22.2.09

CHINA DOLL

à Daniela

Eu ia na passadeira com um propósito mas

a gravata de um homem atirou-me para o coração
do abismo. Uma insuspeitada gravata de seda
com pintas discretas, o catalizador

da vertigem. Aquilo que o vento levanta
na avenida era uma espécie
de música, um barulho de sinos remoto

e descompassado, viam-se algumas flores
a entrar na boca do esgoto comos e fosse ali
a casa delas. E sem deixar eco qualquer coisa ruía

nas fachadas, o próprio oxigénio era nesse instante
como uma língua estrangeira. Eu sentia na garganta os tambores
do sangue e os prédios enfadonhos pulsavam
na taquicardia, caíam em desamparo

para a cova do meu peito. Do outro lado da rua
um sinal de trânsito foi a minha âncora.



Foto respigada aqui.

Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Macedo de Cavaleiros. Licenciado em História e Arqueologia, publicou em 1985 um livro intitulado Qualquer Coisa Estranha. Dez anos depois, começa a afirmar-se como poeta. Publica Geografia das Estações e A Super-Realidade. Seguem-se alguns dos mais bem recebidos livros da poesia portuguesa contemporânea: Música antológica & onze cidades, de onde copiámos o poema aqui reproduzido, Praças e Quintais, Longe da Aldeia, Capitais da Solidão. Está representado em várias antologias e colaborou com revistas tais como a Telhados de Vidro, a Relâmpago ou a Periférica. É autor de variadíssimas traduções.

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