30.6.08

O pensamento nas mãos #2


Um pianista como Sviatoslav Richter (1915-1997) decifra e dá corpo ao pensamento sensível dos compositores, expressos em partituras, que são apenas conjuntos de hieróglifos silenciosos para a maior parte das pessoas; Richter acreditava que um intérprete não deveria contaminar a música com a sua personalidade, mas sim ser o espelho da partitura, incorporando as intenções do compositor; com esta postura humilde, ele encarnou composições tornando-as música. Sim, porque a música apenas existe enquanto interpretada e no caso de Richter, quando ele tocava era um acto de pura magia. Este pianista ucraniano, ao contrário de Glenn Gould, preferia os concertos ao vivo, nos quais se fazia acompanhar das partituras e não gostava de fazer gravações. Ele interpretou um reportório muito vasto, sempre com uma técnica irrepreensível; o seu estilo, apesar de ser reconhecível, mudava consoante o compositor que encarnava, procurando sempre o mistério poético por detrás de cada obra e autor com o qual entrava em diálogo.

Maria João

#1

A EXPLICAÇÃO DOS PÁSSAROS #2

O José Miguel Silva coloca mais algumas questões pertinentes sobre a fotografia do casal Adolf Hitler e Eva Braun:

Primeiro, parece-me de um lirismo absurdo concluir, a partir daquela fotografia que Hitler "também amava". Se ele amava ou não, nenhuma fotografia do mundo no-lo poderia revelar, pois não há nada mais fácil, em fotografia, do que encenar sentimentos. Há fotografias que provam acontecimentos (desde que acreditemos que não foram manipuladas), mas dificilmente uma fotografia serve para provar a existência de um sentimento.
Em segundo lugar, mesmo que a fotografia provasse que Hitler também amava, que importância tem "o amor" em quem, directa ou indirectamente, foi responsável pela morte de uns 50 milhões de pessoas? Será que o seu "amor" por uma ou por dez pessoas redime o seu ódio por 98 % da humanidade? Se a fotografia provasse que Hitler também etc., provaria o quê? Que afinal Hitler era um bom homem que, enfim, também tinha os seus defeitos? Que Hitler era um ser monstruoso mas não a 100%? Bom, acredito que as suas vítimas morreriam muito mais descansadas se tivessem sabido que afinal o verdugo era um bom marido... A verdade é que esta foto é um atentado e um insulto à memória dos milhões de vítimas do nazismo, e não há álibi retórico que o passa negar.
Por fim, não deixa de ser também algo chocante o facto de a fotografia do casal de pombinhos exterminadores aparecer numa série de amorosos no terreno das artes. Eu sei que os artistas não são necessariamente anjinhos, mas também não é preciso exagerar. A não ser que consideremos que o Hitler era também, à sua maneira, um artista...
»»»

BOM DIA

Federico Fellini e Giulietta Masina.

SETE CAPÍTULOS DO MUNDO


1.
escrevo-te cartas que nunca irás receber.
a morada desaparece
sempre que tentamos encontrar
não uma porta, mas uma casa inteira.
desligo tudo dentro deste quarto.
ouço, incompleto, - com a janela
entreaberta ao fresco da noite –
cada pequeno ruído,
como se fosse um código para nos entendermos.



Ruy Ventura nasceu em Portalegre a 27 de Dezembro de 1973. Mestre em Estudos Portugueses (Literatura Portuguesa Contemporânea), tem publicados os livros de poesia Arquitectura do Silêncio (Difel, 2000), sete capítulos do mundo (Black Sun Editores, 2003) e Assim se deixa uma casa (Alma Azul, 2003). Colaborou em algumas edições colectivas e em várias publicações periódicas, tendo também organizado a antologia Poetas e Escritores da Serra de S. Mamede (Castelo de Vide, Marvão e Portalegre). É autor do weblog Estrada do Alicerce.

BUENAS NOCHES


Guilhermina Suggia e Pablo Casals.

29.6.08

BOM DIA

Stig Dagerman e Anita Björk.

MICROBIOLOGIA #26

FOI HÁ UM ANO


Uma brisa ligeira soprou quando Doug parou a olhar Joey fixamente.
“Olá, Joey,” disse Doug.
O silêncio cercou-os.
“Joey, peço desculpa. Eu não tive intenção. Não tive. E, Joey — Feliz Natal.”
Doug pousou uma rosa na lápide de Joey e foi-se embora.
“Poderás alguma vez perdoar-me,” perguntou, “por ter conduzido bêbado quando regressávamos a casa?”

Grace Caguimbaga

(Versão de HMBF)

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28.6.08

BOA NOITE

Yves Montand e Simone Signoret.

MICROBIOLOGIA #25


Amor angélico

Ainda que sabendo quem vencerá, o anjo aceita lutar com Jacob até ao amanhecer porque os anjos ignoram o desprezo.
Marco Denevi
Versão de HMBF


#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22 / #23 / #24

O pensamento nas mãos #1


Sviatoslav Richter a interpretar o Estudo Op. 10, nº4 de Chopin.
Maria João

BOM DIA


Patti Smith e Robert Mapplethorpe.

CARTA ABERTA A UM LEITOR APAIXONADO

Caro Umleitorquevaiescrevendo,

Há uma enorme dificuldade em falar para alguém que nos quer dar conselhos e pretende ser a nossa consciência, mas nem sequer tem a hombridade de se apresentar. Você, para mim, é apenas alguém que não me conhece, só isso desculpa as barbaridades por si proferidas. Fala da arrogância recrudescente do meu discurso mas não dá exemplos, não me diz onde a encontrou. Onde é que eu fui arrogante? Depois diz-me que eu deveria atentar na forma como digo as coisas. Bem, se a minha arrogância é apenas uma questão de forma, e não de conteúdo, então estamos falados. Sou, de facto, um homem do campo, não aprecio bocas cheias de papa, formalidades no discurso, gosto de dizer as coisas como as penso, de modo claro, havendo quem chame a isso frontalidade, detesto meninos calculistas e prudentes, cheios de estilo e muito urbanos, com muito futuro no nariz e gravatas apertadas ao pescoço, adoro andar descalço, a ferir os pés sobre as minhas próprias palavras. E ninguém me tire estradas poeirentas, carreiros de pedra, caminhos de terra batida. Quem me conhece, sabe que sou assim. Quem não gostar, tem bom remédio. Dê-me um pontapé no cu e vá à vida.

Depois você aconselha-me a repensar o processo criativo inerente à minha escrita. Como se houvesse um processo, como se houvesse a minha escrita. Não há. Já disse e repito: não escrevo, nunca escrevi para ser escritor. Os editores que me editaram livros sabem bem disso, eu disse-lhes isso olhos nos olhos. Não ando aqui para ser escritor, eu escrevo com o corpo todo, não me interessa escrever com a cabeça nem com o coração, interessa-me escrever com o corpo todo. É verdade que leio muito, que vejo muitos filmes, que vejo muita arte pelo caminho, que ouço muita música. Haverá quem veja muito mais que eu. E haverá mal nisso? Olhe, veja em mim apenas um bom cliente da coisa cultural. Apenas um bom cliente. Mas também lhe vou dizendo, e acredite que é verdade, que ainda prefiro as pessoas, mesmo com todos os seus defeitos, aos livros, aos filmes, às canções… e se há coisa que me faz estar aqui a responder-lhe é partir do pressuposto que você seja uma pessoa e, só por isso, mais nada do que isso, merece que eu perca um pouco do meu precioso tempo a responder-lhe. Mais valia estar a ver os Perdidos, mas aqui estou eu a perder-me na sua companhia, na ilha de todas as provocações, na ilha mágica onde a morte deixa de ser morte, onde a vida não é já senão uma coisa fantasmagórica.

Se o que escrevo lhe parece mastigado do que outros escreveram, paciência. Deve ser do ecfrástico, das intertextualidades, das invocações e convocações. São modas, tendências. Uma perdição. Eu adoro gajos originais, mas não olho para mim como um deles. E se os meus pobres textos lhe parecem reacções ao alheio, então parecem-lhe muito bem. É mesmo isso que eles são, reacções espontâneas, autênticas e honestas ao alheio, ao de fora que está dentro, ao dentro que se faz em relação com o que está fora. Não sei se ‘tá a ver, é uma coisa fenomenológica esta da escrita. Sempre em relação com… Até irrita. Eu gostava muito de viver enclausurado dentro de mim próprio, adorava ser esquizofrénico, adorava não ter janelas por onde saltar, ser ensimesmado e super-original, mas deus nosso senhor não me deu a graça desse dom. Deixo isso para os génios a pontapé que há por aí neste país. Eu gostava muito de ser eu mais o mundo à minha volta, mas o filho da puta do Heidegger há muito me ensinou que eu não sou senão um entre os demais, parte integrante de um todo com o qual me relaciono porque outra coisa não me é possível. Os outros não são todos os demais além de mim, são aqueles entre os quais também eu me encontro. Demos um abraço.

Depois preocupas-te com a minha saúde, dizendo que não achas saudável uma tal derisão para comigo mesmo. Tens razão, tens toda a razão. Devia levar-me mais a sério. Não é nada saudável. Daí que eu tenha tanto problema com a saúde: são as micoses, a asma, as rinites, as alergias, os nervos, a ansiedade, os ataques de pânico, o amor, até acho que estou a ficar alcoólico e agarrado à droga… Olha, só ainda não dei um tiro na cabeça, caro leitor, porque tu existes. Não há meias-verdades nisto, nem sequer há verdades. O que são verdades? Sei de quem prefira a verdade acima de tudo. Sim, a verdade. Outros preferem a liberdade, outros o amor. Não há meias-verdades. As meias-verdades são mentiras. Já imaginaste meios-amores, meias-liberdades? Isso não existe. Ou se é autêntico ou não se é, ou se é honesto ou não se é. E ser-se autêntico é amar por inteiro. Quanto a isso, só te posso dizer que aqui estou eu a perder o meu tempo contigo, a dar a minha cara, o meu corpo-alma perante o mundo, não me escondo, não sou uma meia-verdade, sou um rosto e um nome atrás de cada palavra que profiro.

Se compreendes que o que torna este meu espaço de partilha interessante é o ritmo que nele se impõe, por que duvidas que tudo isto não seja febre? As fábricas não adoecem. E eu estou doente, muito doente, e tu já reparaste. Obrigado. Fabril ou febril, que não te incomodem os meus ritmos. A minha família há 5 anos que convive bem com eles. Dizem que sou uma fábrica de febres e que tu, caro leitor amigo que me lês, que perdes tempo com as minhas febres, tu és o ser oculto que faz das minhas febres uma refeição. Alimenta-te de mim, leitor amigo. Só por isso te amo até ao mais fundo lugar do meu pobre e doentio coração.

As tuas epístolas são muito bonitas e sinceras. Terminas com uma suposição, mas também com muitas certezas, dizendo que te pareço dividido: «Suponho que a questão é se de facto és um criador ou apenas um funcionário... pareces-me dividido. Não que definires-te seja fundamental... Mas a boa arte nasce quase invariavelmente de um grande esforço consciente, deves ter ao menos consciência disto. Para haver reflexão é preciso tempo (que nem sempre há, eu sei). E eu não investirei contra o crítico de arte, desde que ele saiba onde é que fica na cadeia alimentar». Pareço-te dividido? Entre um funcionário e um criador? Funcionário de quê e de quem? Criador de quê? Ah! Tu sabes, tu estás certo, tu tens dentro de ti a ditadura do pensamento. Tu sim, tu é que és o crítico de arte. Eu há muito disse bye bye à razão, ó coisa linda. Aqui estás tu a criticar, consciente, por certo, do teu lugar na tua cadeia alimentar. Tu é que és o crítico, o crítico de um pobre miserável.
Por certo que reflectiste muito, tiveste tempo para isso, até chegares a essa conclusão mágica, genial, inaudita: "a boa arte nasce quase invariavelmente de um grande esforço consciente". Como é que eu não cheguei aqui antes de ti?! Ó Mestre, ó génio! Não tive tempo para aqui chegar. Não tive a tua agilidade reflexiva. Um grande esforço consciente, sim. A arte, pois claro. O crítico, os funcionários, os criadores. É tudo tão maravilhosamente Kant. Ou será anti-Kant? Mas olha, não tenho estofo para pensar essas coisas. Sou um pobre diabo. Não quero a boa arte nem esforçar-me conscientemente. Eu só quero continuar a ser inconsciente na prática da minha consciência. Prefiro, por isso mesmo, citar-te um excerto muito breve, apenas um muito pequenino, da Carta Aberta a Freud, escrita pela(s) pena(s) da senhora dona Lou Andres-Salomé: «a vida humana – como digo eu, a Vida! – é obra poética. Sem sermos conscientes disso, nós a vivemos, dia após dia, por fragmentos, mas é Ela, em sua inatingível totalidade, quem tece a nossa vida, e compõe o poema».

Fialho
Caldas da Rainha, 28 de Junho de 2008.

BOA NOITE

Manuel João Gomes e Luíza Neto Jorge.

27.6.08

A EXPLICAÇÃO DOS PÁSSAROS

Parece haver quem não tenha apreciado, ou julgado de mau gosto, a inclusão na “série dos casais” (chamemos-lhe assim) da fotografia do ditador Adolf Hitler com a senhora dona Eva Braun. Hitler é sempre uma personagem melindrosa, tenho consciência desse facto. Por isso deixei um comentário a tentar explicar a minha opção, comentário esse que recupero com alguns acrescentos: a intenção não é meramente provocatória. Seria infantil se assim fosse, pelo menos tanto quanto pensar poder haver da minha parte uma tentativa de branqueamento do que quer que seja. A minha intenção também não é, como foi sugerido, dizer da “fotografia enquanto ferramenta de reprodução da SUPERFÍCIE da realidade”. Apenas me interessa o gesto, aquela fracção de segundo que documentou um gesto, um gesto bem real que pode nada dizer acerca da realidade mas revela, no limite, a presença de algo que é indisfarçável - dê-se a esse algo o nome que se quiser. No caso específico da fotografia do ditador, esse algo adquire contornos ásperos e inquietantes devido à história sangrenta que associamos àquele homem ali curvado perante uma mão feminina que se lhe entrega. Que aquele homem esteja curvado perante tal estímulo é o que mais me interessa naquela fotografia. Que o ditador se curve para beijar a mão da amada é o que me interessa. Mas podemos pensar igualmente noutras fotografias que tenho por aí deixado: podemos pensar nos miolos estourados de Kurt Cobain, no sofrimento íntimo de Sylvia Plath, nos atropelos criminosos da firma Bonnie & Clyde, na tragédia em que descambou a relação de Oscar Wilde com Lord Alfred Douglas, etc, etc, etc. O que me interessa em todos estes pares é o gesto captado pela fotografia, o momento específico de uma espécie de revelação que está, provavelmente, para lá da nossa capacidade de compreensão. E se a fotografia é, sem dúvida, (l)imitadora da nossa percepção sobre a realidade, também é, penso eu, reveladora de uma “energia vital criadora” à qual alguns gostam de chamar amor.

POSITIVO

Glenn Gould a ensaiar a partita #2 de Bach

Maria João

BOM DIA

Françoise Gilot e Pablo Picasso.

BOA NOITE

Julie Mullard e Mary Renault.

26.6.08

Perguntar Ofende? # 6

Ontem procurei casais de lésbicas famosas e descobri que quase não há fotografias conjuntas ao contrário dos casais hetero ou de homossexuais. Que quer isto dizer? Por exemplo, a Susan Sontag e a Annie Leibovitz, não se encontra imagens do casal na internet, mas existem muitas fotos da Susan feitas pela Annie, envio aqui exemplos do que encontrei, o máximo é a Annie com uma foto que tirou à Susan em pano de fundo. Estou deveras intrigada com o assunto. Trata-se de respeito por parte dos outros fotógrafos ou não têm coragem das fotografarem? Será que o olhar em relação ao amor no feminino é mais discreto? Será que o amor no feminino é apenas espaço privado?

Maria João

Para o Jorge Fallorca... um Poema* de Fernando Assis Pacheco e uma Foto de Luis Gonzalez Palma




OS CÃES


Eram loucos. Alguns deles eram loucos,
Parados uma tarde inteira ao pé
do arame, esquecidos, sobre o pó,
gemendo lentamente, sei
de fonte segura que eram loucos,
alguns brutíssimos, rodam
um dia inteiro, rodam sobre si
próprios incansáveis, e ladram,
ou gemiam apenas, lentamente
como um sopro de vento
quando dá no capim, ou sobre
o pó gemem esquecidos, deitados,
furiosos, ladram, loucos
uma noite inteira, brutíssimos,
coçando-me incansável nas
pontas do arame, e logo ladro,
gemem, «está um trapo», uma merda,
a merda destes cães deitados
porque em pé, percebes, eu já
não (aguento) e fiz o possível,
fizeram o possível por apenas
gemer somente, cães que somos
dez, vinte, chama-me «Niassa»,
ou «Tejo», vinha deitar-se aqui,
e principalmente rodam, rodam sempre,
vou rodando à velocidade
incrível da bala. Eram loucos.




* Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

Para o Vitor Vicente... Poemas* de Jorge Fallorca e uma Pintura de Anselm Kiefer



COIMBRA, 19 MAR 73

Paranóia do Fogo.
Faço as mesmas mandalas — atravesso as ruas ao con­trário. Cada vez que escrevo pequenas palavras, gestos, ossos — mesmo um perfume distante — o círculo apare­ce-me sempre branco, como se de areia se tratasse.
Lagoa da Vela.
Antonin Artaud.
Montezuma.
— só eu assisto a isto no terror da tarde. As últimas palavras de Kaufman em letras de fogo

LISBOA, 21 JUN 74

Um doido sorri-me do táxi. Poucos doidos em Lx. Uma cidade, um país, uma cidade-país, que não tem doidos, mesmo poucos, não interessa. Tá bem eu sei que em Lx. é tudo doido, ou melhor: louco, eu sei, mas refiro-me a doidos mesmo doidos, com quem se possa aprender alguma coisa...



*Selecção de Jorge Aguiar Oliveira

BOM DIA

Édith Piaf e Marcel Cerdan.

25.6.08

BOA NOITE


Oscar Wilde e Lord Alfred Douglas.

BOM DIA

Adolf Hitler e Eva Braun.

A DANÇA RESOLUTA DAS FERIDAS*

Adolf Hitler e Eva Braun

precisamos de recriar o corpo
de trazê-lo de volta ao esquecimento
beliscar as axilas e morder nos olhos
a luz que concentra os nossos pecados

precisamos um do outro
levemente arranhados para dentro das unhas
sujos e poluídos e corrompidos
tão saborosamente desnudados na morte

precisamos de trazer de volta o corpo
amarrá-lo a um tronco de oliveira
como outrora fizemos
e asfixiá-lo para dentro do pulmão
até que ambos gritemos:

para sempre




*É este o título provisório do livro ao qual me referi no post intitulado As Feridas. Para já, deixarei um único poema, um poema a servir de exemplo. Depois se verá.

BOA NOITE

Sarah Affonso e Almada Negreiros.

24.6.08

BOM DIA

Lee Krasner e Jackson Pollock.

BOA NOITE

Kurt Cobain e Courtney Love (com Frances ao colo)

23.6.08

NOVO AVISO À NAVEGAÇÃO


A 26 de Março publiquei aqui o seguinte aviso: “A dezassete do último mês de Janeiro, escrevi ao Henrique Fialho pedindo-lhe guarida para os meus poemas inéditos no Insónia. A sua resposta foi generosa como se constata. Desde então, três poemas por semana têm vindo a partilhar a sua própria luz, num caudal de desejo, onde a foz é um livro.

A partir de hoje, os poemas já editados bem como os próximos, serão arrumados de acordo com a construção momentânea do livro. O mesmo sustenta um título de gratidão: Insónia em Segunda Mão.

Até ao final (?) tudo estará em aberto. Tanto para introduzir alterações na escrita, no aniquilamento público de poemas, ou até mesmo, na tomada de decisão pela não edição do livro. Logo se verá.

Aproveito para agradecer a todos os que têm expressado opinião sobre os meus escritos e dizer-lhes que não me salvando desta malfadada tristeza que carrego, são no entanto suaves festas no rosto de minha alma.”.

O poema publicado hoje “DE COTOVELOS NO PARAPEITO” é o último. Algo me diz para ficar por aqui.

Informo os navegantes que só voltei a ler (de corrida) alguns dos meus poemas aqui editados uma única vez. Chegou o tempo de partir, refugiando-me algures com os escritos e rever tudo. Logo se verá o resultado. Se um livro, ou regressar a este blogue (se o Henrique continuar a dar-me abrigo) e continuá-los se entender ser cedo para a impressão tipográfica. No próximo dia 1 de Setembro voltarei a dar notícias. Até lá, continuação de boa saúde ao Insónia!

Jorge Aguiar Oliveira

Lisboa, 22 de Junho de 2008. Portugal.

ÁLVARO DE CAMPOS (quinto-império REDUX)

Ah, ser engenheiro, e ainda por cima do nabal
para em vez de naus ter camiões para coçar
a (gluglugluaaaaarghronchronchuuuuuaaaagh) quinta
imperial!...


Augusto Santorini

Temos a “Palavra” como favorito

Obrigada AC, a “Palavra” mudou a minha vida, foi por causa dela que vim parar aqui ao Insónia. È raro saber de um regiano, eu também gostei, mesmo sem te conhecer.


Caspar David Friedrich, Mulher frente ao pôr-do-sol, 1818, óleo s/tela, 22x30cm, Museu Folkwang Essen, Alemanha


Maria João

BOM DIA

André Gorz a Dorine Keir.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #62

DE COTOVELOS NO PARAPEITO


pingos de chuva
salpicando as faces

o céu a fundir-se no mar

éramos duas nuvens
no firmamento do romance
até o ciúme nos evaporar

mais tarde ao desejar
voltar a ser nuvem
e reencontrar a outra
num escuro estrelado

surgiu um astro
que ao passar junto
ao parapeito da janela
disse olá engatilhando
um sorriso e desenhou
com o dedo indicador
molhado de chuva
um coração
no vidro da janela

trouxe luzes da manhã
para me entreter
e beijos em hortelã
debaixo duma chuva
molha tolos começámos
a desabotoar a vida

cedo demais partiu

abraça-me apenas
e não olhes para trás
para não veres a chuva
caindo nos meus olhos

pedi fingindo ficar
bem de novo
no parapeito da janela
com o pouco
que me resta

as sobras
do mundo


Jorge Aguiar Oliveira

22.6.08

BOA NOITE


Peter Orlovsky e Allen Ginsberg.

BOM DIA

Jim Morrison e Pamela Courson.

Micro #12

Cruzei-me com um anjo no supermercado – estava na caixa a atender-me com um sorriso lindo, disse-lhe boa tarde e ele respondeu-me a cintilar, enquanto fazia a conta e guardava as compras num saco de plástico. Pedi-lhe para me dar o saco, que eu podia ir guardando as compras, mas ele recusou, dizendo que quem sorri merece ser atendido de outra forma. Perguntei-lhe se o tinham tratado mal e ele disse que sim, que já foi insultado e é raro dizerem boa tarde. Despedi-me do seu brilho alertando-o para a infelicidade das pessoas, que é preciso ter paciência, que nunca devemos desistir de dizer boa tarde e sorrir apesar de o mundo não andar bem.

Maria João

BOA NOITE

Ted Hughes e Sylvia Plath.

21.6.08

BOM DIA

Arpad Szenes e Vieira da Silva

TROVOADA

não temas a trovoada
o aconchego do relâmpago
senti-la aqui tão perto
é um regalo a poucos concedido

se a casa tremer
lembra-te que não é de medo
nem do frio das paredes

as casas só tremem
porque estão de pé
fundadas na terra que recebe
as ossadas dos relâmpagos
as trovoadas

não temas os mortos
nem o aconchego dos vivos
nem deixes morrer nos vivos
as trovoadas que fazem tremer
as casas

BOA NOITE

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir

20.6.08

BOM DIA

Salvador Dalí e Gala

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #61

OBSESSIVO VERME


Babei-me como um bobby estérico
a dar ao rabo pelo ossinho, quando o vi
desfilar na passadeira rolante.

Decisão A: ir atrás de si. Decisão B:
esquecer a miragem e seguir o meu caminho.
Decisão C: (que fazer?).

Um dia depois, deu-me na boca tostas
com queijo fresco, doce de amoras caseiras
e o dedo a chupar. O tabuleiro em cima da cama
fez-me descansar um pouco da noite ardente.
Pus a tocar re-tratamento dos Da Weasel
e olhei-o todo espreguiçando-me. Coloquei
o tabuleiro no tapete e ele riu feiticeiro meu.
E a língua lá veio pela perna acima como
se fosse na passadeira rolante deslizando
em direcção aos meus tomates.

Pedi para parar de acariciar minha face
com saliva, pois preciso de veneno
bem mais eficaz para os dias que nascem
podres dentro de mim. Lambi enlouquecendo,
as feridas dentro de ti que ao espelho
do desespero, eram as minhas.

Já não havia brilho ou sopro para limpar
nos meus passos moribundos.

Podia trocar as cerejas pelas romãs,
a camisa por aquele livro com o selo
da tua garantia de ir gostar
(mesmo não confiando no teu gosto),

não podia trocar era dois dias da minha vida
por dez anos da tua. Além do mau negócio
como podia aceitar esse relógio pelo tempo
que dizias ter a mais para quem tem vermes
no sangue e irá levantar-se à pressa
a qualquer momento do jogo deixando
os adversários sem perderem nem ganharem?

Chamar-te verme era pouco, contra a tua
insistência, dando-me um beijo em troca
de outro. E eu guardei para mais tarde
a última festa em minha face,
para a lançar fora pela janela.

Atrevimento invejoso oferecer-me
a noite, sabendo que eu sei ir morrer
profundamente triste durante
a madrugada.

Jorge Aguiar Oliveira

BOA NOITE


Bonnie Parker e Clyde Barrow.

19.6.08

MICROBIOLOGIA #24

O ORDÁLIO*

Ela odiava-os! A todos! As máscaras não disfarçavam a satisfação com que aquelas mãos tacteantes a agarravam – para ele.
A dor e o sangue eram insuportáveis. Ainda assim, ele persistiu, forçando-a.
Os gritos dela apenas o encorajavam. Ela não sabia que entregar significava uma certa morte.
Finalmente, satisfeito, ele disse, “É um rapaz”.

Tom McGrane
(Versão de HMBF)


*Nota via Wikipédia: Ordálio ou ordália é um tipo de prova judiciária usado para determinar a culpa ou a inocência do acusado por meio da participação de elementos da natureza e cujo resultado é interpretado como um juízo divino.

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BOM DIA

Sid Vicious e Nancy Spungen

OMAR PESSOA

Não nado,
não por não amar o mar
mas por não haver mar maior
que viver afogado.


Augusto Santorini

BOA NOITE

Frida Kahlo e Diego Rivera

18.6.08

RICARDO REIS DIRECTOR’S CUT


Sabes, Lídia, que as flautas dos pastores
são deusas lídimas e no entanto morres
de não tê-las, e em aviso repercutes não
o querê-las, mas o destinar-se o coração

ao som ausente da mão que te não toca,
a minha. E não há-de vigiar-te a hora oca
se em mais que sonho te busque o dia findo
e o cinzento louro e vago doutro sono lindo,

etéreo ou literal como o existir a moda
de usar o corpo sem ser para estar ausente
e haver lençóis, céu a tanta ode resistente.

E já nos vimos decerto, como aconselha a foda
das flautas que no campo inteiro se proclamam
deusas das outras deusas que me chamam.


Augusto Santorini

BOM DIA


John Lennon e Yoko Ono

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #60

DIAS EM QUEDA



ficou escuro
a meio da noite

e um clarão
incapaz de iluminar
a sombra
da tua última palavra
estremeceu
no meu coração
como se bateras
àquela porta.

Fui abrir
mas só vento
e a minha loucura
abraçaram este corpo.

É a saudade
a pôr-me louco


Jorge Aguiar Oliveira

BOA NOITE

Rilke e Lou Andréas-Salomé
respigados aqui

17.6.08

Fragmento # 62 - Protesto mudo


Para o Henrique Manuel Bento Fialho

O País vive hoje um buzinão contra o aumento do custo de vida e a especulação dos preços dos combustíveis. Não entendo a forma do protesto, porque o meu protesto é o silêncio, há muitos anos que protesto assim. Sou mulher, não casei, não tive filhos, nunca tive uma carreira, não vou ao cabeleireiro, só arranjo trabalhos precários, por vezes não me pagam, nunca trabalhei das 9h às 17h, não abandonei Portugal, nunca tirei a carta de condução e nunca tive um telemóvel. Não inflaciono o custo de vida de ninguém assim, muito menos os ouvidos. Ando de transportes públicos ou a pé, mas a maior parte do tempo nem saio para o exterior, estou às voltas no mesmo sítio. Eu protesto parada e em silêncio, porque interiormente sou um buzinão contínuo. Custa-me tanto a minha vida e ela não tem preço, por isso o meu silêncio é também contra o aumento do que não tem preço. Resta-me o protesto mudo. O meu silêncio no entanto ainda fala, mas de um modo enigmático, paradoxal, há muito que não digo coisa com coisa e sei que assim ninguém me dá crédito. Eu quase não existo, sou um absurdo ou quase-nada em protesto no dia-a-dia quando pinto, resta-me a prática da arte do silêncio que fala.

Maria João

SILLY SEASON

O escritor e activista Mark Lynas recebeu o mais prestigiado galardão britânico de escrita científica; Na Terra dos Homens, obra de ficção de Marlene Correia Ferraz, ganhou o Prémio Literário Miguel Torga; o escritor austríaco Josef Winkler foi distinguido com o prémio Georg Büchner; o livro Os da Minha Rua, editado pela Caminho, valeu ao escritor angolano Ondjaki o Grande Prémio de Conto «Camilo Castelo Branco»; nos últimos dias, várias livrarias associaram-se aos Prémios de Edição LER/Booktailors; o libanês Rawi Hage recebeu o prémio literário Impac Dublin, no valor de cem mil euros, pelo seu primeiro livro, De Niro´s Game; pela tradução inglesa de Os Maias, Margaret Jull Costa recebeu o prémio Oxford Weidenfeld; o Grande Prémio de Romance e Novela da APE foi atribuído a Filomena Marona Beja; ao oitavo livro publicado (Inglorius) Joanna Kavenna, 34 anos, foi distinguida com a versão do Orange Broadband Prize for Fiction para novas autoras; Rose Tremain recebeu ontem o prémio Orange de ficção, com o livro The Road Home; o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE) foi atribuído a Ana Luísa Amaral…

Todas estas notícias, e muitas outras como estas, estão disponíveis, neste preciso momento, no weblog da revista LER.

BUZINÃO

Hoje há buzinão contra o aumento do custo de vida e a especulação do preço dos combustíveis. Percebesse-se a relação, mas não se percebe a forma de protesto. O buzinão exige um gasto de energia que está para lá das minhas possibilidades. Não tenho ouvidos para o buzinão, o meu veículo consome tanto combustível que, sempre que buzino, parece que tusso. Eu hoje protesto em silêncio. Contra o aumento do custo de vida, sim. Custa-me tanto a minha vida, a minha vida que não tem preço. Protesto contra o aumento do custo do que não tem preço, porque me custa tanto o preço a pagar pela vida que tenho. Mas protesto em silêncio, não vá algum ouvido sentir o meu protesto. E, dessa forma, sentir o custo da sua vida inflacionado. Não quero inflacionar o custo da vida de ninguém, por isso protestarei em silêncio. O meu buzinão é todo para dentro, circulam filas intermináveis de pesados e de ligeiros nas vias rápidas, nos itinerários principais, nas auto-estradas, nos carreiros, nos caminhos secundários, nas estradas nacionais da minha vida. Estará tudo a buzinar, mas ninguém conseguirá ouvir. Será um estremecimento. Eu protesto contra a especulação do preço dos combustíveis. Na verdade, protesto contra toda a forma de especulação. Mas mais ainda contra a especulação do preço dos combustíveis. Os combustíveis aumentam o custo da nossa vida, são o sangue inflamável da nossa imprudência. Eu tenho uma paixão ateada dentro de mim e protesto contra ela, é uma paixão que se move a combustíveis tão onerosos, tão difíceis de suportar, que o melhor é mesmo transitar lentamente com a mão na buzina estridente do meu peito. Protesto contra o custo inflacionado da vida que levo, protesto contra a especulação dos meus combustíveis. Eu movo-me a gasolina, eu movo-me a petróleo, eu comovo-me ao mais caro combustível que é possível imaginar. Tão caro, tão dispendioso, tão difícil de suportar que não poderei senão protestar parado. E em silêncio.

COMO FOLHAS DE CAEIRO


Se o destino quisesse que eu me tivesse feito escritor,
teria posto a minha mão direita contemplando o impossível da
minha mão esquerda, e as duas servindo ao sonho de eu
não estar aqui, mas outro homem com caneta escrevendo
a vida desse deus que podia ter cabido em meu lugar
só para sonhar homens de mais serventia para o alto.
Se o destino escrevesse direito, como o crer dos crentes, nas
linhas vesgas que hoje me desfiguram as mãos com rios
imperfeitos ou erros da gramática, fingindo a cura das almas
renitentes e de todas as faltas de sentido com palavras como
sol, destino, deus, rios, palavras, então eu abriria as mãos
para te mostrar
como rouba a vida tudo quanto fica escrito.


Rui Costa

16.6.08

Micro #11

Sonhei que no lançamento do próximo número da Big Ode, vários colaboradores estavam descontentes com o resultado final da revista e dirigiam-se a mim de um modo agressivo – que ironia. Acordei do pesadelo, ainda de madrugada, com um enorme estrondo no atelier: tinha caído um quadro da parede, o seu peso arrancou os pregos, levando um bom bocado de estuque atrás – o quadro é grande e pesado, foi contra a mesa em frente, onde derrubou frascos de água e partiu pincéis, arrastou com ele um candeeiro de pé, partiu ainda um dos apoios do cavalete, estava tudo devastado. Fiquei sem saber se haveria de sair de casa.

Maria João

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #59

CAIXOTES DE RAÇÃO



papéis gratuitos com palavras vendidas
latas de refrigerantes cascas de laranja
bilhetes de metro maços de tabaco vazios
uma inanição presa ás asas do mosquedo
boletins de fortuna da sorte caroços de cereja
códigos secretos para destabilizações programadas
e uma cópia do desenho envenenado da moeda
única para o mundo suja por uma tristeza demente
beatas ovas de esturjão pratas bandeiras de pele
chamuscada segundos enlatados um inverno
repleto de fungos parasitas memórias
rasgadas aos bocadinhos peixeiradas
no blogue uma tosta mista e vasculho
vasculho entre cinzas, e só encontro
sacos de plástico sujos de sangue
tripas e caroços de gritos
Sangra, sinistro, a alguns o astro baço.
Seus três anéis irreversíveis são
A desgraça, a tristeza, a solidão.
Oito luas fatais fitam no espaço.

Enquanto desfruto dos poucos dias
que faltam para partires de novo
tomo banhos de hortelã-pimenta
convocando o mistério dos mistérios.

Jorge Aguiar Oliveira

Pessoa. 10


Um dos azares do Fernando era não lhe caber o Tédio no rendeiro. O outro era o tarolo não lhe ter comprimento para, guinando por debaixo dos ovos, ocupar o lugar onde o Tédio não cabia. Criou por isso Fernando o irmãozinho Caeiro que, havendo adquirido os hábitos do rebanho, passou a recepcionar o Tédio em forma de Doce Vazio de Existir, que era o nome que o Fernando reservava para o tarolo nos dias em que a Sorte (também conhecida como “aquela putéfia da Rua dos Douradores”) se mostrava renitente à intromissão da Poética nas traseiras das cabritas. Dizia o Caeiro que havia Metafísica bastante em postar-se de rendeiro para o ar, a apanhar com sol biológico, e o Fernando a explicar-lhe que se aquilo não era uma flor é porque era outra coisa, e que essa coisa é que era linda. Linda, linda, mas no dia seguinte quem não se assenta sou eu, retrucava Caeiro, enquanto as cabritas se espavoriam, caindo directamente da Rua dos Douradores no Sereno Mar do Alheamento, onde aparcara Reis, com o travasso escondido atrás da caneta, das várias canetas com que tentava acertar nas prebendas que lhe caíam do Céu do Esquecimento, que era o outro nome que se dava nesse tempo às cricas assassinas. A culpa foi de Bernardo Soares. Era a sua vez de chamar o moço dos fretes. Por isso todos o encalcetámos perdidamente, com Florbela Espanca assistindo, cheia de sonetos atravancados onde o Tédio nunca coube.


Alcides

RECADO AMOROSO DEIXADO NO FRIGORÍFICO*



Não te esqueças de lembrar
o homem mais importante de nada
do nada mais mundo do universo
que num dia infinitamente ínfimo
se sentiu esplendorosamente só
durante 24 horas de um segundo
distinto de todos os outros segundos
por nele ter perecido ainda viva
a possibilidade de uma vida impossível

Pois se algum impossível houvesse
na vida tão morta em que vivemos
seria o de não magoarmos as pedras
à nossa passagem

E se as pedras não se queixam
senão calando num ruidoso silêncio
a dor que lhes causamos quando passamos
vamos nós queixar-nos com lágrimas mudas
de por elas termos passado
sem que um único músculo tenha sido movido?



Título pedido emprestado ao Senhor Changuito.

15.6.08

O edita por escrito

6 .

Havia muito espírito de excursionista entre os editores do Edita.
Excursionistas sim, mas, alto aí, de elite e que se reconheciam iguais entre si e facilmente chegavam a um acordo.
Podia facilmente chamar de 69 intelectual. Mas para não me acusarem de brejeiro, diria antes que se tratava de contrabandismo cultural. Comércio claro, mas, alto aí, comércio com classe, pois há quem precise pertencer a uma classe para sentir-se com classe.
O meu íntimo sentiu-se invadido ao quererem identificá-lo como igual a uma infinidade de íntimos. Ao sentir-se rodeado pela predisposição para o acordo fácil e óbvio, fecha-se como um túmulo.
No final do dia, já não podia ver nem ouvir falar em livros. Só me apetecia debater, sei lá, a competência entre as marcas de combustíveis. Sentia necessidade de me demarcar e de me diferenciar. Mas nem precisei de abrir a boca. A minha imagem cuidada falava por mil palavras.

*

A viagem de regresso do Edita também teve o que se lhe diga de desdita.
Primeiro ia perdendo o comboio de Huelva para Sevilha. Mas a boleia da malta da Big Ode pôs-me a tempo de chegar a tempo e horas a Huelva. Termino e inteirar-me de que havia greve.
A alternativa era um autocarro que, além de excursionistas do Edita, levava ainda uma romaria de romenos. Ir pela estrada fora deu para ver a olho nu um pouco de Sevilha e ficar com vontade de voltar quando voltarem melhores dias que estes.
Cheguei ao aeroporto a tempo de apanhar o voo anterior ao que havia reservado para regressar a Barcelona. Tirei partido de pertencer à Companhia e liguei para o call center e mudaram-me o bilhete com todo o gosto e sem nenhum custo.
Sem nenhum custo a não ser o niñato andaluz, no assento diante do meu e a berrar “holá” como um disco riscado e resfriado. Mas a Companhia não me podia ajudar a encontrar a companhia certa para estar ao meu lado. Nem no céu na terra, amen.

Vítor Vicente
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TORTURA

De todas as mudanças ocorridas, e foram muitas, com a introdução dos telemóveis no nosso quotidiano, o esbatimento das fronteiras entre os espaços público e privado foi a pior de todas. Um indivíduo é livre de partilhar imagens e sons captados com o seu telemóvel. Para tal existem espaços on-line bastante diversificados. Esses espaços só são visitados por quem os quiser visitar, é fácil evitá-los. Mas a rua é um espaço público inevitável, um homem não pode evitar andar na rua. Pode optar por caminhos diversos, pode sentar-se em locais diferentes, mas não pode evitar a rua. Incomoda-me e invade a minha privacidade escutar alguém que não conheço de lado algum a discutir ao telemóvel. Há pessoas que não percebem isso, que não entendem que estão a invadir a privacidade dos outros expondo dessa forma a sua própria privacidade. Não sei o que possa ser possível fazer contra tal fenómeno. Custa-me tanto lidar com as minhas discussões que julgo impossível aprender algum dia a lidar com as discussões alheias.

SINAIS

Às vezes é tudo tão rápido, às vezes é tudo tão tarde, às vezes é tudo tão ameaçador que o coração perde-se-nos nos labirintos das dúvidas e a ausência marca-nos os caminhos da voz como alguém que, raptado por uma energia tão temível quão anormal, vai deixando sinais à passagem. Seguimos o rastro, nada mais podemos fazer senão seguirmos o rastro. E toda a decifração possível está nesse gesto de perseguir.

13.6.08

UM LENTO DESPERTAR


Há quem pareça sentir saudades dos tempos em que o actual Presidente da República, o mesmo que acabou de comemorar o "dia da raça", era Primeiro-ministro. Só isso explica tanta animosidade para com quem se manifestou nos últimos dias, independentemente das motivações, dos interesses e das conveniências partidárias por detrás dos protestos a que todos tivemos oportunidade de assistir. Algumas frases que quero registar, por manifestarem o pensamento não apenas do seu autor, mas de muitas pessoas ainda tão arreigadas ao politicamente correcto:


«Em Olhão existiram bloqueios de estrada e buscas a malas de automóveis particulares para encontrar peixe, que de resto foi atirado à estrada, e em Matosinhos os pescadores impediram a entrada dos vendedores e clientes na lota. Isso provavelmente significa que a greve não está a obter o impacto desejado, um problema de quem o organizou, mas estas atitudes de alguns pescadores são intoleráveis e lembram o pior de outros tempos. Que eu saiba ainda não voltamos ao PREC, por isso estes actos são casos de polícia e devem ser tratados como tal».


Não era preciso irmos ao PREC. As imagens acima reproduzidas são apenas um pequeno exemplo do que se passou durante os saudosos anos do cavaquismo. Já não se lembram da “guerra do carapau”?


«Não sei quem é que esta gente se julga, ou de que autoridade revolucionária se crê investida, mas espero que a polícia não deixe de acompanhar os «brigadistas» para permitir a venda e compra de peixe, espanhol, português ou com qualquer outro bilhete de identidade, a quem assim o queira».


Quem é que esta gente se julga? E quem é que se julga a gente que julga aquela gente? Há gente a passar mal neste país. Orgulho-me que a bola não os adormeça, que venham para a rua, que protestem, que abram os olhos. Quando as formas de luta legais se tornam inconsequentes é preciso partir para formas de luta radicais, é preciso mostrar que há alternativas à modorra de sempre. Ou vocês pensam que isto vai lá com os discursos do Manuel Alegre?


«Prosseguem, por todo o país, inacreditáveis actos de intimidação, vandalismo e violência. Um pouco por todo o lado vemos camionistas que obrigam outros a pararem nas estradas, ameaçam e «exigem» documentos de identificação, arremessam pedras e vandalizam camiões para impossibilitar a sua circulação».


A mais recente febre legalista também passa por aqui. Acho piada que se critiquem os camionistas e as transportadoras por estarem a protestar com acções à margem da lei. As greves, as paralisações, quando surgiram também eram ilegais. Depois foram legalizadas, tudo para que passassem a ser anódinas. Estou farto de greves inconsequentes, de paralisações inúteis. Ainda bem que o país começou a mexer, seja lá por alma de quem for. Queriam detenções? Queriam que a canalha fosse arrumada na gaveta à base da bastonada? Queriam sangue? Não perdem pela demora. Vão-se preparando, sentem-se confortavelmente nos "maiples" dos vossos lindos e confortáveis lares. Acabaram de assistir a uma amostra do que aí vem. Faço minhas as palavras do Álvaro:


«O Estado de Direito já não é direito, é falho, e por isso, independentemente das movimentações políticas e da estreiteza das suas reivindicações, protestos como os dos pescadores e dos camionistas fazem todo o sentido, e não se pode querer arrumá-los dentro do sistema de cuja falência eles próprios são sinal claro. Além disso, esperemos que não sejam os únicos protestos a fazer mover um descontentamento generalizado e activo, que deveria produzir-se na proporção em que vão faltando medidas que corrijam as imensas desigualdades e injustiças sociais, não só entre os cidadãos mas entre instituições, empresas, etc».

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #58

POST-ITS COM SOM DE SÓ



1
guarda a imagem do homem
da bengala invisível, só para ti.
Se a mostrares, dirão
conhecer montanhas deles

2
com linhas de luz do sol
desfiado, chuleei nuvens.

Acorda, há gente morrendo
à fome há nossa porta

3
regressam barcos do largo
sem ninguém. A praia vazia

4
um vento arrasta uma fala
desértica, no silêncio das
conchas partidas na areia

5
usava um batom de água e sal
a louca da sereia, ó lua

6
a amizade ganhando pó
no tempo com a ausência

7
nas minhas rezas
os santos são cegos
o meu signo é Licorne
a cor rosa envelheceu
tanto que ficou tão
escura como as veias
do corvo envenenado

8
se pássaro fosse
ofereceria meu peito
à mira da caçadeira

se fosse peixe
morderia o anzol
para ir e não voltar

esta maldição
de ser o que sou
sofrendo bebo
o veneno do amor

9
vezes sem conta
sinto que estás
tão perto
pelo sopro na orelha
atrás de mim

10
vou à varanda
por estar só e lanço
um pedido ao deus-
-dará



Jorge Aguiar Oliveira

OS PORTUGUESES SÃO UM POVO MEDÍOCRE, ANALFABETO E DESINTERESSADO #9


Em Itália, os médicos da Clínica Santa Rita de Milão realizaram várias cirurgias inúteis para obter o reembolso da previdência social. Submeteram 86 pessoas a cirurgias de forma abusiva com o único objectivo de obter o dinheiro concedido para as operações mais importantes que geravam reembolsos vultosos da previdência social. As mortes de cinco pacientes foram consideradas "suspeitas". A acusação cita os casos de uma mulher de 42 anos que teve um seio retirado pela detecção de dois nódulos, sendo um gorduroso, de uma jovem de 18 anos que sofreu a mesma mutilação por causa de um adenoma fibroso que não era canceroso ou ainda o de um homem de 38 anos atendido com pneumonia, que poderia ter sido tratado com uma drenagem e com antibióticos, mas que, entretanto, teve parte do pulmão retirada. Uma mulher de 88 anos foi operada três vezes, com cada cirurgia rendendo 12.000 euros. Uma outra paciente, de 85 anos, que sofria de dificuldades respiratórias, com suspeita de tumor no pulmão, foi operada com urgência "apesar do risco elevado" sem ao menos ter sido submetida anteriormente a uma biopsia. Morreu. (toda a notícia aqui, via Pisca de Gente)
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12.6.08

teoria lírica (8. CIÊNCIA)


1. Eu gosto muito da sensibilidade e choro às vezes mas não me apercebo porque estou sempre a pensar noutras coisas.

2. Gosto dos bichanos, dos gatinhos que gatinham para mim, auscultando-me o olhar posto neles. Mas não acho bem que se afoguem os gatinhos que não olham para mim, e era mesmo capaz de cortar as unhas se lhes (gatinhos) sentisse algum fulgor nisso.

3. Dar milho aos pombos é um acto de sublimação sexual. Claro que isto ainda não foi estudado, porque os cientistas têm dificuldade em conceber a oferta de milho como um órgão sexual.

4. Os cientistas não dão milho aos telescópios, mas deixam-se ser observados por eles. O órgão sexual dos cientistas é ser observado pelos telescópios, às duas da manhã, com um botão a menos na bata da imaginação, café, acreditar, ser observado por uma bactéria, ser encontrado por uma bactéria às duas da manhã, orvalho, glicerina, mon amour.

5. O José Luís Peixoto é uma pombinha com dentes, e tem muito medo de magoar o milho.

6. O Henrique Fialho é um frasquinho de mercurocromo. Serve para joelhos esmurrados de coices nas sevícias da bola__derivado a que o toque do vermelho consagra a amizade (ausente) por quem cai a fazer aquilo que gosta.

7. Dia pleno de sol no esventrar da humanidade. Corpos riem-se, flores calcadas. Uma mulher mostra-me o cabelo. Eu digo-lhe: quero passar a mão no teu cabelo. Ela encosta-se a mim. O sol pesa nas minhas mãos sobre o seu corpo. O sol pesa, o mundo desaparece.


Rui Costa

OS PORTUGUESES SÃO UM POVO MEDÍOCRE, ANALFABETO E DESINTERESSADO #8


Nos EUA, um fim-de-semana bem passado em família pode passar por levar a filha de 8 ou 9 anos a tentar rebentar com um carro, repleto de explosivos, com armas automáticas que fariam o exército português corar de vergonha. "Kill the car", o sugestivo nome deste pacato passatempo em que se disparam dezenas de balas por segundo contra tudo o que mexe, é um sucesso, garantem os promotores do Oklahoma Full Auto Shoot & Trade Show. (Zero de Conduta)

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11.6.08

MICROBIOLOGIA #23

APENAS UM TAKE

“Idiota!” Gritou o realizador, nos exteriores, para o assistente. “Não te consegues lembrar de nada? Agora teremos que usar cerveja a sério durante as filmagens.”
Sentado num bar da baixa escolhido para a cena final do dia, o velho actor olhava cabisbaixo as suas mãos trémulas.
Reza por 20 takes, pensou.

Dean Christianson
(Versão [livre] de HMBF)

#1 / #2 / #3 / #4 / #5 / #6 / #7 / #8 / #9 / #10 / #11 / #12 / #13 / #14 / #15 / #16 / #17 / #18 / #19 / #20 / #21 / #22

VENI!

Penso naquela que me salvará
gentilmente como se faz de barco
um barco que aparece no sapato
os operários tiram das palmilhas placas de vidro
ainda quentes do caminho que levava o balão
directamente ao forno oh sim a nobre sociedade reúne-se todos
os dias debaixo do fumo
temos de que alegrar-nos vem tudo ainda muito amarrotado
cheio de nós
o leme inchado estala tal como a vizinha do porta-moedas
ela é que vai salvar-me das suas meias
às quais me fixo como um cabelo molhado
já tenho um presente para ela: a côdea em vez do tacho
apoiar certo o tacho sobre o ombro e cavalgar cavalgar
a que me salvará terá um dínamo no seu vestido
a remexer-lhe discretamente os lábios
nas costas um moinho de vento que dissolverá rapidamente
as crianças não desejáveis verdade é que
não convém pôr muita folha na piscina
chupo-lhe o dedo creio que não será a verga dela
fito-a discretamente no rosto:
neste momento uma pedra desprende-se
e rola rola como o tamanco do guarda
salto-lhe em cima: que trazes tu para aqui senão
um arpão
arrastado na lama duma meia-noite qualquer?
salto-lhe para a cabeça e ilumino a navalha de barba
antes que ela me corte o pão todo
cortarei eu a moto do burgomestre na presença
dele
ela cola-me aos seus pequenos seios ela amolga as minhas orelhinhas
sigo-a no cadafalso onde havemos de suplicar livros
e nas piscinas roubar velhotas
realmente não há nada a que se jogue


Tradução de Mário Cesariny


Pavel Řezníček nasceu a 30 de Janeiro de 1942 em Blansko, na República Checa. Escritor autodidacta, pertencente ao grupo de surrealistas na Checoslováquia, traduziu, entre outros, Joyce Mansour, Ambroise Vollard e Benjamin Péret. Publicou vários livros de poesia e de prosa.

O PLÁGIO

Não sei o que leva alguém a plagiar um texto. Avanço com algumas hipóteses, por me parecerem as mais lógicas: gostar desse texto, sofrer de pedantismo, ser preguiçoso. A Internet é um território bastante propício para a prática do plágio. Uma quantidade enorme de textos à mão de semear, sem nenhuma protecção específica, ao dispor de um número incontável de gente espalhada por todo o mundo. Não se admirem se começarem a ter mais sensações de déjà vu no decorrer das vossas leituras. Não me refiro à sensação de que já tudo foi escrito, refiro-me à certeza de já terem lido o que então estão a ler. A essa sensação podemos juntar a forte possibilidade de um qualquer livro ser publicado algures com palavras vossas e sem o vosso consentimento, ou mesmo de um autor se tornar famoso à base de textos colhidos aqui e acolá no espaço agreste da Internet. A M. M. Botelho queixa-se de plágio. Também eu já acusei algumas usurpações (aqui, aqui e aqui). Entretanto, experimentei googlar ao acaso algumas frases de textos meus. Comecei por um dos primeiros textos publicados no Insónia. Et voilámais um plágio. O resultado da experiência foi tão assustador que resolvi parar. Se queremos ter um weblog aberto, uma das primeiras condições psicológicas a que nos devemos obrigar é a um completo desprendimento relativamente às palavras que escrevemos. Uma vez colocadas on-line as nossas palavras passam a estar à mercê de todos, deixam de ser nossas, deixam de estar sobre o nosso domínio, praticamente perdem o autor. Não há deveres na Internet. Não esperem, pois, que existam direitos.

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #57

A LI E A LU



O comboio circulava na borda do prato da sopa
quando miúda descarrilou as carruagens
com a colher para os agriões e o arroz.
Esta é a Li. A madrasta deu-lhe uma chapada
vermelha na face de sobremesa. Danada
conteve a respiração num contra-ataque
e desmaiou sendo levada para as urgências
do hospital. O inesperado do improviso passou
a artimanha com resultados triunfantes pelos
anos, até aos dias dos namoros e maridos.
Se não me levar ao Egipto eu... se não
me oferecer o jipe não lhe dou mais beijos!

Os hipnotizados palermas a prazo foram sugados
até ao último sopro da conta bancária pelo assobio
da serpente que ao cuspir de desprezo o verme,
partia para outro, para outras chantagens.

Sempre disse que Irei como um cavalo louco,
do Arrabal, e Eraserhead do David Lynch,
serem os filmes que adoraria ter realizado.

Nunca quis chegar à verdade de coisa alguma

a Lu. Vivia como uma macaca na floresta
das dúvidas, para lá do olhar envidraçado
escorrendo perguntas carnívoras. Seriam todas
as mortes noites escuras ou palavras em gesso?
Nascerá dentro de cada morte outra morte?

Morando a poucos metros da memória do Botto,
só queria voltar a Lisboa quando cobrissem
a Estátua do Marquês com um enorme preservativo
e o povo celebrasse em torno do falo da cidade
o amor celeste. No Rossio se vendessem ramos
de seios de várias cores em cetim e cera,
como se fossem manjericos. Nas secretárias
dos funcionários da vidinha, os pisa-papéis
seriam falos com asas de borboleta e um beijo
fermentado com amor fosse tão normal
como um acordar para a vida.

Só queria voltar quando o cérebro fascista
estivesse dentro dum frasco num museu.

Antes de vestir a revolução cultural chinesa
nos anos 70, sonhara ser cisne bailarino
de Tchaikovsky, cantando a Carmina do Orff
na banheira, até chegar o Bach de braço dado
com o namorado. Nos 80, curtiu Guns N’ Roses,
chorando ao ver M. Butterfly do Cronenberg.

A Li e a Lu conheceram-se no Memorial Bar
engatando desde logo mútuos desejos cinéfilos
de realizarem filmes colados a desgraças como
os beijos dados nas películas made in Bollywood.

Em casa consumia-se mais coca que farinha
para bolos. Nojenta visão eram elas lambendo-se
pálidas à matinée. Uma esfera de metal na língua
e uma ursa menor brilhante na orelha da Lu
mais a tatuagem foleira de dois bambis no cimo
duma montanha nas costas da Li, eram sinais
de tribo e do tempo. Quilómetros de película
de seringas e limões do Casal Ventoso,
misturadas com paixonetas lésbicas nuns
vãos de escada porcos de escuro em Xabregas,
nunca chegaram a ter um fim de montagem.
Muitos túneis do cérebro metendo água
e a memória afogando-se no desalento
dos farrapos de ideias com dislexia.

Decidiram viajar para o interior da Colômbia
com o objectivo de realizarem o perseguido guião
das suas vidas. Ao desaparecerem da Arrentela,
venderam os piercings, as correntes e os blusões
de napa, por irem ser outras, quando pusessem
o pé no avião e dissessem adeus
ao tempo dos amargos dos subúrbios.

Era Maio e a coruja cantando possuía a noite
dos ponteiros dos relógios
murmurando tempos de morte.


Jorge Aguiar Oliveira