22.2.07

A CASA VAZIA

Ó casa vazia,
o medo vive nela,

onde as portas chiam
como feras da estepe,

onde a mesa espreita
de angústia no chão,

onde se escondem nos cantos
sombras de pavor…

Ó casa vazia,
casa com duplo-fundo,

quartos vazios
para recordar o passado –

risos, amores, palavras,
candeias, encontros no mundo…

Que paredes brancas!
Onde há nelas sombras

nossas do passado?
Onde se oculta o riso

ou os gritos de dor?
Debaixo do soalho?

Ó casa vazia,
nem um’ alma bela,

vazio pela casa,
e nada, senão

palavras vazias, raivosas,
olhares mortos,
e nós – dois estranhos.


Tradução de Manuel de Seabra.

Semyon Isaakovich Kirsanov

Semyon Kirsanov nasceu em 1906, no dia 5 de Setembro, em Odessa. Estudante de Filosofia, foi descoberto por Mayakovsky depois de se ter mudado para Moscovo. Começou a publicar em 1922, colaborando na revista Lef. Em 1926 edita Pritsél’. Foi correspondente de imprensa durante a Segunda Grande Guerra, tendo-lhe cabido a cobertura dos julgamentos de Nuremberga. Foi um poeta activista e propagandista, contribuindo para a causa comunista com slogans, panfletos, artigos e poemas. Depois da Guerra assumiu uma vertente mais intimista. Morreu em 1972.

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