19.3.07

DIVIDING THE HOURS TO MEASURE THE TIME


David Sylvian
Pollen Path

Ouço a voz do vento sempre que me aproximo das horas. Este tempo invernoso, este corpo trespassado, é sempre um enunciado à procura dessa voz. Ocorre-me a figura sombria das mulheres enormes aqui do bairro, as suas pernas deformadas, inchadas, com as varizes a saltarem para fora da carne. Têm os dedos grossos, os dentes podres, nódoas no corpo. Parecem nunca ter-se penteado, talvez ao vento, enquanto acendem as fogueiras onde embalam os filhos com mezinhas de mau-olhado. Pousam o vento nos aventais e eu aproximo-me delas, este vento trespassado, este corpo à procura de uma voz. Logo os pinheiros reclamam e a lua se acerca dos caminhos, medindo a palmos a sombra que nos mira das varandas ausentes. São prédios de varandas ausentes, os prédios do meu bairro. Às vezes pára um carro, abastece-se, mijam contra a sombra dos corpos sem saber que estão a mijar contra os próprios corpos. Tratam mal as mulheres, chamam-lhes nomes. Elas ocorrem-me como a figura que equilibra o quadro, aquele traço desfigurado que, de alguma forma, dá consistência à paisagem. Não são apenas uma intromissão, são o peso sagrado do que prova, por si só, a ausência do divino. São aventais de vento.

3 Comments:

At 11:34 da tarde, Blogger Alves Bento Belisário said...

"Sonhas um livro de infância
Que te não é dado ler:
--------------------------"

 
At 11:46 da manhã, Blogger hmbf said...

obrigado pelo comentário

 
At 2:19 da tarde, Anonymous Inês C. said...

"Ler-te" é tão refrescante... É boa prosa, para variar, sem fugir para os becos da imcompreensão. O que alguns fazem e outros lhes chamam de génios. São génios porque são imcompreendidos? Porque é o que desconhecemos tem de ser maior que nós? Bem, agora sou eu que não sei se me faço entender mas percebo e sinto o que escreves sem que isso lhe tire a surpresa , a magia e a excelência de uma boa prosa.

 

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