16.12.05

4 x 4 = 0

Por namorado dos impulsos
que os nervos tensos consentiam,
foi-se a reserva dos soluços,
foi-se o motivo de alegria.

Só o café com seu negrume
sugere ardente luta obscura:
o traço obsceno sobre o muro
e a aristocrática voluta.

Passeiam passos e chapéus
com seu odor a vida velha
e o poema (cão inquieto)
lá foge à trela de uma estrela.

Quanto às palavras evocadas
para união pura e secreta
resignaram-se abstractas
a não ser mais do que etc.

 António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo em 1923. Poeta, dramaturgo e encenador, foi director artístico do Teatro do Gerifalto. Foi, com David Mourão-Ferreira, um dos directores da revista Távola Redonda, nela tendo surgido vários dos seus poemas. Esteve ainda ligado a diversas publicações de literatura e cultura surgidas nos anos 50, com destaque para a Graal (1956-1957, que dirigiu também), a Colóquio-Letras, O Diabo e O Tempo e o Modo. Na obra de António Manuel Couto Viana confluem várias tendências, desde o presencismo a correntes alternativas como o surrealismo, ou o existencialismo, numa visão frequentemente irónica e lúdica de si mesmo. Numa fase mais tardia, são ainda de notar influências do pensamento messiânico e sebastianista, num sentimento de declínio do país e da vida actual, em geral. Estreou-se, em 1948, com a obra de poesia O Avestruz Lírico. Com vasta obra publicada, foram-lhe atribuídos os prémios Antero de Quental (1949), nacional de Poesia (1965) e Camilo Pessanha (1993).*

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