18.12.08

O QUE É A VIDA NESTE PAÍS AQUI E AGORA?


Esta será apenas a primeira de outras respostas que se anunciam a um desafio colocado pelos ilustres Manuel A. Domingos e Luís Filipe Cristóvão. Indo directamente ao assunto, julgo existirem duas formas de olhar para a vida no Portugal moderno. A primeira é a de quem olha de dentro para fora, a segunda será a de quem olhe de fora para dentro. De dentro para fora, eu diria, citando o Ruy Belo de Na Senda da Poesia, que «é realmente uma desgraça ter nascido em Portugal. Sentimo-lo quando nos nasce um filho. Parte para a vida em desvantagem». Esta desvantagem refere-se à dimensão do país, uma dimensão não necessariamente geográfica, mas cultural no sentido mais lato do termo. Podemos, obviamente, fazer algum malabarismo e compararmo-nos à imensa maioria de países no mundo que se encontram ainda pior que Portugal. Mas esse exercício não só é inútil, porque nos distrai dos nossos problemas, como acaba sendo capcioso. Devemos comparar-nos com os países da União Europeia, os de uma mesma família de que, por diversas razões, somos parte integrante. E aí a comparação deixa-nos muito desanimados. A vida neste país, assim pensada, torna-se decepcionante. Pessoalmente, julgo que o maior problema de todos, outros haverá tão ou mais importantes, resulta de um burguesismo estupidificante que ocorreu no Portugal dos últimos 30 e qualquer coisa anos - «Burgueses somos nós todos / desde pequenos» (Mário Cesariny). Isto deve-se ao facto de a clara melhoria de condições de vida não ter sido acompanhada por uma mudança de mentalidades, ou seja, o progresso económico não se viu acompanhado pelo progresso cultural. A falência da educação - também em sentido lato, pelo que não me refiro exclusivamente à falência da escola (essa há muito está falida) - é, talvez, o princípio base desta gigantesca assimetria. O que temos hoje é um país de saloios endinheirados e de outros saloios que, não sendo endinheirados, imitam como podem e sabem os primeiros. A pobreza de espírito está à vista, nota-se em gestos quotidianos muito simples, é assaz visível na febre consumista que assalta as pessoas na época que estamos a viver neste preciso momento. E note-se como tal pobreza de espírito se reflecte em comportamentos básicos, da mais elementar cidadania, olhando para a fotografia que encima este texto. Trata-se de um dispositivo para as pessoas de cadeira de rodas poderem abrir as portas de um centro comercial recentemente inaugurado em Caldas da Rainha. Foi rapidamente transformado num cinzeiro. Se pensam que apenas uma ou duas pessoas o transformaram num cinzeiro, desenganem-se. Todos os dias o dispositivo tem sido limpo, todos os dias aparece imundo de beatas e de cinza. Depois também podemos olhar para a vida no Portugal de agora pensando de fora para dentro. E aí ocorre-me uma frase do Luiz Pacheco numa carta dirigida ao António José Forte, datada de 12 de Junho de 1961: «Os saloios, como sabes, somos nós todos ― vistos de Paris». A frase não é de agora, mas, para mal dos nossos pecados, continua a fazer todo o sentido. Temos gente de muito valor em Portugal, temos gente portuguesa de imenso valor a trabalhar no estrangeiro, o país é bonito, embora o tenham destruído em grande parte nos últimos, lá está, 30 e qualquer coisa anos, temos tido políticos de merda – pensamento, talvez, tipicamente português, mas irrevogável -, temos uma culinária de excelência, boa música, bons poetas, prosadores sofríveis, 1 Prémio Nobel da Literatura, uma nação futebolística… Mas há algo que nos faz sofrer quando nos pensamos portugueses, quando temos que, diariamente, nos confrontar com as atitudes mesquinhas, incultas, estupidamente arrogantes, saloias no pior sentido do termo, medonhamente conservadoras e elitistas, com os comportamentos burgessos da imensa maioria dos portugueses. Em suma, e voltando a citar, coisa também muito portuguesa, «o povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, Portugueses, só vos faltam as qualidades» (Almada -Negreiros no agora de 1917).

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