31.10.07

INOCENTES


Os inocentes, com seus olhos varandim, recuam sempre nas paisagens, metem os olhos para dentro e sublinham os horizontes com baba de camelo. Metem as mãos nos bolsos quando são chamados a dar contas, olham muito para o lado do torcicolo, mas sabem dar à língua com a destreza das vítimas: nada connosco, nada connosco, esperando talvez que os outros mergulhem também no pântano onde se arrastam e nadam, em largas braçadas, na direcção das margens que melhorem acudirem a seus anseios. Vê-se no bojo dos inocentes a candura das espécies, absurdas, ridículas, injustificáveis à luz de candeeiros de vidro, a petróleo, como aqueles que havia na casa da avó. Comovem a medicina quando passam pela doença, com o corpo coberto de competências, embrulhados em currículos invejáveis, amigos de meio mundo, meio mundo da amizade. E prosseguem caminho, sempre com as mãos nos bolsos, não vá uma cigana abelhuda ler-lhes a sina, desmascarando-lhes a face esponjosa, o papel cuidado, as carreiras especializadas na simpatia. Como Russell, pensam que as virtudes importantes são a bondade e a inteligência. Daí à prática de ambas, um nó na garganta, vários argumentos passajados, uma colecção imensa de velharias que era suposto transaccionar no mercado das terças-feiras. Conheço bem os inocentes, sentados em cubículos de vidro, olhando por cima das paredes os feitos dos outros, com a inveja crescendo-lhes por baixo dos olhos em fundos traços negros, sempre muito húmidos, depois sorridentes, prontos como lacaios para o aperto de mão, o abraço, desejo de melhoras rápidas, sucesso e saúde. São amigos e mandam beijos a toda a hora, quando pecam vêem no pecado uma utilidade que na virtude não vislumbram. Mas inocentes, como um amor que se confunde com cárie nos dentes, eles combinam sempre frente ao embaraço a simpatia das agendas. A cruz dos inocentes é a sombra que os prossegue para todo o lado, é o rastro de memórias que carregam com os pés sobre a terra que pisam, calcam e lavram, é o não terem como dizer sem desplante aos filhos o quão inocentes são, que bom seria se continuassem sendo, até que a morte os separe. A cruz dos inocentes é a benevolência. Admiti-la seria rasurar a inocência, não são tão ignorantes que o permitam sem mais nem quê. Inocentes, pronunciam. Mas as pernas tremem, Raskólnikov suspira e sopra-lhes ao ouvido, as mãos suam, as palpitações sobem às pálpebras, dilatam as retinas, encolhem as orelhas. Inocentes, sobre a terra, só os vermes, que à partida são presumivelmente culpados.

JUSTIFICAÇÃO

Devo um pedido de desculpas a della-porther por ter fechado a caixa de comentários no poema de Blanca Andréu. O comentário de della-porther, elogioso e inofensivo, só foi possível devido a um equívoco meu, ou seja, ter deixado a caixa de comentários aberta. Desde há muito que os posts do género, cujo objectivo é divulgar um pouco das poesias deste e doutros mundos, são editados sem caixa de comentários. Simples de explicar. Na sequência do ambiente estúpido e ridículo que se vive entre os praticantes de poesia na nossa microbiana pátria, houve quem, a dada altura, se tivesse feito passar pelo poeta em causa deixando comentários que colocavam o seu suposto autor numa triste figura. Como sabem, não me custa aceitar críticas, insultos, polémicas. Até faço gosto. Mas quando se chega ao ponto de, por ódios ou invejas incompreensíveis, jogar com o nome de uma pessoa fazendo-se passar por ela, então, julgo eu, é minha obrigação cercear o jogo. Daí o fecho das caixas de comentários nesses posts, daí o meu pedido de desculpas a della-porther. Bem sei que em alguns posts da vasta coluna do lado a caixa continua acessível, questão apenas de tempo e de paciência.

Como um rei deste mundo perdido nas lendas,
sozinho, com calculado silêncio, senhor do nada
a quem desperta um alcatraz
ao romper da manhã
- entre o sal dormindo uma asa ardente, uma mensagem
deixa cair uma pluma da cauda
e faz-se a luz do Outono.
Mas em tempos antigos, palavra, todo o mar sabe disso.
Estava escrito sobre as ondas tempestuosas,
sobre os dias de coragem
está já escrito,
com madeiros e sombras verdes
- em hexâmetros o ímpeto e a perfídia –
com despojos de grandes navios.
A história não se ocupa e, porém, falta
ainda juntar a arrogante, mortífera obediência
da frota, a coorte de aves, em bando
ou o espírito sombrio e de tão alta condição
bramando entre os escolhos
entre indícios de peste e maus augúrios.

Despedem-se mil vezes e mil vezes cingem o vento,
metem a estibordo.
Advertências, conselhos, notícias que na memória
pousam com indiferença, desmedidos sonhos
que já são nada.
Que tempo de exactidão as idades trouxeram,
que nocturno, insolente ar de Inverno.


Tradução de Fernando Assis Pacheco.

Blanca Andréu

Blanca Andréu nasceu na Corunha em 1959. Estudou Filologia, mudando-se para Madrid com a intenção de terminar os estudos. Começa a escrever poesia e, em 1980, publica De una niña de provincias que se vino a vivir en un Chagall, livro galardoado com o Prémio Adonais. Em 1985 casou com o escritor Juan Benet, o qual faleceu em 1993. Blanca regressa à Corunha, vivendo afastada de toda a actividade pública. Mais informações sobre a autora, aqui. Esta tradução foi publicada no n.º 9 da revista Hífen.

30.10.07

PRATOS

Fui comer um prato de mau-olhado no restaurante mais finório da cidade. Antes tivesse ficado pela bifana, que ninguém inveja por ser estúpido. Até amanhã.

P.S.: Quanto a gajas, prefiro mesmo a minha. Assim como assim, trata-me bem e está sempre à mão.

DISCURSO DUMA PARÁBOLA POR ESCREVER

Vós que arderíeis ao vento flamejante sobre o mundo,
mendigos que gritais às portas da penumbra
para ouvidos que a poeira bloqueou,
gritai pelo pão pétreo, o resgate do amor,
para avaros em crueldade encarcerados,
vagueai na petrificada floresta calcedónia
sem achar fruto sob folhas de mármore
nem água no granito –
apiedai-vos de nós, os possuidores famintos;
é a vossa caridade que nos falta, a pobreza do vosso corpo.


Tradução de Manuel de Seabra.

Sally Purcell

Sally Purcell nasceu em Bromsgrove, Worcs em 1944. Estudou francês medieval e moderno em Oxford, onde viveu e trabalhou toda a sua vida. Especialista em literatura medieval, traduziu uma antologia de poetas provençais. Estreou-se me 1968 com The Devil’s Dancing Hour. Faleceu em 1998.

29.10.07

virgenetas.7

Já o avô Alcides, e o bisavô Alcides, bem sabiam: aquela que não serve para os outros para nós também não há-de servir. Era o que faltava, encalcetar o travasso sem o mínimo de garantias de a criatura não ser daquelas insufláveis, de botox ou silicónia, com a alergia ao plástico que me vem de família, e as avarias dos fenómenos eléctricos causados pelo turismo das cegonhas, e o rebentamento das mamas nos aviões, e do rendeiro das laurindas nas igrejas.

E os problemas hermenêuticos que advêm da conversa expurgada de segundos sentidos, que são aqueles que interessam, e ela a perguntar “E de música, gostas?” e eu a pensar na pregação de São Francisco aos pássaros, com eles todos alinhados no poleiro a entoar a flauta mágica prós dois que se comiam debaixo das saias do velho. Ou do padre Vieira aos peixes, batendo a pívea eterna que ainda hoje se reflecte na subida das águas, mar de gosma, para glória de deus, pescada de rabo na boca e asa de querubim no cu.

E eu a responder-lhe “Gosto muito, de música e do assento etéreo onde subiste, os decassílabos, o adágio dos cisnes flutuantes, as esferas recalcitrantes da cidade suspensa; e sempre, oh sempre, as alheiras perdidas de Mirandela, a areia do Nilo…”. E ela a semicerrar os olhos e a imaginar a bondade e a minha atenção às belezas do mundo. Passa uma hora e eu continuando, “Não esquecendo, claro, a bardajona da tua mãe, que nem te ensinou a escangalhar a mona prós fofos como eu”, e pronto, era o segundo sentido, o que realmente importa, o único, e a moça lá se desanuviou e eu até pensei que afinal o virgem era eu, não me tinha sucedido antes mas é assim a vida, uma caixa de esmolas, se está vazia ao menos aproveita-se a caixa.


Alcides

CORRENTE

“todo o instrumento de prazer, de saber, de perder”

(5ª linha da página 161 de “Inquérito às Quatro Confidências”, Maria Gabriela Llansol, Relógio d’água, 1996)


Passo à margarete
, ao Fernando e ao Luis Ene.

Rui Costa

AS RAZÕES ERRADAS

Os três posts mais visitados no Insónia são ORAÇÃO CONTRA MAU-OLHADO E QUEBRANTO, TESTEMUNHAS DE JEOVÁ NUMA FEIRA DE MONOS, OS MISTERES DO CU. Quase sempre pelas razões erradas, inspirando, de vez em quando, comentários despropositados que me fazem crer serem os textos muito mal interpretados. Ser levada a sério é o maior risco da ironia num mundo que não sabe rir.

SÓ COM MARCAÇÃO


Movam-se. Comovam-se.
Liguem os desumidificadores.
Primeiro morrem as mucosas, depois
cai o ânimo. Ponham os óculos,
escrevam os pareceres.
Deitem-me depois nas vossas coxas
de cabedal, ó mães barbadas, e
telefonem. Dou-vos o que
tenho. Tiro-vos o que sou.
Transporto-vos as mangas de alpaca.
Sejam afáveis. Dêem atenção.
Distraída. Têm em mim
o mesmo de sempre. Não me digam
como passam o domingo,
e sou todo vosso.

Hans-Ulrich Treichel

Hans-Ulrich Treichel nasceu a 12 de Agosto de 1952 em Versmold, na Vestefália. Estudou Germanística na Universidade Livre de Berlim, doutorando-se com uma tese sobre Wolfgang Koeppen. Trabalhou como libretista, foi Leitor de Alemão na Universidade de Salerno, bolseiro na Villa Massimo. Publicou poesia, narrativa e ensaio, tendo-se estreado em 1979 com Ein Restposten Zukunft. Em 1993 recebeu o Prémio Literário da Cidade de Bremen.

28.10.07

Corrente lógico-aleatória

O Henrique lançou-me este desafio e como tenho uma queda especial para estas coisas, agarrei logo no primeiro livro que estava na pilha desarrumada da mesinha de cabeceira: fui parar às " Ficções" do Jorge Luís Borges, ed. Teorema, p-161, 5ªfrase:

"espalhados pela face da terra"

Não resisto a enviar também o contexto da frase, trata-se da ficção intitulada "A Seita da Fénix" e acontece o seguinte na abertura da página 161:

"...; de pouquíssimo lhes vale identificarem-se com todas as nações do globo.
Sem um livro sagrado que os congregue como Escritura para Israel, sem memória comum, sem essa outra memória que é uma língua, espalhados pela face da terra, diversos de cor e de feições, uma só coisa - o Segredo - os une e unirá até ao fim dos dias. "

Lancei de imediato o desafio ao Alexandre Nave e ele pegou no livro "Pasternak: a critical study" de Henry Gifford, The Bristol Press e surgiu o seguinte:

"It was, of course, the accident of living at this particular time that made him a translator"

Enviei o meu desafio também para o Mário Calado Pedro (http://paralogico.blogspot.com/, para o Pedro Sena-Lino http://www.cronicasdebizancio.blogspot.com/ , para o Rodrigo Miragaia http://big-ode.blogspot.com/ e para a Castorp http://fulanoebeltrano.blogspot.com/

Maria João

PRIVATE

Ricardo, acho que devemos acusar o Luís Filipe Rocha de plágio.

DUPLAMENTE ACORRENTADO

De facto, os meus dias melhoram quando sou convidado para correntes. A mais recente surge-me, no mesmo dia mas não à mesma hora, pelas mãos do André Moura e Cunha e do GAF. Eis o desafio, em cinco passos: 1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro; 2. Abra o livro na página 161; 3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa; 4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada; 5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha. Os livros que leio raramente excedem as 161 páginas. Curiosamente, o meu amor ofereceu-me há dias dois volumes que, coincidência das coincidências, não só possuem mais que 161 páginas como se encontram, mesmo à mão de semear, entre o teclado e o monitor. Queria responder ao André Moura e Cunha com a 5.ª frase completa da página 161 do livro The World’s Shortest Stories, de Steve Moss. Porém, a página 161 contém uma bela ilustração de um autocarro. Espero que também valha responder ao desafio com a quinta frase completa da página 160, embora um outro problema se me levante. Este livro, de estórias muito curtas, com 55 palavras cada, reúne contos que raramente possuem quintas frases completas. Na página 160, o conto The Bus Station, de Andrew E. Hunt, não é uma excepção, mas o resultado é um pouco confrangedor. Eis a frase:

“Any seats available?”

Ao GAF respondo com o outro livro oferecido pelo meu amor, Short Shorts – An Anthology of the Shortest Stories, de Irving Howe e Ilana Wiener Howe. Na página 161 do dito vamos a meio de um conto de Varlam Shalamov, escritor russo que viveu entre 1907 e 1982. Acho que é mais uma bela coincidência, e juro que nada disto foi propositado. Já agora, para quem não sabe, Shalamov foi (mais) uma vítima do estalinismo, esteve preso num Gulag, depois de se ter juntado a um grupo trotskista. O conto aqui em causa chama-se In the Night, na tradução americana, e faz parte dos The Kolyma Tales, um livro de short stories que o autor escreveu sobre a sua experiência enquanto prisioneiro num “campo de trabalho”. A quinta frase completa da página 161 é:

“Here he is,” Bagretsov said.

E continua: He reached out to touch a human toe. The big toe peered out from under the rocks and was perfectly visible in the moonlight. The toe was different from Glebov’s and Bagretsov’s toes – but not in that it was lifeless and stiff; there was very little difference in this regard. The nail of the dead toe was clipped, and the toe itself was fuller and softer than Glebov’s. They quickly tossed aside the remaining stones heaped over the body.

Já agora, uma versão do conto acima mencionado na resposta ao André Moura e Cunha:

TERMINAL DE AUTOCARROS

“Um bilhete para o Inferno, por favor.”
“Desculpe, todas as partidas para sul estão esgotadas.”
“Algum que parta esta noite?”
“Temos um que seguirá na direcção oposta.”
“Ainda tem lugares?”
“Muitos.”
“A viagem é longa?”
“Não, nem por isso, mas talvez queira levar consigo um bom livro. Ouvi dizer que é uma viagem extremamente solitária.”


Andrew E. Hunt
Versão de HMBF, esforçando-se para manter as 55 palavras.



Lanço o desafio a: Maria João Lopes Fernandes, Rui Costa, Álvaro, Vítor Vicente e Inês Lourenço.

26.10.07

o vento é um ar que dança

25.10.07

A CASA

o defeito da casa
é que não tem lareira

ninguém acende o fogo
de joelhos

ninguém celebra a morte

o consumir do corpo
na madeira

Y. K. Centeno

Y. K. Centeno nasceu em Lisboa, em 1940. Licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1963. Poeta, ficcionista, dramaturga, ensaísta e autora de livros infantis, foi co-fundadora do CITAC, um dos mais importantes grupos de teatro universitário, de Coimbra. É também autora de traduções de, entre outros, Stendhal, Goethe, Shakespeare, Brecht, Celan e René Char. O seu primeiro livro de poesia, Opus 1, foi editado em 1961. » É ainda autora do weblog Literatura e Arte.

24.10.07

Fragmento #57 – Colchão

Aquela garrafa de água do caramulo contínua junto da cama, passado tanto tempo até parece mania, mas não é, posso acordar durante a noite com sede, a água já não é da nascente e fui renovando-lhe o conteúdo consoante a necessidade – não podemos mergulhar nas mesmas águas, é o devir no mundo. Continuo a dormir com a porta e a janela aberta, preciso de espaço para sonhar, mas mudei pequenas coisas, já não sou uma saltimbanca dentro de casa, já não desmonto a cama para poder endireitar as costas, agora tenho um estrado de madeira que me eleva do chão; acumula-se demasiada tralha com o tempo a passar, isto de mudar de cama e arrumar os livros é para ganhar espaço. Tive dores de costas horríveis durante todo o verão, fui ao médico e ele afirmou que se deve à perca de massa muscular – já sou quase metade do que fui, o médico aconselhou-me a natação, a água tem de facto propriedades especiais, mas ainda não me inscrevi, adiante, vou adiando. Agora o estrado com o colchão endireita-me as costas, as dores passaram e tive de mandar um dos colchões para o lixo, a lua lhe tinha tratado da saúde. Nunca mais começa a chover e só tenho gripes no verão, esqueceste-te do teu tecto móvel aqui que me acompanhou no Inverno passado – como é costume, perdi as chaves em todo o lado, os isqueiros, os óculos nunca sei onde andam, mas o tecto móvel regressou sempre ao seu lugar quando saía fora de portas. Tenho um vizinho que plantou duas árvores à porta do prédio e o cavalheiro sorumbático ainda não tem prateleiras por isso empilhou os livros todos no chão, agora que habita paredes-meias comigo. Eu continuo a achar que meias só nas pernas e estou a deixar de acampar dentro da própria casa, por isso os livros de arte habitam agora o corredor, por baixo das malas de viajem por causa do excesso de peso, se calhar deveria envia-los mesmo era para as ruas da cidade: este plano será um projecto de arte com futuro, realizado a partir de um conto de Jorge Luís Borges, um conto necrófilo onde anunciou a morte de um grande pintor em Buenos Aires; um pintor torna-se artista quando morre e este grande pintor não podia representar porque a religião não lho permitia, então representava e pintava tudo de negro por cima, mas deixava os títulos das representações, um pouco como acontece na arte contemporânea actual, sobretudo na que vai mais à frente do seu tempo. Agora reduzi a biblioteca aos ensaios e ficções em prateleiras pretas, a música e a filosofia estão no mesmo sítio, bem mais perto de onde durmo, com o mesmo cuidado, mas as partituras agora habitam umas enormes caixas onde os anjos se beijam; guardo os livros de poesia onde estavam os de arte, são mais frágeis ao tempo a passar e às agressões do meio ambiente, por isso separei-os dos ensaios e das ficções. A lua como é sábia não faz estas distinções, tanto pode adormecer por cima de um ensaio como de uma ficção e aprecia muito a escultura que estou a modelar que é um cocktail entre arte e poesia, muito polifónico para a sua sesta. Eu gostava mesmo era que começasse a chover para o teu tecto móvel me acompanhar, o tempo este ano parece que não quer entrar na queda da folha.

Maria João

MONÓLOGO DO POETA EDITOR


- Nunca saberei por que fui meter-me nesta alhada,
neste quase ofício quase nem
- pois nem escolas o ensinam nem títulos o amparam –
em que um poeta jamais se faz rico ou prospera.

Nunca saberei por que bulas o destino
me tocou de ser parteiro:
tantos filhos alheios
que eu gostava de ter visto belos e espertos
e às vezes eram parvos, e às vezes eram feios.

Tocou-me descobrir, contratar, corrigir,
prefaciar, escrever badanas, resumir, recensear,
informar, apresentar, difundir, colocar,
e também financiar,
e às vezes acertar e às vezes perder o pé,
desfrutar e sofrer,
e o meu ordenado foi curto e o meu trabalho longo,
e se bem ganhasse amigos,
centupliquei também meus inimigos.

Milhares de incompreendidos génios apontaram
o meu erro por não os editar
ou a minha avessa intenção
por não os amparar com os meus grandes braços
- soubessem eles como são pequenos! –

De originais de gaveta, limpos às vezes, outras
de mazelas cheios,
fiz milhares de clónicos brinquedos atraentes,
tentadores, bonitos, sugestivos
livros para pôr no mundo em busca de uns olhos
compreensivos, leitores.
Os sonhos solitários saíram à rua
e encontraram amigos:
fui eu que lhes juntei as mãos.

Li, voltei a ler e dei a ler
centenas de milhar de tatuadas folhas
e tocou-me intuir quais poderiam
ou teriam que gostar à demais gente,
quais, talvez merecedoras, não o conseguiram,
e quais nem deviam pensar nisso.

Publiquei tantos espertos que o povo soberano
disse o caraças
- carne de saldo, oferta do Sotheby’s -,
mas também outros que, merecendo vivas,
foram dinamitados, silenciados, apagados
ergo feitos em cisco
por quem diante de imbecis baixou as calças
e quanto defecou o mouro o deu por ouro.

Dei à luz grandes figuras – e também gente baixa.
Vendi a quatro pesetas
duros dos bons,
letras de ouro de lei ao desbarato.
Ofereci margaridas a damas e zagais
e pérolas aos porcos,
e se às vezes por lebre servi gato
espero que a lembrança fique dos meus acertos,
esqueçam-me já os falhanços.

Desfrutei como ninguém lendo noite alta
inéditos ignotos
que realmente diziam outras coisas
ou as do costume, mas de diferente maneira,
e pensando que não tardaria
a serem um bem público estes secretos tesouros.

Burocratas obtusos ao mando de viciados
no vício inquebrantável
meteram o focinho nos meus originais
e uns foram riscados e outros foram zurzidos,
e mais de um argumento se viu matizado,
e mais de um Diogo suplantou algum digo.

Às obras dos demais, mais do que à minha,
dediquei tempo, empenho, sabedorias.
E tal como o velho cego preferia gabar-se
dos livros um dia lidos
do que dos frutos de suas mãos,
a mim também recordem-me
mais pelos que editei e não pelos que escrevi,
embora estes os tratasse com as minhas melhores artes
e a alguma pessoa agradaram.

Já sei que é lei da vida comerem-se os figos
sem perguntar quem plantou a figueira.
Não importa, este é o meu ofício, escolhi-o livremente
e, chatices à parte, eu com os livros gozo
pensando-os, fazendo-os, lendo-os depois,
enamorando-me
do que sonham as suas palavras.

E eu creio que, de facto, no princípio
havia a palavra
e que, muito depois, pacientes homens
de indefinido ofício inventaram maneira
de levá-la aos demais
para que agisse,
e eu fui um deles
e isso é tudo.


Tradução de Fernando Assis Pacheco.

Jesús Munárriz

Jesús Munárriz nasceu em San Sebastián em 1940. Poeta, tradutor, ensaísta e editor, reside em Madrid desde os 17 anos. Estudou arquitectura, mas licenciou-se em Filologia Germânica. Foi um dos fundadores da editorial Ciencia Nueva, co-director da colecção de poesia Saco roto da editorial Helios, director de publicações da editorial Siglo XXI e fundador e director das Ediciones Hiperión. Traduziu para espanhol, entre outros, Hölderlin, Rilke, Celan, Aragon, Wilde, Shakespeare, Cesário Verde e Pessoa. A sua obra poética começou a ser publicada em 1975, com Viajes y estancias. De aquel amor me quedan estos versos. (in Hífen 9)

23.10.07

AGRADECIMENTO

Agradeço muito ao José Eduardo Lopes esta simpática referência. Somos conterrâneos mas não nos conhecemos pessoalmente. Sobre o assunto em causa, três pequenas notas no Insónia: aqui, aqui e, por outras razões, aqui.

A direita meritocrática sempre esquece o pequeno pormenor de que nascer Espírito Santo é diferente de nascer filho do Silva, canalizador no fundo de desemprego. Há solução ideal para isto? Não.

EUROPEU

Só me sinto europeu quando estou em Portugal. Assim que saio de Portugal, sinto-me logo português.

FLAGS OF OUR FATHERS

As bandeiras dos nossos pais, bem vistas as coisas, não foram muito diferentes das nossas. É aliás curioso que nos identifiquemos com tanta facilidade com essas bandeiras, as mesmas que, provavelmente, são parte integrante da humanidade, são uma espécie de ideal para o qual há muito tendemos mesmo sabendo que jamais o atingiremos. Bandeiras como a da liberdade, do direito ao trabalho, a uma vida digna, são bandeiras universais, bandeiras que, assumam as cores que assumirem, estão intimamente relacionadas com o nosso desejo de sobrevivência. A vontade com que nos empenhamos na defesa dessas bandeiras pode variar em função das circunstâncias e das motivações, pode ser relativa à hierarquia de necessidades que cada indivíduo estabelece para si ou, em alternativa, que a sociedade faz estabelecer para cada indivíduo. Seja como for, as bandeiras dos nossos pais são exactamente as mesmas que hoje hasteamos mais ou menos envergonhadamente. Como dizia, estão todas elas relacionadas com a nossa sobrevivência. Justiça, saúde, educação, trabalho, segurança, são há muito ministérios sem mistério. No tempo dos meus pais eram praticamente todos eles, os ministérios, direitos a conquistar. No nosso tempo, são assim como que ministérios a assegurar. É esta a grande diferença: eles, que nada tinham, lutaram para que pudessem ter algo; nós, que praticamente tudo tivemos, teremos de lutar para o não perdermos. A luta que hoje faz sentido é apenas essa, a luta pela preservação dos direitos que foram arduamente conquistados por quem nada tinha a perder. Nós, hoje, temos tudo a perder. Penso nisto muitas vezes e por variadíssimas razões, mas ultimamente tenho pensado mais ainda. A razão é simples de explicar e não tem nada que ver com o discurso recorrente dos sindicatos, dos partidos, dos privilégios lesados. A razão de ultimamente pensar muito nesta realidade tem dois nomes: Matilde e Beatriz. Temo que o futuro das minhas filhas não vá ser nada fácil. Que poderei eu garantir-lhes do que me garantiram os meus pais? É provável que as bandeiras delas venham a ser as mesmas, mas mais provável ainda, tudo o indica, que em contextos mais similares ao contexto em que os meus pais lutaram por essas bandeiras. O que os torna similares: o tal medo e a tal insegurança, não perante a ameaça física, mas mais perante as ameaças da demissão e do desemprego que condicionam a liberdade; a subserviência ao poder económico; este clima de hienas à volta de cadáveres que é cada vez mais o nosso, um clima concorrencial absurdo que rapidamente transforma cooperação em conflito; um controlo “mediavalesco” das acções humanas que, tantas e diversas vezes, atenta de forma evidente contra a mais básica liberdade humana. E o mais chocante disto tudo é perceber que toda esta luta não passa de um embuste, um embuste que nos faz crer ser possível mudar esta terrível realidade: os 500 indivíduos mais ricos do mundo têm rendas maiores que as 416 milhões de pessoas mais pobres do planeta. A gente sabe que há-de ser sempre assim, por mais voltas que dêmos há-de ser sempre assim. Mas não podemos dizê-lo aos nossos filhos.

LER POR LER

Nos últimos dez anos, o número de leitores em Portugal aumentou cerca de 7%. É uma das conclusões apresentadas na I Conferência do Programa Nacional de Leitura...

Há 57 por cento de portugueses a ler livros, revela um estudo, "A leitura em Portugal". Mas apenas lêem entre duas a cinco obras literárias por ano.

É com alguma ambivalência que recebo esta notícia. Se por um lado é agradável que os portugueses leiam mais, por outro é discutível que saibam o que estão a ler. Não me refiro a questões relacionadas com a qualidade daquilo que se lê, refiro-me antes à qualidade da leitura ela mesma. Afirmar que se lê é uma coisa, ler de facto é outra completamente diferente. É muito bom que os portugueses adquiram hábitos de leitura mais frequentes, que comprem livros, que tomem o gosto e aprendam o prazer da leitura. Tudo isso é muito bom. Mas nada disso será consequente se esses hábitos não forem acompanhados de uma autêntica revolução nas atitudes e nas mentalidades perante a vida e perante os livros. Que me interessa a mim que os portugueses leiam muito se nada assimilarem daquilo que lêem? Que me interessa a mim que alguém devore livros se não transportar para a sua vida diária essa aprendizagem? A verdade é esta: estes indicadores podem ser muito apetitosos para o mercado dos livros, desconheço até onde possam sê-lo para o mercado dos valores, das atitudes, do saber acumulado. Basta mirar os escaparates das livrarias, as montras nos hipermercados, para que, de certa forma, aqueles 7% se tornem mais assustadores do que prometedores.

A REALIDADE IMÓVEL

O sol deambulava ainda à roda da casa
Quando abriram a janela

Os bêbados ali estavam ainda
Mas a canção que subia na noite cessou

Agora que voz me chama
Que voz chama doce atrás da parede à direita
Rindo
Os homens estão ali
Adormecidos
E não é a mesma boca que canta
Uma mulher ao longe dá um grito
Os seus dedos passam nos bordos da varanda
São finos agudos
São esses dedos que eu contemplo
Enquanto me chamam
De todos os campos por todos os caminhos

Chega gente
Em trajes negros
Em trajes cinzentos
Alguns em mangas de camisa
Um carro cobre a estrada de poeira
A casa depressa fica cheia de estrangeiros

E como ninguém canta
Os homens despertaram
O pêndulo parou
Ninguém se mexe
Como nas imagens
Não voltará a anoitecer

É uma velha fotografia sem moldura

Tradução de Eugénio de Andrade.

Pierre Reverdy

Pierre Reverdy nasceu em Narbonne a 11 de Setembro de 1889. Poeta francês associado ao cubismo e ao surrealismo, estudou em Toulouse e Narbonne. Chegou a Paris em 1910, onde travou amizade com Apollinaire, Max Jacob, Aragon, Breton, Tristan Tzara, entre outros. Em 1915 publica Poèmes en prose. Funda a revista Nord-Sud, em 1917, onde colaboram poetas dadaístas e surrealistas. Em 1926 recolhe-se na abadia de Solesmes, onde permanecerá até à morte. Faleceu em 1960.

22.10.07

UM POEMA PARA FIAMA





UM POEMA PARA FIAMA (Labirinto, 2007)

A MÚSICA

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti


Rui Costa

FEITOS UM PARA O OUTRO

No inventário de poetas na coluna do lado, Ted Hughes ficou debaixo de Sylvia Plath.

TEOLOGIA


Não, a serpente não
Seduziu Eva com a maçã.
Tudo isso é simplesmente
Corrupção dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
É este o escuro intestino.

A serpente, entretanto,
Digere a refeição no paraíso –
Sorrindo ao ouvir
Deus rezingão a chamar.

Tradução de Manuel de Seabra.

Ted Hughes

Ted Hughes nasceu em Mytholmroyd, Yorkshire, a 17 de Agosto de 1930. Estudou Inglês, Antropologia e Arqueologia em Cambridge, tendo aí fundado um jornal, St. Botolph’s Review, onde publicou os primeiros poemas. Por essa altura conheceu Sylvia Plath, com quem casou em 1956. Em 1957 publica The Hawk in the Rain. Muda-se para Massachusetts, regressando a Inglaterra em 1959. Separou-se de Sylvia Plath em 1962, tendo esta cometido suicídio alguns meses após a separação. De resto, o mesmo sucederia com a segunda mulher de Hughes, Assia Wevill, que se suicidou depois de matar a sua filha de quatro anos. Teh Hughes faleceu no dia 28 de Outubro de 1998.

19.10.07

JÁ VI E ACONSELHO


MAIS INFORMAÇÕES EM:
http://ela-uma-vez.blogspot.com/

O PARÊNTESIS

Eduardo Pitta


E antes de 1930 também. A propósito, Dalton Trevisan foi um dos vencedores do Prémio PT de Literatura 2007. Em 1968 escrevia assim:

O CICLISTA

Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba – levanta voo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte com o trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete a domicílio.
É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o génio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste e o caminhão; o ciclista por muito favor derrubou o boné.
Atropela gentilmente e, vespa furiosa que morde, ei-lo defunto ao perder o ferrão. Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfano esqueleto. Se não estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e – uma perna mais curta – foge por entre as nuvens, a bicicleta no ombro.
Opõe o peito magro ao pára-choques do ônibus. Salta a poça d’água no asfalto. Num só corpo, touro e toureiro, golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.
Ao fim do dia, José guarda no canto da casa o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim a pé e, na primeira esquina, avança pelo céu na contramão, trim-trim.

In Os Desastres do Amor.

18.10.07

A ANGÚSTIA

Eu queria criar uma teoria
mas não queria o mundo que ela cria.

Rui Costa

CUSPO

Sabes bem que a morte sabe a carne de porco, sabe a bifana, sabes bem qual o sabor da morte, e sabes o preço, não me venhas com lérias, tu sabes bem o preço da morte, tu todos os dias pagas a morte, todos os dias comes a morte, as tuas refeições, todos os dias levam-te a morte à boca, por isso não me venhas com lérias, tu sabes bem que trocas a morte por vales no Intermarche, e depois vens-me para o colo com as lágrimas secas desse teu choro arrependido, era o que mais me faltava, ter que te aturar as lágrimas secas do teu choro arrependido, devias saber, tu que todos os dias te alimentas da morte, que eu já dei para o peditório das lágrimas secas dos choros arrependidos, prefiro a humidade das mãos nervosas, a pele suada dos impacientes, as unhas agitadas das mentes inquietas, prefiro essa humidade irrequieta de quem olha o céu e vê numa estrela um grão de infinito, a medida da nossa insignificância, os ermos, um cibo de morte entre milhões de corpos animados pela luz das estrelas longínquas, porca esperança, pudesse ela ser trocada por vales no Intermarche, porca esperança, faríamos bifanas dessa esperança, bem regada com mostarda, cerveja preta, engolida de um trago, a esperança, agora não me venhas com esse teu choro, ponho-me a andar e nunca mais terás a oportunidade de um rosto onde o teu cuspo caia bem, porque o teu cuspo é um cuspo exigente, não é cuspo que se cole a qualquer rosto, é cuspo artístico, delineado, previamente formado nas mandíbulas policromáticas da tua arte, ah como cai bem o teu cuspo nas minhas faces, como escorre bem na minha pele arrojada, como uma espécie de sinal expelido contra a superfície gelada de um corpo, como patins no gelo, cerrando o gelo, costurando os dentes, ah, feliz de quem pode assim ser cuspido.

CONTEMPLANDO O MAR

Da Pedra Erguida, olhando pr’a leste,
Exploro o mar sem fim:
Fervilham as águas, sem parar;
Ilhas montanhosas, emergem,
Arvoredos espessos,
Luxuriante, a erva.
O vento do Outono sopra e assobia,
Vagas, imensas, se elevam no céu.
O sol e a lua, na sua viagem, parece
Que surgem do meio das ondas
E a Via Láctea, cintilante,
Como que vem do fundo do mar.

Que maravilha!
Canto-a
Nesta canção.

Cao Cao

Cáo Cāo nasceu em Qiao, China, em 155. Aclamado como estratego militar, foi político e poeta. Juntamente com os filhos Cao Pi e Cao Zhi, forma uma trindade que ficou conhecida como os Três Cao. Os seus poemas foram percursores do estilo jian’na, caracterizado, entre outros aspectos, pela lamentação da efemeridade da vida. Morreu de doença, em 220, no distrito de Luoyang, do qual foi capitão.

NINGUÉM DÁ NADA A NINGUÉM

Ultimamente tenho escutado muito a expressão «ninguém dá nada a ninguém». Normalmente a expressão vem precedida de um «isto» que pode querer dizer muita coisa, assim como pode querer dizer coisa nenhuma. Mas o «isto ninguém dá nada a ninguém» tem muito que se lhe diga. Desde logo é uma expressão infeliz, porque se ninguém dá nada a ninguém então está a dar algo de muito valioso. Todos sabemos que o nada está pela hora da morte, o nada sai caro, o nada não é nada barato, o nada está ao preço do ouro. Quem quiser o nada, que lute por ele. Muito altruísta é o ninguém que se farta de dar nada a ninguém. Borlas destas não são para todos. A agravar a infelicidade da expressão, o facto de as pessoas a proferirem como uma espécie de máxima para a vida, um axioma, uma verdade insofismável à qual chegaram, julgam, por serem dotadas de uma extraordinária sabedoria. Ora, no mundo em que vivemos ninguém dar nada a ninguém é um dado adquirido. Nada há de extraordinário em ninguém dar nada a ninguém, muito menos em sabermos isso. Quando alguém me propõe um negócio, não é suposto que perca com o negócio. Seria estúpido. Negociar é chegar a um acordo que seja o mais vantajoso possível para todas as partes implicadas. Mas há quem não pense assim, achando que, para ficar bem num negócio, aquele com quem negoceia tem de ficar mal. Isto é muito português. Sabemos que os portugueses são historicamente aptos para este tipo de negociatas. Normalmente dão-se mal. Convencem-se de que o mal dos outros é um benefício próprio, ficam a olhar a miséria dos outros na esperança de atenuarem a desgraça em que vivem, justificam os seus males com males ainda maiores, pelo que, para se sentirem vitoriosos, necessitam sentir a derrota dos outros. Eu só faço um bom negócio, pensa o português, quando aquele com quem negoceio é, digamos assim, enrabado pela minha douta arte de negociar, quando é papado, enganado, burlado. Terrível povo que assim pensa. Esquece-se de que, tal como ele, os outros também têm contas para pagar, também precisam de comer, também têm filhos, também vão ao médico. Toda a gente sabe que ir ao médico está pela hora da morte. Tal como o nada. Ou coisa que o valha.

17.10.07

O HOMEM, A MENSAGEM

Um escritor não tem que ser recomendável, pode ser um grande filho da puta e um genial criador. Poucas coisas se comparam à Viagem ao Fim da Noite de Céline, a muitas palavras de Ezra Pound e a várias obras de Vargas Llosa ou Borges. Estou-me borrifando que sejam politicamente de direita e alguns até fascistas e colaboracionistas. É qualquer coisa de diferente que está impresso no papel em chumbo ardente.


Nuno, isso não é verdade e mesmo um reaccionário (frequentável) como o velho De Gaulle soube dizê-lo quando um conjunto de almas sensíveis lhe foi pedir que comutasse a pena de morte ao Brasillach (e se escrevia bem, o Brasillach!); disse que se ele escrevia assim tão bem mais culpas tinha pelo que escrevia, porque tinha mais “responsabilidade”. E a menos que na vida valha tudo e o seu contrário, a literatura não é de facto uma pura irresponsabilidade.

Eis um tema recorrente, sempre motivo de divergências e renovadas perspectivas. Aquando da morte de Elia Kazan, por exemplo, muito se discutiu esta relação entre obra e autor, entre qualidade e biografia, entre causas e feitos. O problema surge quando a questão é mal colocada, ou seja, quando ela é colocada apenas no plano político. Facilmente compreendemos que pulhas de primeira deram ao mundo obras geniais e muito boa gente nunca passou da mediocridade em termos criativos. Estar em causa o que se escreve, é uma coisa; estar em causa quem escreve, é outra bem diferente. Um bom texto, um bom filme, uma boa escultura, serão sempre boas obras, tenham sido produzidas por quem quer que seja. Até podem ter sido produzidas por anónimos, colectividades, associações obscuras. É indiferente. A obra, enquanto resultado de um qualquer ímpeto, não tem que reflectir nem espelhar as idiossincrasias de quem a produz. Por isso apreciamos as obras de Van Gogh, mesmo que dificilmente lhe confiássemos os filhos. Quando a obra reproduz, incentiva e denuncia perspectivas políticas, então temos uma outra questão. A de saber se essas perspectivas são legítimas ou não, boas ou más, em função de critérios sempre subjectivos e discutíveis. Pessoalmente estremeço de enjoo, se me é permitida a expressão, sempre que noto numa obra certas correntezas políticas e estéticas, a subjugação a determinado estilo – o bom autor é o que domina o estilo, não aquele que se deixa dominar pelo estilo -, a subserviência ao dogma, a subsunção do indivíduo à vontade de enaltecer um ideal colectivo, seja ele qual for. Um texto bem escrito é um texto bem escrito, independentemente de quem o tenha escrito. Mas o que garante a qualidade de um texto não é, por si só, o facto de ter sido bem escrito. É também o que nesse texto se entrevê de mensagem. Nesse caso, a cada um a que lhe convém.

A BUSCA

Como ordenado, busquei a minha origem,
Atravessei a cidade onde viveu o meu avô
E não encontrei nenhuma rua conhecida;
E pelos subúrbios, cegos bangalós,
Lilás, laburno, florindo minuciosamente
E nas montanhas, bosques,
Províncias distantes, infinitas de verde,
Andei, andei, noite e dia,
Sempre seguro da rota

Embora a gente fosse bizarra, estranha;
E as aves, uma espécie nunca vista,
Se lembrassem de mim.
Por fim cheguei a uma aldeia
Onde me disseram: foi aqui que nasceste.
Um lugar improvável – sem bomba de gasolina,
Bloco de escritórios, cartaz? –
Mas não poidia negar, e perguntei o nome:
Se é Mors, temos que dizer-te mors, MORS.


Tradução de Manuel de Seabra.

Michael Hamburger

Michael Hamburger nasceu a 22 de Março de 1924 em Berlim, no seio de uma família judaica, tendo ido para a Grã-Bretanha em 1933. Poeta, crítico, académico, traduziu autores como Hölderlin, Celan, Sebald, entre outros. Foi uma dos grandes divulgadores da literatura alemã na Inglaterra. Após serviço militar no exército britânico, completou os seus estudos e dedicou-se à escrita. Como poeta estreou-se em 1950 com o volume Flowering Cactus. Faleceu no dia 7 de Junho de 2007.

16.10.07

ALL THAT YOU GIVE


Vagueia o meu olhar / Sobre a cidade murada, dizia o poeta Sa Du La no século XIV. Tantos anos passados, meu olhar vagueando também pelas cidades muradas, meus olhos vagabundos, minhas cidades amuralhadas, teus ossos impenetráveis, lá ao distante dos começos, aqui tão perto de esplendorosas manifestações de afecto que nos separam à mesa das refeições, porque tu degustas o tempo como a mim desgostam as horas, porque tu intentas contra as horas como a mim oprime o tempo. Tudo o que te peço, neste Outono grávido de geometrias cintilantes, é que quebres o anonimato do teu nome, que me digas aos lábios o teu nome mais secreto, a tua forma menos oculta, que me abrases pelo caminho agourado das sugestões, sempre espero eu à espera dos teus ossos esplendorosamente impenetráveis. Não que distes desta confissão as geometrias cintilantes, não que distes os adereços, apenas que ponhas a voz nos adereços, apenas que ponhas a voz na voz dos adereços, para que desse modo sejas toda tu na ilusão com que te procuro.

Por mero acaso, à Alice pelos cinco anos.

OS CANIBAIS

Ontem, no Prós & contras, houve quem defendesse a justiça da Guerra Colonial argumentando que Portugal apenas estava a defender o que era seu. Nunca soube o que pensar desta ideia de que os colonizados tornam-se propriedade dos colonizadores, a mesma ideia que não reconhece aos colonizados o direito à autodeterminação, o desejo e a vontade de serem livres, de assumirem os seus destinos nas suas próprias mãos. Fico a cogitar no que magicariam estas mentes colonizadoras se Portugal fosse colonizado. Imaginemos que Portugal era transformado numa província de Angola, passando assim os portugueses a responder perante o arbítrio angolano. Imaginemos que éramos nós agora na situação em que estiveram guineenses, moçambicanos, angolanos, entre tantos outros. Imaginemo-nos no lugar dos indígenas. Até onde estaríamos dispostos a lutar pela nossa liberdade? Até onde estaríamos dispostos a ser portugueses? A mesma força que esteve na origem da nossa independência, lutando contra castelhanos e muçulmanos, terá impregnado o desejo de libertação dos povos que posteriormente foram por nós colonizados. Foi sempre a luta pela liberdade, pela autodeterminação, o que esteve em causa. Negar esse desejo, essa vontade, esse direito, aos que estiveram sobre a nossa alçada, argumentando que, por terem estado sob a nossa alçada, eram nossos, é, no mínimo, canibalesco.

A PUTA DA DEMAGOGIA

A puta da demagogia teima em não nos abandonar. Em mail, circula apontamento sobre um tal aposentado Vasco Franco. Tudo legal, como sempre. Não trago para aqui porque não tenho certezas sobre o assunto, mas quem receber o mail não dispense a leitura. Depois há os perdões bancários, coisa de monta, que Eduardo Pitta muito bem expõe nesta prosa sucinta. A quem noutros tempos nos apontou a puta da demagogia, dedico só esta frase com singela adenda minha: Quanto se sabe, o BCP perdoou uma dívida de doze milhões de euros a uma empresa de Filipe Vasconcelos Jardim Gonçalves (filho do big boss Jardim Gonçalves), e outra dívida de quinze milhões de euros ao accionista Goes Ferreira, que se viu dispensado de pagar os juros do empréstimo contraído para comprar acções nos aumentos de capital de 2000 e 2001. 'Tá tudo legal »»»».

A MAIS CURIOSA DAS CRIATURAS

Como o escorpião, meu irmão,
Tu és como o escorpião
Numa noite de medo.
Como o pardal, meu irmão
Tu és como o pardal
No seu miúdo desassossego.
És como o mexilhão, meu irmão
Tu és como o mexilhão
Fechado e tranquilo.
Tu és terrível meu irmão
Como a boca
De um extinto vulcão.
E tu, ai de mim, não és um,
Não és cinco,
Tu és milhões.
Tu és como a ovelha, meu irmão.
Quando o carrasco vestido da tua pele
Quando ele levanta a sua vara
Apressas-te a alcançar o rebanho
E vais para o matadouro a correr,
Quase orgulhoso.
Em suma, és a mais curiosa das criaturas
Mais curiosa que o peixe
Que vive no mar ignorando o mar.
E se há tanta miséria na terra
É graças a ti meu irmão.
Se somos famintos, esgotados,
Se somos esfolados até ao sangue,
Espremidos como uvas para o nosso vinho
Iria até ao ponto de dizer que é culpa tua,
Mas não,
Isso nada tem a ver contigo meu irmão.

Versão de Adalberto Alves.

Nazim Hikmet

Nâzim Hikmet nasceu a 21 de Novembro de 1901 em Salónica, a principal cidade da região grega da Macedónia. Começou a escrever poesia muito cedo, influenciado pelo avô. Entrou para a Escola Naval em 1917, graduando-se dois anos depois. Pertenceu ao Partido Comunista da Turquia. De viagem à URSS, onde completou os seus estudos na Universidade de Moscovo, regressou à sua terra natal desgosotoso com o ambiente poético que então se vivia na ex-União Soviética. Perseguido pelos monarcas do seu país, condenado a 15 anos de prisão, acabou refugiando-se de novo na URSS. Escreveu poesia, teatro, memórias e ficção. Morreu de ataque cardíaco, a 3 de Junho de 1963, em Moscovo.

BOLETIM INFORMATIVO

O Sulscrito na “Faro Capital dos Poetas e da Poesia”


A Câmara Municipal de Faro organiza o encontro “Faro Capital dos Poetas e da Poesia”, para o qual o Sulscrito foi convidado a criar um evento. O encontro será nos dias 17, 18, 19, 20 e 21 deste mês e a nossa participação é no dia 18 com uma tertúlia intitulada “No Olho da Noite” que acontecerá no Café Aliança às 21h30. Haverá leituras pelos autores convidados e, num ambiente informal, haverá debate e conversas entre todos os que aparecerem. Estão, portanto, todos convidados.

No Olho da Noite (Poesia, tertúlia, visões)
Dia 18 de Outubro, 5ª feira, às 21h30 no Café Aliança

Poetas convidados pelo Sulscrito:

José Carlos Barros
Luísa Martins
Miguel Godinho
Pedro Sousa
Rui Dias Simão
Tiago Nené

Coordenadores Sulscrito:

Fernando Esteves Pinto
João Bentes
Pedro Afonso

Programação Completa do "Faro Capital dos Poetas e da Poesia"
Dia 17
Recital “Matéria de Poesia”, pela Escola da Noite (Coimbra)- Club Farense, 22:00

Dia 18
No Olho da Noite (poesia, tertúlia, visões), pelo Sulscrito- Círculo Literário do Algarve- Café Aliança, 22:00

Dia 19
Recital- João Grosso diz António Ramos Rosa- “Outras Vozes”- Entrega do Prémio Nacional de Poesia António Ramos Rosa- Biblioteca Municipal de Faro, 22:00

Dia 20
Grupo de Teatro Lethes- Recital “Poetas Algarvios”, em torno de Rosairinha- Teatro Lethes, 22:00

Dia 21
Apresentação do CD “Volta e meia…poesia”, de João Pires / Récita “A Ceia dos Cardeais, canções & outras coisas mais”, sob a batuta de Afonso Dias, com João Pires, Afonso Dias e Carlos Botinhas- Club Farense, 22:00

ACORDAR

Acordar já cansado, espreitar o e-mail, ficar bem disposto. Razão improvável, um comentário anónimo deixado em post antigo: Vê-se logo que és das Caldas. Nem Roadhouse Blues sabes escrever, lol. E ó meu granda palhaço, saloios os Doors? Épa os Dire Straits ainda aceito, agora os The Doors? Rapaz cresce e aparece. A melhor banda rock de sempre seram sempres aqueles que abriram as portas da percepção. Ai ai... Gargalhada.

15.10.07

INFÂMIA

De visita a O Vermelho e o Negro, entrei no Estado Civil. Fiquei a saber que Pedro Mexia tem weblog novo, com Pedro Lomba, e da existência de um «ranking» dos blogues lusófonos. Nunca entendi muito bem como se chega a estes rankings, mas sinto-me sempre muito frustrado por não encontrar o Insónia nos ditos. Tão frustrado que, confesso, até já tenho pensado em desistir. Não do Insónia, mas da própria vida. Atirar-me de uma falésia, ou coisa que o valha. Afinal de contas, andamos cá todos pelas contas. E, pelas minhas contas, levamos mais visitas diárias e totais, mesmo tendo em conta o facto do contador ter sido instalado já o Insónia levava muitas noites mal dormidas, do que vários weblogs contemplados no supracitado ranking. Sendo assim, declaro hoje, aqui e agora, por minha honra e pela dignidade deste meio a que pertenço com muito gosto, ser minha intenção processar judicialmente os autores do referido ranking sob a mais que fundamentada acusação de discriminação e oligopólio. Para tal, já ando a juntar um pecúlio que me permitirá, a breve trecho, contratar um dos mais eminentes advogados do país. Não perdem pela demora, infames.

Quem me dera que o meu pai fosse presidente de um banco, assim podia jogar ao Monopólio com dinheiro a sério e coisas a sério! E quando estivesse farta guardávamos o jogo, acabava-se o deve e o haver, e não pensávamos mais nisso!
Elentári, n'Os Caracóis da Marina.

HOJE, NA RTP2

23:45 - Tomai Lá do O’Neill (DocLisboa 2007)
Documentário de Fernando Lopes, com Rogério Jacques, Rui Morrison, Antonio Tabucchi, Helmut Wohl.
POR, 2004, 52 min.
A não perder.

Bloco de Apontamentos # 59


MJLF, S/ título, grafite s/papel, 21x15cm, 1997


Sonho frequentemente com espaços interiores de casas que não conheço; por vezes esses espaços levam-me a casas que já habitei, como a casa da minha avó em Lisboa, que tinha um longo corredor verde e um peculiar frigorífico dos anos 60; ou a casa de S. Martinho do Porto – onde recentemente voltei e achei que tudo era muito pequeno e estranho, a mesa do pequeno-almoço era minúscula; a sala onde brincava com os meus primos, quando a vi tive um choque; também já aconteceu sonhar com espaços desconhecidos que partem do quintal da minha casa, que pegam com os actuais muros derrubados e vão dar a casas que aparentemente não conheço. Quando sonho com espaços desconhecidos, por vezes tenho receio deles, mas noutros sinto-me como se estivesse em casa.

Maria João

ELE DISSE, ELA DISSE

Abruptamente, o odor de flores, agudo, vago, delicado,
O velho coração batendo suavemente, olhos
Frescos como uma maçã, todas as rugas idas.
Quem teria imaginado? Não ela, não ele.

Algo passou pelo quarto e não ficou.
‘Viste-lhe o rosto?’ disse ela. Ele disse,
‘Que dizia?’ ‘«Ido»’,
Respondeu ela, ‘Ou foi isso o que pensei que disse’.
Ele respondeu, ‘Não. «Vem,» estou certo de que foi «vem».
Chamou,’ disse ele, ‘Devíamos segui-lo. Não voltará.’
‘Espinheiro no Outono,’ disse ela, ‘Não me faças rir.
«Ido» foi a palavra, e partiu. Não sejas louco.’

‘Espinheiro,’ disse ele, ‘Primavera, o odor tardio de Primavera.
Tudo abre, tal como era.
Não vens comigo?’ disse ele. ‘Ainda temos
Uma oportunidade. Escuta. Cheira,’ disse ele,
‘Fomos adiados.’ Lentamente, preguiçosamente,
Ela abanou a cabeça pesada e virou-se.
‘Não espero,’ disse, ‘Não penses que o farei.’

O cabelo escuro à volta do rosto, os olhos ocultos.
‘Nunca,’ disse ela, ‘Já esperei demais.’
Ele respondeu, ‘Escuta. Está a chamar. É a nossa última oportunidade.’
Como comida, como chuva, como névoa. Boca aberta, coração aberto.
‘Tudo floresce,’ disse ele, ‘Como quando éramos novos.’
‘Quando éramos novos?’ perguntou ela, ‘Não me lembro.’

Uma centelha de oiro, um sorriso, uma voz vaga chamando
Confusamente ‘Vem,’ ‘Ido,’ ‘Vem’. Os odores mesclados
De Primavera na noite de Outono. ‘A nossa última oportunidade,’ disse ele.
E ela respondeu, ‘Aproveita-a sem mim.’


Tradução de Manuel de Seabra.

A. Alvarez

A. Alvarez nasceu em Londres a 5 de Agosto de 1929. Poeta, ficcionista e crítico literário, foi professor em Oxford e nos EUA. Entre 1956 e 1966 foi crítico e editor de poesia no The Observer. Também escreveu ensaios sobre o suicídio, o divórcio, entre outros temas. Obteve em 1961 o Vachel Lindsay Prize da revista Poetry (Chicago). Entre a sua obra poética contam-se livros como Under Pressure (1965) e Aparition (1971).

11.10.07

UMA CRÓNICA DE VPV

A corrupção do Estado
A entrevista que João Cravinho deu na última quinta-feira é indispensável para perceber a corrupção. Cravinho diz duas coisas de uma importância crucial, em que esta coluna tem de resto insistido. Primeiro, que o grosso da corrupção “se faz” com uma ou outra “entorse” imperceptível, “de acordo com a lei”. Segundo, que por isso mesmo a polícia e os tribunais não podem ir longe e só se ocupam de casos menores. No fundo, o Apito Dourado e as operações do género sai um espectáculo, que esconde os crimes de consequência. Com grande coragem Cravinho explica qual é o problema: o problema é o de que certos lobbies se apoderaram de “órgãos vitais de decisão” do Estado ou de departamentos que as preparam. Ou. Se quiserem, o de que o Estado se tornou o principal agente de corrupção. Isto significa não que o Estado serve, não o interesse do país, como compreendido por este ou aquele partido, mas sim o interesse de lobbies com mais poder ou influência. E, no entanto, nunca se fala disto, embora toda a gente o saiba ou suspeite, a começar pelo presidente da República, porque os “negócios” conseguem inspirar um respeito e um temor que, por exemplo, o futebol não consegue e que manifestamente coíbem a imprensa e a televisão. O que se passa no interior de certos ministérios de que depende a orientação da economia nunca chega à rua. Como nunca chega à rua quem perdeu ou ganhou com os “projectos”, que o Estado autoriza ou financia. Ou quem é e donde vem o impecável pessoal que manda nisso tudo. Ainda anteontem o dr. Cavaco exigiu novas leis para assegurar o que ele chama a “transparência da vida pública”. Infelizmente novas leis não bastam. Cravinho descreve o “choque” que sofreu com a complacência do PS perante a corrupção do Estado. Sofreria com certeza um “choque” igual, e talvez pior, no PSD. A verdade é que o “bloco central” se fundiu com o Estado. Não existe um Estado independente do “bloco central” e muito menos dos “negócios”, que o apoiam e sustentam: da banca e da energia, a quatro ou cinco escritórios de advogados. Cravinho, como Cavaco, não percebeu, ou preferiu omitir, que hoje não se trata de reformar uma parte inaceitável do regime, mas pura e simplesmente de mudar o regime. Se, por acaso caísse do céu a “transparência” que o dr. Cavaco deseja, metade da primorosa elite do nosso país marchava para a cadeia como um fuso.

PARTY PEOPLE


Não temos mão na treva, fio de lama que escorre à superfície da pele, acusação meiga de um brilho esmorecido, morte trespassada de anúncios que nos embalam à hora de adormecer os ninhos. Viemos do nada, riem-se das nossas fontes, gargalhadas crudelíssimas errando pelo corpo como a força de uma raiz exaurindo o caminho que vai dos tímpanos ao coração. Por isso palpitamos, tememos, por isso resgatamos num sopro a explicação das pontadas, por isso dizemos ser o mundo esta treva e nós a luz que destoa, por isso contrabandeamos ignorâncias várias consentindo no insulto que é dizermos: eu sei que tu sabes que eu sei. E assim, de inauguração em inauguração, vamos fantasiando o absurdo da vida, crentes de que um dia o nada de onde vimos se torne o tudo para onde vamos.

A GOTA DE ÁGUA

Quero dizer-te numa canção sem mágoa
A história tantas vezes repetida:
De uma nuvem tomba uma gota de água
E, humilde, contempla o imenso mar da vida.
E grita-lhe o oceano:
«não cores da tua pequenez, não escondas o teu rosto
Tu viste o crepúsculo, a aurora
Viveste no coração do mosto.
Viste os campos, as planícies, os desertos
Sobre a folha da árvore, no dorso das nuvens
Os raios de Sol te deram brilho
Nos espaços abertos.
Ora amiga das flores alteradas da pradaria
Ora confidente dos pássaros inebriados pelo dia.
Ora dormindo nas vinhas de um sono inquieto
Ora serena repousando por terra num sonho de insecto.
Nasceste da minha vaga alterosa
A vida te dei e eis que voltas para mim.
Repousa no meu seio silenciosa
Brilha como jóia no meu espelho, enfim.
Torna-te pérola,
Fica para sempre nas minhas profundezas bela
Sê mais deslumbrante do que a lua
Sê mais refulgente que o brilho de uma estrela.


Versão de Adalberto Alves.

Mohammad Iqbal

Mohammad Iqbal nasceu em 1877 em Sialkot, actual Paquistão. Poeta, filósofo e político, estudou em Inglaterra e na Alemanha. Publicou a sua primeira colecção de poesia, Asrar-e-Khudi, em 1915. Escreveu em persa e urdu, sendo de 1924 o seu primeiro livro nesta língua: Bang-e-Dara. A sua importância atingiu tais dimensões que a data do seu nascimento tornou-se feriado no Paquistão. Morreu em Lahore no ano de 1938.

OUTRAS GUERRAS, OUTROS PULHAS

Da série bibliofilia ou quem tem capa sempre escapa?, no Legendas & Etcaetera, sugiro este Manual do Soldado Portuguez Catholico.

ACORDAR

“Somos competitivos na mão-de-obra qualificada que ainda é barata.”

10.10.07

GRAÇAS A DEUS


Dias que correm mal, filmes estragados, dias parados, coxos, alimentos fora de prazo, dias de andar pelos mercados a respigar restos, dias atravessados na garganta das horas, dias que nem uma canção de Elvis Costello salva, dias que o melhor seria serem noites, dias de chegar a casa e meter abaixo todos os quadros circunspectamente distribuídos pelas paredes, dias de dizer ufa que nunca mais acabam, para, logo de seguida, voltar a citar o padre Meslier: «É evidente que o mundo está quase todo repleto de males e de misérias. Os homens estão todos eivados de vícios, de erros e de malevolências. Os governos estão cheios de injustiças e de tiranias. Assistimos em quase todo o lado a um dilúvio de vícios e maldades. A discórdia e a divisão reinam em quase toda a parte. Os pobres encontram-se quase sempre na penúria e no sofrimento, sem apoio, sem auxílio e sem consolação. Por outro lado, vemos aí muitas vezes os maus, os ímpios, os mais indignos de viver, a desfrutar da prosperidade, da alegria, das honrarias e da abundância de todos os tipos de bens. Não se pode negar o que afirmo a este respeito, e faltaria mesmo muito para eu dizer tudo o que se passa. Com efeito, quem quisesse descrever em pormenor todos os males e todas as deploráveis misérias que existem no mundo, bem como todos os vícios e todas as detestáveis maldades dos homens, teria de escrever livros inteiros. Deste modo, sendo evidente que o mundo se encontra repleto, em quase todo o lado, de males, de misérias, de roubos, de latrocínios, de crueldades, de tiranias, de imposturas e de mentiras, de discórdias e de confusões, etc., isto constitui uma prova indubitável de que não existe nenhum ser infinitamente bom e infinitamente sábio capaz de lhe fornecer um remédio conveniente, e, por consequência, não há nenhum Ser todo-poderoso que seja infinitamente bom e infinitamente sábio, como pretendem os nosso cristícolas». Obrigado meu Deus, por seres tão infinitamente bom e tão infinitamente sábio que te privaste da existência só para que fosse possível ao Padre Jean Meslier escrever estas palavras que ora nos consolam, quase 300 anos depois de haverem sido escritas. Obrigado meu Deus, por seres tão infinitamente bom e tão infinitamente sábio que te lembraste de desaparecer das nossas vidas para que pudéssemos à tua ausência acusar a culpa das nossas frustrações, dos nossos vícios, da nossa inaptidão para o bem. Obrigado meu Deus, por seres tão infinitamente bom e tão infinitamente sábio que te puseste na alheta só para que nos fosse possível pensar que, apesar de tudo, como diz o padre, em quase todo o lado, mas não propriamente em todo o lado, reina a miséria que faz escola nas bandas de onde vimos. Obrigado meu Deus. Não fosses tu, como poderíamos nós ser todos tão perfeitos, ingénuos, inocentes e castos?

SLIDING


Morde-me as veias, ata-me os nervos, não cuspas para o ar a saliva do meu peito, rasga-me os poros, borda-me as unhas, não cuspas para o chão a saliva do meu peito, corre para bem longe, onde nos sirvam copos de água, corpos de água, bem longe desta cidade, desliza no pavimento lúbrico dos meus medos. Receio que um dia me chegues tão intensamente deformada como um bando de sonhos sobrevoando a cabeça dos espantalhos, avisto-te ao perto sob a forma de um suspiro exangue, um cansaço fatídico, humilhado, e penso que à nossa volta bailam esplendorosas melodias de amor. Todos os domínios consentidos no teu mais breve afago, de mim errante afectos nascidos, sejam a palavra nós na solidão nocturna das ruas.

No Ano Internacional da criança
Dizia aqui há dias, não sei quem,
Com sorrisos de abastança e falas de desdém
- Que fome impertinente, que gula subversiva!
E fogueiras ardem e desmascaram-se folias.
Sobre um mar negro onde a loucura é diva
Desfraldam-se guerreiras melodias.
Boiardos sublevados cospem no cadáver de Lenine
Enquanto uns comem passas de Corinto
No Palácio de Inverno há biombos de absinto
Para que a matula, por detrás, urine.
Reuni a Geral Assembleia da generalizada carência
Vós sois orgulho e gáudio de toda a nossa ciência!
Párias do Bangla Desh
Paus de Arara do Nordeste
Kampucheias peregrinos
Bantustões das podres roças
Sentam-se com um sorriso agreste
E mães mostram meninos com um ar exangue.
Depois entra o Biafra a cantar hinos
E ostentando as mãos cheias
De pistolas disparam – bang, bang –
Vestidos de cowboy, sem sapatos nem meias.
«Alto lá, esta lata está estragada!»
Grita descomposto Hamlet na televisão
Olhando a caveira do pai mal embrulhada.
Bob Dylan suspira que nos States se desterra
E pelo sim, pelo não,
Investe em acções numa fábrica de guerra.
Porco, sujo, quero-me porco!
Poderia Maiakovski ter gritado
No auge do desespero e da desdita
Porque até o modernismo se consome,
Tem a modernidade que tem a própria fome dita.
Ai Marinetti! Suspira o Duce p’ra Dannunzio,
E o Che faz tiro ao alvo nas palavras, presas numa guita,
Dos poetas de raras sensações.
E «um grande lagarto verde com olhos de pedra e água»
Vende castanhas a dez tostões
E puxa fogo aos rútilos pinhais da mágoa.
Entretanto, ò suprema das venturas,
É Natal e isso se alcança da televisão a cores
Mas um hereje desdenha das alturas
Porque adormece mal,
Porque não tem boa-vontade
De se deitar com fome
De amanhecer com dores.
E enquanto se entende a doce melodia
O Papa no fervor da pregação
Escorrega e cai com palavras ímpias
Sobre a pia.
Ai João Paulo cinquenta vezes o negaste!
Estar vivo é ferver em água benta
E tudo é um paiol ou uma veia
Que ao pulsar fatalmente rebenta.
Por isso sou um louco à margem da vida
Com os cabelos da alma desgrenhados.
Estou convosco ò miseráveis
Na vala comum dos deserdados!
E, ai de mim, que vaga fronteira!
Um instante de vida é tempo ganho à morte
Pois morrer aos quinze anos ainda é ter sorte.
Por isso Índia, efémera e vedântica
És santa e luminosa
Na cópula frenética
Mas, perdoem-me Aurobindo ou Ramdas,
- Tudo será Maya – que visão esquelética!
À folia, à tripa forra!
Viva o coito de barraca
Com os incautos a olhar
E a chafurdarem, alegremente, em caca.
Vejo tudo isto – constatação bem velha
E Van Gogh doido de amarelos
Corta uma orelha.
Olho distraído o meu umbigo
Tenho nojo da minha saciedade.
A rainha de Inglaterra perde a compostura
E masturba-se com banana madura
Inaugurando um lar para a terceira idade.
Wenn ich eine Schwalbe wäre
E um miúdo maltrapilho risca-me o carro
E eu fico de olhar turvo e com um instinto bera.
Ò portas cintilantes sobre a madrugada
Ténues vestígios sobre a fronteira da vida
Aparas da morte debruçadas sobre o nada,
Tão perto, tão perto…
Coexistem alegres comemorações sobre o corpo de um burro
E de M=mc2 um vago cheiro a esturro.
Um hipopótamo vestido de Tio Sam
Vai direito à lua todo cio.
Bandeirinhas se agitam em todas as nações
Ritmos de can-can
Alegres canções
E eu penso: A puta que os pariu!
E ardo como um incêndio
No manicómio da história
E é noite de Natal,
Alles Schlaft,
E – Tudo brilha em glória.
Num lance de teatro
Cristo foge arrependido pela porta do cavalo.
Torquemada murmura: meus irmãos!
A oposição berra: não me calo!
E um Pilatos qualquer defeca aliviado
Na bacia em que lavou as suas mãos.
- Canso-me enfim. Quero dormir sobre este pesadelo.
Um instante de repouso
E que haja aqui e agora um velho do Restelo,
Que nos incendeie ou nos roube as esperanças
E sendo das Fúrias o seguro dono,
Nos lance a sua maldição:

Gente sem sentido,
Ou voltais de novo a ser crianças
Ou tendes de perder, para todo o sempre, o sono!

Adalberto Alves

Adalberto Alves, José Adalberto Coelho Alves, nasceu no dia 18 de Julho de 1939. Licenciou-se em Direito, exercendo ainda hoje advocacia. Frequentou também o Conservatório Nacional e a Academia dos Amadores de Música, tendo estudado violino e guitarra clássica. O seu interesse pela cultura muçulmana levou-o a estudar Língua Árabe na Universidade Nova de Lisboa, curiosidade que se alarga à História e Cultura Árabico-Islâmicas. Entre os seus vários livros de poesia, contos e ensaios, destacam-se obras como Uma obscura visão (1979), O Gume e o tempo (1982), O Meu Coração é Árabe – Poesia luso-árabe (1987). »

TIPOLOGUISTAS

GAF avança uma interessante tipologia dos bloguistas. Inevitavelmente escrito para ser lido, citado, reflectido, perscrutado, galardoado, o post merece ser confrontado com outros do mesmo autor. Também na tipificação nada há como os exemplos. O autor furta-se a estes, inteligentemente, dizendo que de todos somos nós um pouco. Tem a sua razão. Mas há sempre uns que são mais que os outros. Apreciei O aristocrata culto (só se dá com os seus pares, tão cultos como ele, e entretece com eles misteriosas relações de sociedade secreta), Os puros políticos (a sua mais patética ilusão é a de que o universo espera as suas crónicas com ansiedade), Os bateristas (só têm uma ideia ou duas, bem fixas, mas uma infinidade de jogos mentais e verbais). Revi-me, obviamente, n’O génio. Mas tudo isto podia ser "simplificado" falando de perturbações obsessivo-compulsivas, estados neuróticos e esquizofrenia paranóide.

Bloco de Apontamentos # 58


MJLF, S/ título, Caneta s/papel, 30x21cm, 1997

Este fim-de-semana assisti a um dos melhores concertos da minha vida: The Hilliard Emsemble na catedral de Évora a interpretar a nossa polifonia nas Jornadas de Música Antiga da cidade. Este peculiar Emsemble ficou conhecido pelas suas interpretações de Arvo Pärt e o que ouvi foi de facto milagroso: um concerto com um reportório onde Diogo Melgás, Francisco Martins, Lopes Morago foram intercalados com Dufay e St .Martial. O reportório era corrido sem espaço para aplaudir entre as peças e eles não tiravam os tons entre elas, não era necessário, entravam e saíam no tom certo. A certa altura, ao terminarem uma peça de Melgás, os sinos da catedral começaram a tocar as 22h, e eles ficaram em silêncio com as centenas de assistentes a escutarem os sinos – quando os sinos terminaram, o público não aguentou e desatou a bater palmas. Senti aquele momento do concerto como uma homenagem ao próprio tempo naquele espaço sagrado onde séculos atrás se produziram e interpretaram o melhor da nossa polifonia. E o final do concerto ainda foi ainda mais extraordinário – depois do público os aplaudir ao rubro, eles interpretaram um extra, uma pequena peça contemporânea composta especialmente para eles por um compositor inglês actual (que não recordo o nome, mas todos os verões eles organizam residências para trabalharem com compositores actuais). Aí tanto o público como a catedral estremeceram com a surpresa.

Maria João

9.10.07

TAMBÉM TENHO

Não sei por que deixei de ler A Montanha Mágica, um dos weblogs que mais lia quando cheguei à blogolândia. Regressei hoje àquele ar puro, através desta chamada de atenção no Linha dos Nodos. Em boa hora regressei:

Cartão continente
António Lobo Antunes diz "não tenho a menor dúvida de que não há, na lí­ngua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares"; David Fonseca diz "cheguei a acreditar que era o maior"; José Saramago diz que não é vaidoso; o arquitecto que só não é nobel porque ainda não se decidiu a ser escreve, esta semana, degladiar-se; os adeptos do fcp com uma tranca nos olhos conseguem ver um argueiro nos olhos dos outros; na quadratura do círculo Jorge Coelho; aquilo que era vox populi chegou aos ouvidos de um filósofo mediático: Portugal precisa de uma nova República; o ministro do MAI a dizer que a Formação Cí­vica é muito importante para a mudança das mentalidades; um cineasta português a dizer que não há no mundo muitos actores como Nicolau Breyner, meia dúzia talvez; Rodrigo Guedes de Carvalho diz que a literatura não serve absolutamente para nada; Marcelo Rebelo de Sousa diz que o novo livro de Fátima Lopes merece um 19; lá fora passa um carro de altifalante instalado a debitar música popular portuguesa cujo coro é não há terra como a nossa.

FOI NA CRUZ

Che é um símbolo do comunismo, o comunismo matou milhões, logo Che matou milhões. Hmmmm… Jesus é um símbolo do catolicismo, o catolicismo matou milhões, logo Jesus matou milhões. Mas o homem não morreu na cruz?

MAU PÉ ESQUERDO

É provável que a revista Atlântico venda pouco. Só isso explica a insistente manipulação da imagem de Che, que lhes serviu de capa no último número. Tão indignados que eles estão com as reacções à dita capa. Mas quais reacções? O que eu julgo é que eles estavam à espera de reacções, reacções essas que, não se tendo fazendo sentir, tornam a capa não só um redondo falhanço como a intenção da mesma se vê gorara. Só tal frustração explica esta resposta descabida, ameninada, pastosa do esquerdino do Vitória de Guimarães.

VELHOS HÁBITOS

Sou sindicalizado. Já recebi 3 SMS a pedir que também vá berrar contra Sócrates. Hoje era para estar presente na Covilhã. Quem me enviou a SMS foi o meu sindicato, afecto à FENPROF, afecta à CGTP, afecta ao PC. Mas o PC diz que não e não.

HOW DOES IT MAKE YOU FEEL?


Por que instigam pudor os olhos dos filhos? Não consigo, não posso, hesito, apelo, com os olhos dos filhos por perto só mesmo um amor velado, discreto, um amor que não seja autenticado pela pujança que o amor exige quando é de facto amor, um amor tímido, quando os olhos dos filhos por perto, um amor de línguas arrumadas por detrás das dentaduras, um amor de bocas fechadas, lábios secos, quando por perto os olhos dos filhos dizem-nos: será legítimo esse amor? Paramos no amor à frente dos seus olhos rústicos, à frente da arcaica ingenuidade com que nos olham os gestos, para eles ternura, para nós difamação. Arranjemos então o cabelo ao espelho, pintemos os lábios, ajeitemos as calças nas nádegas, engraxemos as botas, façamo-nos à noite. Que do outro lado das caipirinhas, nos olhem desavergonhadamente olhos que não sejam os olhos dos nossos filhos. Também a desvergonha exige ser validada pelas leis da hipocrisia. Melhor será fumar mais um cigarro.

FOLHAS VERDES

Eu vejo
na minha mão
uma lágrima;
sobre as folhas mortas
da chuva, eu
só posso cantar
a canção
da minha bem amada,
Folhas Verdes,

a alegria, trocou-a por tristeza,
a lembrança, pelo esquecimento.

Dela só me resta
esta lágrima que guardei;
e sobre ela vejo, debruçado,
entre a vida e a morte,
todo o tempo passado.

Folhas Verdes,
trocadas pelo Outono,
deixai-me cantar
minha canção do orvalho;

e que a manhã me traga
de novo um outro amor.

Paulo Tunhas

Paulo Tunhas nasceu no Porto em 1960. Licenciado em Filosofia, tem exercido várias actividades nesse domínio. Estreou-se na poesia, em 1983, com o livro A Torre Iluminada, ao qual se seguiu, em 1984, a colectânea intitulada Klee. Também escreveu para cinema, tendo-lhe sido atribuído o Prémio do Instituto Português de Cinema para o melhor argumento do ano de 1988, relativo ao filme Três menos eu, de João Canijo.

8.10.07

SENSO, SOLIDÃO, SILÊNCIO

A facilidade com que algumas pessoas julgam outras pessoas. No telemarketing querem ensinar-nos isso, convencem-nos de que, se estivermos atentos aos sinais, entendemos as intenções. Mas raramente os sinais coincidem com as intenções. A verdade é que as pessoas, geralmente, protegem-se dos sinais, cristalizam-se, fecham-se. As pessoas dissimulam-se, com a arte que têm, qual jogador de futebol, simulam fintas, entram de carrinho. Talvez pensem ser essa uma opção de bom senso, talvez seja essa uma opção condicionada pela solidão em que vivemos, talvez a sociedade esteja a ficar demasiado zen. Porque não aprecio este estado social, tendo a preferir a falta de bom senso, a partilha e o ruído. Não levo a vida tão a sério que me obrigue a estar calado. Isto, com sorte, dura meia dúzia de dias. Daqui a uns anos ninguém nos recordará. Por isso mesmo, regra eral, não julgo os outros. Apenas procuro entender, reflectir, criticar o que dizem. Quando sucede julgar alguém, arrependo-me. Enfim, 15 anos de uma relação estável, a qual já me deu duas filhas, permite-me pensar assim.

ARGUMENTO ONTOLÓGICO

Não busques conclusões no inconclusivo. Tudo o que possas deduzir de um assunto menos claro, trar-te-á mais lama que terra firme. O melhor é ser literal, ler apenas na pedra uma pedra, nada mais que uma pedra. Se te disserem sombra, não ouças corpo. Se te disserem corpo, não ouças sombra. Não terás oportunidade de te esclarecer. Em meios obscuros como aqueles em que te moves, só à noite é dada a oportunidade de se explicar. Por isso cala, cala quanto antes todas as hermenêuticas do rascunho, do inconclusivo. Não vale a pena o esforço. Principalmente quando, mesmo vendo uma pedra, os outros insistem em dizer que estão a ver uma prova de deus.

ENTREVISTA A HERBERTO HELDER

no Afrodite.

OSSOS, MÚSCULOS, NERVOS, ARTÉRIAS, VEIAS

O modo como cada indivíduo lida com os seus erros varia muito consoante a situação em que esse erro é descortinado, mas diz mais sobre a personalidade dos indivíduos do que outra coisa qualquer. Como gosto mais de falar de mim do que dos outros, chamo aqui uma conversa que mantive há dias com o Vítor Vicente. Dizia-lhe que me arrependo muitas vezes de muita coisa que fiz e de outras tantas que tenho deixado por fazer. Na minha vida pessoal o arrependimento ocupa grande parte do lugar que Descartes conferia ao bom senso, sendo por isso provável que, daqui a pouco, esteja já eu arrependido destas palavras que ora profiro. Contudo, se há coisa de que não me arrependo é de tentar, obsessiva e compulsivamente, aprender com os meus erros. Pelo menos tanto quanto tento evitar contendas desnecessárias, desgastantes, inúteis. A vida dura pouco, tenho mais que fazer, não quero chatear ninguém, não me chateiem a mim. Viver neste mundo ensinou-me, para já, que os erros pairam sobre os tectos humanos como permanentes ameaças de incompetência. Quando confrontadas com os seus próprios erros, as pessoas sentem-se fracas. Respondem a esse sentimento fraquejando, com humildade ou, amiúde, usando e abusando da arrogância que consiste em, das duas uma, procurar justificar o injustificável, acusar a quem aponta o erro sinais de petulância. Já vi um homem ser dispensado por ter criado antipatias com a sua chefa (?) que, ainda hoje me convenço, tiveram na língua portuguesa motivo de atrito. A chefa (?), «fizi-o» para aqui, «fizi-o» para acolá, não gostou de se ouvir corrigida com o «fi-lo» do súbdito. Deparo todos os dias com situações destas, ficando sempre na dúvida entre o sapo engolido e a cabeça a prémio. Não sendo nenhum especialista em matéria de língua portuguesa – tão traiçoeira que ela é -, sempre agradeci todas as correcções que me foram feitas neste domínio. Leitores já me escreveram a esse propósito. A Margarete ou a Soledade, para dar dois exemplos, corrigiram-me falhas lamentáveis, fruto da distracção, do desmazelo, da ignorância. Jamais faria orelhas moucas das chamadas de atenção, das correcções, dos erros que me apontaram. Agradeci-lhes e mudei o texto, porque os textos são como as pessoas, entidades inacabadas, em permanente construção, aprendendo com as suas próprias falhas e as falhas de quem os cria. A minha relação com o erro é, pois então, uma relação desprendida. Fico furioso quando erro, rumino sobre o assunto - por vezes, semanas a fio -, vingo-me no fígado, entristeço, deixo-me ir abaixo, deprimo. Mas não permito que o erro vingue. Detectado o vírus, procuro extingui-lo. A essa ânsia de perfeição, incutida por uma paternidade exigentíssima, corresponde, em mim, uma humildade ideológica, que fui beber, certamente, ao berço materno. Nada de extraordinário, sou humano. O que não gosto é de ver gente humana comportar-se como os animais, ignorando os seus próprios erros ou vangloriando-se, por vezes, dos mesmos como se estes pudessem ser virtudes. Talvez seja injusto para os animais repetir aqui um dos erros de Descartes, negando-lhes a faculdade de aprenderem com os seus próprios erros. Mas numa coisa o filósofo francês tinha toda a razão: «as cabeças, pouco depois de serem cortadas, ainda se mexem e mordem a terra». E nisso somos muito parecidos com certos galos que, decepados, ainda insistem num bater de asas que, como sabemos, não os livrará do lume.