15.5.06

MULHERES

Desciam da cruz
Como aves de negro.
As asas abertas
Batiam soturnas
Na cinza de névoa
Das sombras nocturnas
E ousavam mistérios
De deuses secretos.

Mulheres ou bonecas.
Crianças ou velhas.
No barro das telhas
A chuva caía.
Caíam as folhas
Doiradas e secas.
Mulheres ou bonecas
Desciam da cruz
Na noite vazia.

Repetem-se os gritos
Represos mil anos.
Ecoam suspiros.
Ninguém sabe o rosto
Aos deuses tiranos:
Formigas, bonecas
De vozes tão roucas
Correndo, sofrendo,
Voando, voando.

Baloiçam-se negras
De véus e de Dores.
Nas asas de aviões
Que cortam as cores
Pregadas na cruz
- Infâncias que foram
De fadas e flores.

Natércia freire

Natércia Freire nasceu em 1920 em Benavente. Editou o seu primeiro livro de poesia, Castelos de Sonho, em 1935. A partir de 1938 começou a participar em várias revistas e jornais, iniciando colaboração com o Diário de Notícias, jornal de que foi coordenadora da página de artes e letras (de 1954 a 1974). A partir de 1974 retirou-se da vida literária nacional, marcando porém presença com alguns artigos de opinião nos jornais O Tempo e O Século. Em 1991 e 1995 editou a sua obra poética completa sob a chancela da Imprensa Nacional/Casa da Moeda. Faleceu em Lisboa, no ano de 2004. »

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