30.6.08

A EXPLICAÇÃO DOS PÁSSAROS #2

O José Miguel Silva coloca mais algumas questões pertinentes sobre a fotografia do casal Adolf Hitler e Eva Braun:

Primeiro, parece-me de um lirismo absurdo concluir, a partir daquela fotografia que Hitler "também amava". Se ele amava ou não, nenhuma fotografia do mundo no-lo poderia revelar, pois não há nada mais fácil, em fotografia, do que encenar sentimentos. Há fotografias que provam acontecimentos (desde que acreditemos que não foram manipuladas), mas dificilmente uma fotografia serve para provar a existência de um sentimento.
Em segundo lugar, mesmo que a fotografia provasse que Hitler também amava, que importância tem "o amor" em quem, directa ou indirectamente, foi responsável pela morte de uns 50 milhões de pessoas? Será que o seu "amor" por uma ou por dez pessoas redime o seu ódio por 98 % da humanidade? Se a fotografia provasse que Hitler também etc., provaria o quê? Que afinal Hitler era um bom homem que, enfim, também tinha os seus defeitos? Que Hitler era um ser monstruoso mas não a 100%? Bom, acredito que as suas vítimas morreriam muito mais descansadas se tivessem sabido que afinal o verdugo era um bom marido... A verdade é que esta foto é um atentado e um insulto à memória dos milhões de vítimas do nazismo, e não há álibi retórico que o passa negar.
Por fim, não deixa de ser também algo chocante o facto de a fotografia do casal de pombinhos exterminadores aparecer numa série de amorosos no terreno das artes. Eu sei que os artistas não são necessariamente anjinhos, mas também não é preciso exagerar. A não ser que consideremos que o Hitler era também, à sua maneira, um artista...
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7 Comments:

At 1:49 da tarde, Anonymous sara monteiro said...

E que tem este texto de novo?

 
At 2:15 da tarde, Anonymous sara monteiro said...

Que Hitler fosse capaz de amar (imaginando que fosse, que é o que esta fotografia quer mostrar) só torna tudo mais triste para as suas vítimas.

 
At 2:21 da tarde, Anonymous sara monteiro said...

Mas é por isso que aquela é uma boa fotografia.
Que os assassinos fiquem bem nas fotografias (às vezes melhor que os outros) é o que incomoda.
Mas que incomode ao ponto de as fazer desaparecer é que me parece lirismo exacerbado. E não amar alguém, que é um sentimento vulgar. Muito publicitado, mas vulgar ainda assim.

 
At 3:29 da tarde, Blogger etanol said...

JMS: estás a levar questões muito pretinentes, vou tentar escrever algo sobre estes assuntos.
Maria João

 
At 10:18 da tarde, Blogger maria pragana said...

O que eu vejo na foto de Hitler e Eva Braun, não é que Hitler também amava (isso é impossível de saber) mas que é possível que Hitler também amasse.
Mas, quer ele amasse, quer não, o que importa é perceber a pessoa em todas as sua dimensões (repito). Nada na vida é a preto e branco.
Hitler, que comandou tantas atrocidades (que foram levadas a cabo, com reqintes de malvadez, por muitos mais para além dele, diga-se de passagem), era... um ser humano. Não era um alienígena, era um de nós, Porque cada ser humano tem em si a capacidade em potência de fazer coisas sublimes e atrozes, porque personas planas só existem nas novelas de má qualidade e todos nós (sublinho, todo e qualquer de nós) temos um historial de actos que vão desde o negro (mais ou menos carregado) ao branco (mais ou menos imaculado).
Olhar a foto de Hitler e Eva Braun interessa-me, não pela hipótese de ele ter ou não amado, mas por lembrar que podia ter sido qualquer outro a estar no lugar dele.

 
At 10:21 da tarde, Blogger maria pragana said...

P.S. A importância de ter em conta o que acima digo reside, não no facto de redimir ou minimizar os actos do Fuhrer (coisa impossível), mas no lembrar que de hoje para amanhã pode acontecer outra vez com qualquer outro.

 
At 4:26 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Por falta de tempo, tenho vindo pouco aqui. Mas, tenho visto, rapidamente, algumas fotos de pares célebres aqui postadas.
A minha dúvida é se a amostragem engloba só o convencional par
amoroso.Suponho que não, pois já lá tenho visto parelhas muito heterodoxas, a vários níveis.

Parece que a "evocação" é mais abrangente e dá ao olhar do visitante a possibilidade de aderir, repelir ou descodificar possíveis encenações e contextos.

E agora pergunto: um assassino e a sua vítima, não acabam por ser "um par"?Com um fim negro, certamente, mas permanecerão, numa geografia temporal, indissoluvelmente ligados A literatura está cheia desses "pares": Otelo e Desdémona, Carmen e D. José, Salomé e João Baptista..E desdémonas portuguesas assassinadas pelos seus otelos,são todos os anos umas dezenas. Decerto tiraram fotos românticas, no início.
Logo o meu ponto é:pode a morte, o genocídio, a monstruosidade, mesmo, abolir a existência verídica e histórica de uma associação dual - seja lá o 2"ingrediente" emocional o que for...

"Macbeth", traduzido pelo nosso j. m.s., deve ter algumas respostas, sobre a natureza humana, embora, no tempo do W. S., ainda não se tivesse descoberto a máquina fotográfica.

 

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