25.8.06

Nunca mais regressaste a casa desde agosto.
O teu lugar à mesa ficou vazio. Eu passei a coleccionar
os nomes de coisas distantes, sentei-me a desenhar
sistemas de coordenadas, soletrei os hemisférios
das palavras, regressei às zonas epidérmicas do toque,
à fome anatómica dos gestos, às regiões endémicas
dos sismos, à solidão unívoca das margens dos rios,
ao silêncio lento das magnólias. Trouxe o domingo
para dentro de casa e guardei-o junto ao parto
em que me deste à luz.

Digo: Os dias são todos de morrer.
Nenhuma das memórias que tenho de ti
sabe negar essa evidência.

José Rui Teixeira

José Rui Teixeira nasceu no Porto em 1974. É licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor do Colégio Luso-Francês, teólogo do Centro Catecumenal da Igreja do Porto e editor da Cosmorama. É membro do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica, onde trabalha na dissertação de doutoramento em Filosofia. Representado em várias revistas e antologias, publicou os seguintes livros de poesia: Vestígios (2000), Quando o verão acabar (2002), Para Morrer (2004), Melopeia (2004), O fogo e outros utensílios da luz (2005), Assim na terra (2005). É autor do weblog Equinócio de Outono.

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