18.11.06

Tabu

Em defesa da boa imagem do Cazaquistão e do bom-nome dos cazaques, os russos proibiram a estreia do filme «Borat» em suas imaculadas terras. «Borat» é a saga levada à cena de uma das personagens do comediante Sacha Baron Cohen. Não gosto de Borat, mas gosto muito menos da censura. Depois da polémica dos cartoons já houve a polémica em torno do cancelamento de uma ópera de Mozart. O que para aí não faltará é filmes proibidos, obras amaldiçoadas, risos censurados. Dir-me-ão que estas coisas não têm nada que ver umas com as outras, dir-me-ão que os russos estão no direito de proibirem o que quer que seja. Prefiro interpretar o gesto como sinal de um fenómeno de retrocesso cada vez mais patente no mundo. Chamo a esse fenómeno o preço da liberdade, ou seja, quando a liberdade é exercitada nos seus limites, seja em que circunstância for, o preço a pagar por isso é a censura – seja esta mais ou menos subtil, mais ou menos legitimada pelo regime político que a executa. A liberdade não devia ter outro preço que não fosse o da responsabilidade. Porém, quer no mundo dito incivilizado quer no outro, dito civilizado, essa responsabilidade é suprida de múltiplas formas. Censura-se proibindo, ostracizando, silenciando, marginalizando, etc. Borat é só mais um exemplo de que o riso ainda assusta muita gente. Tal como o terrorismo, o riso ainda mantém a sua carga sinistra e diabólica. Se o lugar das vanguardas for de facto o lugar do terrorismo, então ele será também, numa das suas instâncias, o lugar do riso na sua dimensão mais profanadora.

1 Comments:

At 10:17 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Como precisão, direi que o mecanismo da censura na Rússia é ainda mais grave, já que viola a lei: na Rússia, a lei não proíbe a exibição deste género de filmes. Assim, pode dizer-se que o filme não foi proibido, mas, depois da «recomendação» das instâncias políticas, os distribuidores recusam-se a exibi-lo. Dizem-me da Rússia que isto é também uma boa publicidade e um bom negócio. Xenófobos como são, os russos vão comprar as cópias em dvd como quem compra pãezinhos quentes.
fguerra

 

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