27.12.07

L’INACCESSIBLE COMPLEXITÉ DU MONDE

Lamia Ziade
Quando fui para sacar o revolver, falhou-me o coldre. Há sempre qualquer coisa a interromper-me o disparo. Não sei se azar, se destino, mas há sempre qualquer coisa que não controlo, que não está nas minhas forças dominar, qualquer coisa que resolve por mim aquilo que, à partida, apenas eu teria a possibilidade de resolver. Sucede quando vou à caça, quando mergulho nas águas gélidas do pensamento, quando, no terreiro doméstico dos meus dias, vou deixando peças de roupa pelo caminho. Que poderei eu fazer contra esta sina? Não possuo a perspicácia dos pistoleiros, nem a rapidez dos samurais, não fui dotado de olhares assassinos, intimido os meus interlocutores apenas no despeito das horas vagas. Faltam-me os treinos quando bato as cartas na mesa, baralho o monte sem hesitação, mas só dou biscas aos adversários, trunfos na manga não trago, pois visto sempre mangas curtas. Reduzo-me à insignificância dos factos: Deus não quer nada comigo, e nem por isso posso queixar-me. Também nunca quis nada com ele. Mas às vezes dá-me uma certa nostalgia dos confessionários, da catequese, desses altares onde Deus se masturba com orações patéticas, às vezes dá-me uma certa nostalgia dos terços, das batinas, dos crucifixos. Fico deitado nas ilhas stop a mirar os transeuntes. Fixo-me nos cus das gajas, olho os acompanhantes no bico calado. Adoro mãos dadas, gente que caminha abraçada, curvas tão românticas quão acéticas. E juro que não lhes invejo os dias. Sei lá dos seus dias. Não posso saber. Sei apenas que fico para ali a pensar que devo ser um enteado do Senhor, uma vista curta do azar, um queixume com mais fome que barriga. A verdade é que já não me resta muito tempo. Tenho sido tanso nas opções da vida. Ninguém me manda ir comprar peixe sem estudar o mar, entregar-me assim nas mãos de quem apregoa na lota, ser mais filho que pai, apertar o sinto apenas à medida do umbigo burguês. Ninguém me manda lampejar talentos que não tenho, talentos que são dom apenas do nome ou, como já li algures, do berço e do leitinho enfarpelado durante a pequenez. Logo eu, que me contento com tão pouco. Vivo bem com o calor zoom zip das escapadelas, umas cervejinhas frescas à hora do descanso, lápis e papel, o que houver na mesa. Não sou nada exigente com os vinhos, nunca tanto quanto sou com os beijos. Garanto-vos também que até ter perdido as duas vistas num duelo zarolho, nunca dei conta de quanto podia valer um espelho reflector. É que, como sabeis, é por trás que um tipo nunca descansa. É por trás que as caladas atacam. É por trás que, desprevenidamente, mais as balas nos atingem e atravessam o cachaço. Depois nada há a fazer. Talvez, como vou apregoando aos mosquitos que ainda me escutam, dar connosco a mirar trancas enquanto desenrolamos as tranças da memória. Uma coisa é certa: não me entrego com facilidade ao esfreganço dos chicotes. Se me quiserem o sangue, então que afiem os dentes.

5 Comments:

At 12:19 da tarde, Blogger manuel a. domingos said...

quanto a mim: muito bom.
gostei de ler. sim senhor

 
At 12:47 da tarde, Blogger hmbf said...

agradecido

 
At 3:25 da tarde, Blogger etanol said...

porra! tanto a imagem cmo o texto são fortissimos!

 
At 3:40 da tarde, Blogger hmbf said...

não sei se devo
agradecer, hmmm

 
At 8:28 da manhã, Blogger Silvia Chueire said...

Ótimo!

 

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