11.6.07

COMO EU COMI A CABEÇA DO ESCORPIÃO BUDISTA


Eu tenho a poesia toda metida no meio
do teu silêncio, digo, o
que só cega cabe a demorar
um pouco mais a vinda da ausência que
se vem
é porque o mundo foi feito de outra forma
e nós não estávamos lá para dar a nossa,
ou simplesmente sorrir.

Frio__pessoa de querer bem e
afligir cabeça de família, dinheiro
para o mês. Não consigo suportar
a palavra de o amor não ser um
acto de vontade. Não quero vencer
porque isso seria a forma mais
discreta de emigrar e eu não quero
ser discreto, se os documentos
subidos a custo para eu poder
ouvir música, sozinho no meu quarto,
às cinco da manhã.

Que te basta perceber de mim?
(Não foi fácil descobrir que eu sou
do tamanho do teu mundo.)
Diz assim o teu mestre de yoga:
árvore, era uma vez
depois de muitas vezes descobriu
que estava presa à terra
e ao ar
e ao sol
e à chuva
e não apenas ao seu corpo.
Por isso que a árvore tinha que escolher:
ou era vaidosa ou não era ignorante.
Tu achaste que isto era uma metáfora.
Eu pensei (mas não disse):
- Não é fácil ser amigo de uma árvore.
- Porquê?
- O sol, a chuva, o ar.
- E depois?
- Nada. Vou buscar água.

E fui deitar-me na minha apetência pela
tarde até acordar com a água verde a subir-me
pelas costas. Foi simples levantar-me. Havia uma
casa mas ninguém se aproximou. Deixaram-me
reparar sozinho as consequências da que podia
nem sequer ter existido.


Rui Costa

3 Comments:

At 11:10 da tarde, Blogger R. said...

Gosto muito deste poema.

 
At 10:01 da tarde, Blogger parole said...

Extraordinário...

 
At 11:42 da manhã, Anonymous Anónimo said...

triste...porquê?
PB

 

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