13.1.06

Essa gente não sabe dos corpos a linguagem da desordem.
Esboça, quando muito, pequenos gestos
periféricos.
É uma longa aprendizagem
que pouco lhes diz. Pervertem-se na ignorância
de tudo e de si mesmos e vão (sobre)vivendo com a lentidão
e o sensabor de quem tudo desistiu.
Subsistem.
A praia que lhes sobra chega para a dessatisfação
do largo mundo.
Percurso rastreado dia a dia onde não cabem
os Melquíades da infância.

Neles, a contiguidade do desejo é vital e extemporânea: um vinho
resinoso e a polpa de algumas azeitonas
configuram
padrões de vida não vivida.
Assumem-se, outrossim, como a geração do martini.
Progridem de snack para snack ao sabor de liofilizadas
cerejas, outros fumos, vários palpites
gustativos.
Entre a magia do sound
e a inutilidade de alguns lances
vão auscultando um tempo de procura e
merecimento.

Eduardo Pitta

Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, ensaísta, nasceu em Lourenço Marques a 9 de Agosto de 1949, tendo vivido em Moçambique até Novembro de 1975. Publicou o primeiro livro, Sílaba a Sílaba, em 1974. A sua obra poética foi revista e fixada em Poesia Escolhida, volume de 2004 publicado pelo Círculo de Leitores. Na revista LER, da mesma casa editora, manteve o poeta uma coluna de crítica de poesia singular entre as nossas letras. Alguns dos seus ensaios encontram-se reunidos em volumes como, por exemplo, Metal Fundente (Quasi, 2004). Outros ensaios da sua autoria são Comenda de Fogo (2002) e Fractura (2003), no qual aborda a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea. De salientar ainda a colaboração dispersa por várias revistas e órgãos da imprensa escrita e online (Hífen, Inimigo Rumor, Ciberkiosk, etc). É uma das vozes mais activas no weblog Da Literatura.

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