9.3.07

O ANIVERSÁRIO

Neste dia de aniversário, quarenta e sete anos
que mais ninguém nos tira, morro-me Pessoa
como quem não compreende como pode ser
possível uma morte tão jovem na velhice pre-
matura de um corpo, ou mesmo na juventude
da inteligência. Que aconteceu? Que acontece
com esta percepção e esta assunção, ser morto
quando tanto é o desejo de viver na realidade
dos dias que passam como se houvesse tempo
para tudo, até para se renascer em cada morte.
Morro-te pois, Pessoa, literalmente, na pessoa
literária que nunca me deixaram ser, a cultura
pátria demasiadamente ensimesmada na razão
medíocre da cegueira, da veraz incapacidade
para aceitar viva a leitura de quem vive e fala
e no que diz afirma uma presença, de alguém:
um homem, um cidadão, enfim, uma pessoa.
De mortos é que se alimenta o país, daqueles
que não poderão levantar a voz, prisioneiros
do que escreveram noutros contextos da vida
ou da história, e daqueles que ainda escrevem,
refiro-me sobretudo aos que fingem uma arte
na premência totalizadora como configuram
politicamente o mundo ou a sociedade coeva
para que mais ninguém, um ser humano vivo,
possa surdir no meio do meio dito intelectual,
quando de cadáveres de ideias e de conceitos
é que sobrevivem os mortos-vivos fragilmente
estabelecidos. Morro, como tu aos quarenta
e sete anos, e para todos os efeitos da carreira
literária que não tive. Falarem do que escrevo
ou lerem-me definitivamente será agora sempre
postumamente. Estranho destino o dos homens
que não aceitam a profissão, seja ela qual for,
mesmo se de poeta ou de literato, neste pobre
país entregue ao poder e às influências escurris
dos que nunca ousarão viver depois de mortos,
como aconteceu contigo e espero que aconteça
comigo. Se acontecer, pela primeira vez (penso
agora eu, que nada sei!) na história do ocidente
alguém viverá duplamente, como morto que é,
como vivo que continuará a ser, numa duplici-
dade contemporânea da sua desdobrada idade.
Um fenómeno inaudito, amigo Pessoa, amigo
Silva Carvalho, apetece agora dizer, ignorando
quem sou do
que ou de quem sou, se não sou
apenas esta «voz» glotorando (ir ao dicionário,
ir ao dicionário, ó preguiçosos!), neste preciso
momento, este texto nemésico como inóspita
provocação para os mortos que não deixaram
eclodir a voz, o grito, tantas vezes os gemidos
de quem sofreu uma existência sem verdadeira-
mente existir, sem possibilidade de confirmação.
Confirmo pois, caro Pessoa, estupidamente, é
certo, pateticamente, sem dúvida, a existência
que foi tua na minha, agora e aqui: é um facto
que viveste e foste vivo, como eu vivi e vivo
e viverei, não para sempre – mas quem precisa
disso, senão os sempre mortos? -, mas dentro
de mim onde estou vivo na morte que foi tua!

08-02-1995



Silva Carvalho nasceu a 8 de Fevereiro de 1948 em Vila do Conde. Frequentou dois anos de Medicina na Universidade de Coimbra, antes de se exilar em Paris, França, em 1969. Regressa a Portugal em 1975, onde se licencia em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1980. Professor do ensino secundário, Leitor na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, E.U.A. (1985-89), na Universidade de Goa, Índia (1990-91) e na Universidade de Massachusetts, Dartmouth, E.U.A. (1997-2001). Lecciona actualmente em Sintra. É autor de várias obras, das quais a primeira a ser publicada foi Suor do Tédio, em 1969. »

2 Comments:

At 10:36 da tarde, Anonymous João Urbano said...

Pois é, o Henrique só por este gesto merecia, merecia não sei o quê, merecia algo da mercearia, algo como uma garrafa de espumante e um olé. Ainda ontem ao pegar no suplemento do DN e verificar com que livro de poesia o grande critico Pedro Mexia gastou o seu tempo, lá o vemos repegar num estafado refrão ou na lenga lenga do costume da nossa poesia, vá lá não contemporizou demais com o Eugénio (de andrade). Pois é, daqui a uns anos não restará nem um pequeno fragmento do grande Eugénio. E como ele tantos outros ditos grandes. É curioso reparar que Vila Matas não fala nunca destes desaparecidos, os seus desaparecidos são intenções, projectos de desaparecimento dos que mesmo assim não conseguem desaparecer e criam marcas eternas (um eterno sempre provisório), uma espécie de esquematismo Kanteano(noutra altura explico). E tudo isto por causa de Silva Carvalho, um dos nossos escritores mais poderosos, e que o sempre atento Mexia não vê. E quado digo Mexia poderia dizer qualquer outro. Silva Carvalho não existe, não é lido. Ele que foi muito mais longe que a poesia de setenta e que o mais recente novo realismo, ultrapassara-os antes mesmo deles terem chegado. Fico desconcertado e não consigo entender esta ostracisação da escrita de António Silva Carvalho. Por um lado percebe-se. Todos aqueles que foram moldados pelo tardo-romantismo que dominou a poesia portuguesa ao longo do seculo XX, que nos entulhou de Eugénios, de Herbertos, de Ramos Rosa, toda essa sacralização da poesia, só podia dar maus resultados. Mas o Mexia no seu gosto requintado continua a preferir esses maus resultados. Bem, seria uma longa conversa.
Na próxima Revista Nada, a NADA 9, a sair no fim deste mês de Março, vem um artigo do Silva Carvalo sobre o seu Poreticismo que me parece incontornável para qualquer debate daqui para a frente sobre poesia. Mas como sempre será ignorado. Não existirá. E claro, mesmo o mundo livre dos blogues raramente consegue subverter o sistema literário, antes não passa de uma caixa de ressonância do mesmo. Os Pitas e quejandos titubeiam. Não discernem. Em termos de literatura estão mortos. Poderia dizer o mesmo em relação a um Barrento, e refiro-me aos melhores. Um Barrento vive na europa central que acaba com o advento do Fascismo. É esse o seu éden literário, e não discerne mais, e vive dessa perda. Poderia ir ter com uma Silvina Rodrigues Lopes que vive a literatura quase como uma litúrgia. É interessante reparar que os Blanchoteanos tornam-se sacerdotes de uma nova religião. Poderia continuar. E o enorme Joaquim Manuel Magalhães, o dito pai do novo realismo. A poesia para Magalhães sempre foi de parto difícil, mas não é isso, o seu realismo nada tem de urbano, aliás a sua poesia fez-se em grande parte contra a cidade, a deplorar a cidade, a anatemizá-la, restando o amor e a natureza, estas sim balsâmicas. Estou a simpleficar é claro. O que quero dizer é que tanto a nossa chusma de criticos literários como de criadores literários é em geral uma anedota.
Isto vai assim sem correcção.

 
At 11:29 da tarde, Blogger hmbf said...

Gosto de escritos escritos de um jorro. Para breve, post sobre o livro.

 

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