31.1.06

Coffee break

Após a difícil, exaustiva
contemplação da paisagem,
descemos ao bar
para um merecido coffee break.

O café é um bom digestivo
para a compacta barrigada de estesias
vividas no tombadilho.
Qualquer coisa de tangível,
literal, a que é bom
agarrar-se um poeta quando em risco
de levitação.

Depois, dispersos pelas poltronas,
imitamos o criado do bar,
servindo uns aos outros
poemas e agudezas similares
em porcelana fina.

No fim, na cumplicidade
de quem tem tão denodadamente
gargarejado o Douro,
cada qual a seu modo e em seu tom,
piscamo-nos os olhos,
achamos que somos os maiores.

Isto é: cada um acha
que ele próprio é o maior –
não desdenhando embora
prestar homenagem à segunda
mas ainda assim grande grandeza
dos demais.

Abençoado Douro, abençoada
alquimia do Douro!

A. M. Pires Cabral

A. M. Pires Cabral nasceu em Chacim (Macedo de Cavaleiros) em 1941. Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, foi professor do Ensino Secundário em Vila Real, animador cultural, co-organizador das Jornadas Camilianas. Publicou até ao momento cerca de três dezenas de títulos de poesia, teatro, romance, conto, ensaio e crítica. Em 1983 ganhou o Prémio literário do Círculo dos Leitores, com o romance Sancirilo. Estreou-se na poesia no ano 1974, com o livro Algures a Nordeste (edição do autor).

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