18.11.05

CÃO ATÓMICO

1.

Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!

2.

Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear.
E por essa razão se foi deitar.

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Vitorino Nemésio nasceu na Praia da Vitória, Terceira, a 19 de Dezembro de 1901 e morreu em Lisboa a 20 de Fevereiro de 1978. Interrompeu os estudos liceais, feitos nos Açores, para assentar praça como voluntário. Cabo de infantaria e empregado de escritório, em Lisboa, tornou-se profissional em 1921 como redactor de A Pátria. Revisor da Imprensa da Universidade, em Coimbra, em 1922 matriculou-se na Faculdade de Direito e depois na de Letras, acabando por se licenciar no ano de 1931 em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa, onde se douturou em 1934 com o estudo «A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio». Ensinou nas Universidades de Mompilher e Bruxelas, antes de se tornar professor na Faculdade de Letras de Lisboa, da qual veio a ser director (1957-1959). Em Coimbra foi militante republicano académico e com Afonso Duarte lançou a revista Tríptico; percursor da Presença, colaborou nesta e fundou a Revista de Portugal, aberta a todas as tendências literárias de Portugal e Brasil na década de 30. Em 1966 recebeu o Prémio Nacional de Literatura. Da sua obra poética destacam-se livros como O Bicho Harmonioso (1938), O Cavalo Encantado (1963) ou Limite de Idade (1972).

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