20.12.08

Assalto ao Tesouro de Madame MM

Entrar em casa da Madame ostentando uma mentira ao peito em lugar dum broche e, dia após dia, discretamente, roubar-lhe pedaços dos bens que são parte do seu tesouro sem ela dar conta, até ao dia em que foi alertada para o sucedido. MM está permanentemente mudando os objectos de lugar como um deus controlando as marionetas. Os bibelôs chegam a habitar dois ou três lugares durante um dia, deteriorando-se entre raios de luz e pós. Neste lugar, tudo corre permanentemente atrás da velocidade da luz, como se um medo de as sombras se apagarem crescesse entre os olhares das quatro gatas – três para ser preciso – amparando o choque da Madame ao saber pela veterinária que afinal a Ginga tinha testículos, logo era um Gingo, mas não. A bicha ficou Aicha Ginga.

Nenhum cenário foi montado e nenhum objecto foi ajeitado por mim, excepto a polaroid 35. Entrar em casa, olhar e gamar instantes de vida curta. Se hoje voltasse a assaltar o tesouro já não conseguiria repetir a imensa maioria das polaroids sacadas.

A Madame é como se fosse uma bateria com duas mamas que se carrega com os raios de luz que lhe banham todos os dias a varanda de sua casa, que é um dos três melhores miradouros sobre Lisboa que conheço.

A MM tem um coração grande mas, penso que ela acha não o ser suficientemente. Então – como se aplicasse acrescentos à bondade – vai adquirindo milhentos coraçõezinhos em metal, esponja, em vidro, madeiras ou pedras, espalhando-os por toda a casa. Dentro do seu coração habita uma ilha de luz onde se pode avistar a sua menina brincando nas areias cristalinas duma praia sem fim.

Um dia tudo irá desaparecer. A Madame, a filha, as gatas, os objectos, a casa, as polaroids e o larápio vulto que as roubou. Por ora: três agradecimentos finais. À Madame MM por fazer flash comigo no desejo louco de até querermos amar a solidão. Ao Henrique Fialho, por mais uma vez dar-me abrigo nesta casa desde 12 de Setembro até hoje. Por último, a todos os que se deram ao trabalho de expressarem opinião sobre as polaroids ao longo dos meses.

A imagem seguinte é a última. Senhoras e senhores... eis, Madame MM.


Jorge Aguiar Oliveira

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