12.10.05

SABEDORIA

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança…
E venha a morte quando Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar…
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio
José Régio nasceu e morreu em Vila do Conde, respectivamente em 1901 e em 1969. Formou-se em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra, tendo sido, longo tempo, professor no Liceu de Portalegre, onde existe uma Casa-Museu com o seu nome, patenteando um sem-número de Antiguidades que, como Junqueiro, o poeta foi adquirindo durante a vida. Igualmente, a sua Casa de Vila do Conde é hoje museu, recheado de belas peças de antiquário. Contista, romancista, dramaturgo, ensaísta e poeta, é, talvez, esta a sua actividade literária que mais o distingue e impõe. Director, fundador e principal animador da revista coimbrã Presença, que foi o porta-voz do nosso segundo Modernismo e teve o condão de reunir, nas suas páginas, os melhores escritores portugueses da época, ainda que de gerações diferentes. A sua poesia, altamente dramática, tem como tema obsessivo a luta carne-espírito que o poeta sabe exibir com beleza e vigor. As obras poéticas mais importantes são: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1936), Fado (1941), Mas Deus é Grande (1945) e Música Ligeira (1970).

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