16.9.08

DA VIDA FELIZ


Não esperarei pelos comboios que nunca chegaram a partir. A minha rota não é a da vida tranquila que Epicuro apregoava. Não procuro purificar a alma pela abstinência, não me chegam pão de cevada e água para sentir a virtude do prazer. Mas sempre que atravesso a linha penso nas palavras prudentes do velho filósofo e faço delas a minha única ambição: «alcançar o estádio em que não se sofre no corpo e não se está perturbado da alma».


Sei que tal estádio exige um esforço, uma dor para lá de todas as dores, uma dor maior que todas as dores, uma dor que apague a dor. E sei que nunca a tranquilidade da alma foi possível sem aquela inquietude que apenas nos deixa sentir a paz depois de terem sido travadas todas as guerras. No entanto, caminho à sombra das árvores curvadas e deixo-me banhar pelos raios de sol que rasgam os tectos de rama. Como que prevenindo-me de algo maior do que o sossego dos abrigos, o falso consolo dos refúgios.


Colho amoras pelo caminho, marmelos, peras e uvas, colho romãs e figos, bebo água dos fontanários e sacio a fome sem grandes esforços. Os pés não me pedem descanso. Só por isso caminho atento a tudo o que saia da terra sem exigir complexos sistemas filosóficos. A poesia dos caminhos não discorda dos rumores, as interrogações que nos coloca são por nós próprios cultivadas, amanhadas, sem prejuízo de eventuais inimigos ou admiradores.


Estas vinhas darão uvas, das uvas far-se-á o vinho servido às mesas de quem o queira provar. Nesse gesto de provar o vinho que veio das uvas que vieram das vinhas que estão na terra, residirá a circunstância última de um apetite que não se interroga. Por isso caminho como quem bebe e prova, como quem olha e sente, como quem se bebe de um trago enquanto se escreve, enquanto se engarrafa. E por cima das vinhas respiram as nuvens sem lugar. E debaixo delas há-de, sem lugar, o homem seguir o seu caminho.

Séneca dizia que «o prazer é coisa baixa, servil, fraca, frágil, que se estabelece e permanece nos lupanares e nas tabernas». Faço das silvas a minha taberna, o meu lupanar. São elas que me oferecem as amoras agridoces que temperam o paladar. São baixas, servis, fracas e frágeis. São o prazer. A elas submeto a minha lição, a elas me entrego como algo ainda vivo que sabe estar já morto, delas espero pouco mais do que pode a língua esperar: o consolo momentâneo de uma prática.


Agora deito-me e descanso. Espreguiço-me. Aguardo um sono quieto, retemperador. Ao fundo um mar de feno banha as raízes do sobreiro, acolá o vento penteia a trunfa à terra. Tão perto daqui, do outro lado da linha, os homens contam segredos uns aos outros, negoceiam estatutos, reduzem a vida à opinião dos peritos, deixam-se arrastar pelas modas, exigem dos outros as virtudes dos seus próprios defeitos, cospem veneno com a mesma facilidade com que louvam, arreganham os dentes à verdade porque incomoda muito mais do que a mentira. Agora levanto-me. Caminho-me.

5 Comments:

At 4:43 da tarde, Blogger nd said...

Pois, é frequente eu andar à procura do mesmo e por vezes chamo-lhe paraíso (sem metafísica). E as amoras desse aí - mais que as uvas - são óptimas e lavam-nos a memória por serem bagas da infância.

 
At 5:12 da tarde, Blogger Companhia do Eu said...

coisas boas! caminho-me também.
:)
Maria João

 
At 5:16 da tarde, Blogger etanol said...

esta ultima era eu, mas fui aqui parar com outro perfil!
Maria João

 
At 7:49 da tarde, Blogger firmina12 said...

muito bem. também me apetece caminhar aqui

 
At 11:24 da manhã, Blogger Silvia Chueire said...

Vida boa, esta... : )

 

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