que me picou o post no Ma-Schamba? (Para os visitantes à nora, o post é este: http://maschamba.weblog.com.pt/arquivo/2006/04/bloguismo_fauna.html) Porque nos últimos dias eu não vi “a flora de críticos literários” em esturrada cavaqueira noutro lugar. Refiro-me a este: http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2006/04/recado-ao-jovem-literato.html (com uma sequência hilariante de comentários); e a este: http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2006/04/nem-de-propsito.html (em tom de desabafo, provocado, lá está, pelo modo de viver o quotidiano que resta). Mas é claro que o que para aí não falta são lugares... Muita saúde,
olhe, não lhe tinha lido os comentários - agora também não, vi apenas que houve pancada.
v. tem razão, porrada sobre livros é tão justo, digno e legítimo como sobre outra coisa qualquer. não me repito, irritam-me estas minudências. mas, pensando bem, o que não são minudências?
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