7.3.07

A mulher-bibelot

Via Arrastão.

Para Schopenhauer o amor é um instinto, assim como mamar. Só que enquanto o instinto de mamar tem em vista a satisfação de uma necessidade fisiológica do indivíduo, o amor cumpre necessidades da espécie, nomeadamente, a procriação, a geração de uma criança. A verificar-se uma coisa destas, somos apenas joguetes da natureza, uns palermas que para aqui andam, cheios de sonhos e ideais que mais não são do que truques para disfarçar um egoísmo específico, uma debilidade que faz de nós escravos e vítimas da espécie. Sendo assim, as pessoas que não encontram o parceiro ideal para a procriação só podem trazer consigo um defeito de nascença, uma falha qualquer que os impede de concretizar os ditames da espécie. Já as pessoas que não desejam ter filhos podem ser consideradas, aos olhos da espécie, seres amotinados, temíveis revolucionários a trazer na mira da censura. De entre estes pervertidos os do género feminino são os mais censuráveis. Isto porque, levando à letra o autor de A Metafísica do Amor, deviam ser, naturalmente, o género mais fiel. Estando-lhe no sangue a propensão para a fidelidade e um espírito mais ponderado, apesar de se revelar o género mais frívolo e de inteligência acanhada, a mulher é quem mais obedece à natureza da espécie. O problema é que, no seu breve Ensaio Sobre as Mulheres, o filósofo alemão afirma a dissimulação como uma característica inata das mulheres, consequência da qual nasce a falsidade, a infidelidade, a traição, a ingratidão, etc. Afinal são as mulheres mais fiéis ou infiéis que os homens? Schopenhauer lembra-me aquele padre do poema de Manoel de Barros que, olhando no recreio um menino que não brincava com os outros meninos, pensou que ele seria poeta. Na verdade, o menino estava apenas com uma terrível dor de barriga. A Metafísica do Amor é um dos exemplos mais extraordinários de que, trazida ao concreto, a metafísica perde grande parte da sua razoabilidade in abstracto. Pretendendo-se inimiga do mito, ela foi, por diversas vezes, promotora de mitologias tão razoáveis e prováveis quanto o elixir da eterna juventude. Promotora, portanto, de injustiças com catastróficas consequências. Mas há um desses mitos schopenhaurianos que a toda a hora parece querer comprovar-se: «as mulheres são, por índole, inimigas». Bem sei o quão injustas podem ser todas as generalizações deste tipo, difíceis de justificar à luz da milhentos exemplos trazidos à mão, mas macacos me mordam se não é verdade verdadinha haver nesta metafísica da mulher uma correspondência iniludível com o concreto. Há quem diga que isto resulta de milénios de endrominação masculina, como se a história da subjugação da mulher ao homem tivesse resultado numa desconfiança entre as mulheres que hoje se manifesta numa espécie de instinto de competitividade, misturado com uma fatuidade extrema frequentemente confundível com inveja, ressentimento e outras virtudes que tais. Como sou muito humilde nestas questões, prefiro sempre não elaborar grandes teorias de género e evitar distinções disparatas que oponham homem e mulher a partir de traços de carácter biologicamente indetermináveis. O que a experiência me vai dizendo é que há entre as mulheres um complexo de inferioridade que ainda está por resolver, e que os tempos em que vivemos, tempos de subsunção do feminino à promoção de um ideal de beleza físico, também em nada ajudam a que ele seja resolvido. O estereótipo da mulher-bibelot, seja no papel de mãe, dona de casa, modelo de beleza, amante de trazer no bolso, está longe de ter sido ultrapassado. Estaremos no bom caminho?

8 Comments:

At 11:54 da tarde, Blogger etanol said...

era muito bom que estas coisas fossem ultrapassadas. nunca li o cabrão do Schopenhauer, só algumas coisas acertadas que a criatura escreveu sobre música, agora em relação às mulheres, porra!
Maria João

 
At 11:47 da manhã, Anonymous sara monteiro said...

Concordo inteiramente! Isto de dizerem que as mulheres "agora não sei o quê" é atirar areia para os olhos.

 
At 3:30 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não, não estamos no bom caminho.Devem as mulheres perguntar a si próprias porquê...
PB

 
At 5:10 da tarde, Blogger cuscavel said...

Henrique, o "caminho faz-se andando", não era assim que diziam? Alguns passos já foram dados. Ou já se pretenderam, pelo menos, dar. Se tiveres com disposição, passa nas cuscas, onde há dois posts ("mulheres contra mulheres") sobre o tema.

 
At 6:19 da tarde, Blogger hmbf said...

Obrigado pelos comentários. Vou passar no cuscavel... :) Ah! Maria João, Nietzsche não lhe ficou atrás. Dizem que bebeu no mestre e que tinha uma irmã lixada. :)

 
At 1:19 da manhã, Blogger Orquidea said...

E a imagem do post? Parece que finalmente vão retirar essa publicidade porque não é boa para a imagem da mulher.
Sinceramente, a mim não me faz espécie nenhuma a imagem. Está bem conseguida a fotografia. O que vai para além disso, são as pessoas que vêm. Mas devo ser a única pessoa a pensar assim, certo? Está bem, eu, mais os machistas e as taradas (não! só um bocadito, lol.
Já o sistema de quotas... sou a favor (embora sejam vocês que daqui a pouco vão precisar desse sistema,lol)

 
At 12:21 da tarde, Blogger hmbf said...

é possível
quando formos cotas

eu não gosto da imagem
não por qualquer preconceito moral
mas porque a acho demasiado estilizada

 
At 9:13 da tarde, Anonymous caulderios said...

Schopenhauer foi preciso e realista ao dizer a verdade sobre as mulheres, seria bom se a sociedade ocidental desse mais atenção aos escritos deste grande pensador.

 

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