17.2.07

Perguntar Ofende? #5

No post anterior foi abordada a problemática colocada pelo caso Richard Mutt, e o aparecimento do ready-made – objectos que o gesto de escolher de um artista converte em obras de arte; os ready-made colocaram diversas questões no campo dos objectos artísticos e neste post vou abordar uma que me parece central: como distinguir os objectos reais que não são obras de arte das obras de arte que são ou usam objectos reais?
O crítico de arte americano Artur Danto tentou responder a esta pergunta em 1964, no seu texto “The art world” (in J. Margolis org, “Philosophy looks at the arts: comtemporary readings in aesthetics”, Temple University Press, Philadelphia 1978, p-154-167), defendendo que são as teorias de arte que geram o mundo da arte e possibilitam a identificação dos objectos como obras de arte, assim como a percepção dos estilos artísticos. O autor utilizou o conceito “mundo da arte” no âmbito dos objectos artísticos, referindo-se às teorias que os explicam, descontextualizando-o assim da gíria ou linguagem corrente. O problema da semelhança entre os objectos artísticos e os objectos não artísticos colocou-se em termos históricos a partir dos ready-made de Duchamp e das assemblages de Schwitters; a problemática foi desenvolvida posteriormente pelos surrealistas, tornando-se a apropriação de objectos reais no contexto artístico uma prática comum na pop art. Deste modo, segundo o autor, pode-se ver o ready-made de Duchamp como o início de uma nova matriz estilística, onde o uso de objectos reais nas obras de arte funciona como propriedade comum. Para Artur Danto, as teorias de arte permitem a identificação dos objectos artísticos, mesmo quando são aparentemente iguais aos objectos reais. A separação torna-se possível através do “é” da identificação artística, que só existe quando o sujeito possui cultura para o utilizar. Assim, o “é” da identificação artística estabelece a relação entre as propriedades visíveis dos objectos artísticos e as propriedades artísticas não visíveis nestes objectos, esclarecendo as confusões; com este argumento, Danto estava a defender a sua posição enquanto teórico e crítico de arte, sobrevalorizando a importância da teoria na compreensão das obras; de facto, em termos práticos, a teoria de arte tornou-se essencial a partir do séc. XX na apreensão das artes plásticas, porque nas produções artísticas modernas e contemporâneas, nem tudo nos é oferecido de imediato ao olhar, grande parte das obras necessitam de um discurso que as acompanhe, funcionando como uma espécie de ritual iniciático às propriedades não visíveis dos objectos, permitindo assim uma fruição cognitiva. Danto tem uma posição elitista relativamente à arte dos nossos tempos, por mais irritante e enervante que ela seja, trata-se de um facto real, a teoria é uma condição necessária para a fruição e compreensão do que vemos nas artes plásticas. Relativamente à questão do “é” da identificação artística, o autor dá-nos vários exemplos de como se processa o seu funcionamento, dos quais o mais curioso vos apresento aqui: como distinguir duas pinturas abstractas, visualmente indiscerníveis, mas com conteúdos diferentes expostos pelos seus autores? Alguém que não tenha cultura artística não consegue distinguir as suas diferenças, porque não tem em conta a intenção dos artistas e só vê as pinturas materialmente, porque não possui o tal “é” da identificação artística; mais, Danto acrescenta um terceiro exemplo, um quadro aparentemente igual aos anteriores, só que intitulada nº7, em que o seu autor insiste que ali apenas se encontra tinta sobre tela e não se deve fazer outra leitura. Qual a diferença entre a visão deste terceiro artista e a de alguém desprevenido que apenas vê o quadro materialmente? Danto defende que o terceiro artista teve um percurso que passou pelas teorias de arte e história de arte, atingindo a abstracção por um processo de depuramento, que o levou a regressar ao carácter físico da pintura. O pintor possui o é da identificação artística, enquanto que alguém desprevenido que não tenha este facto em conta, não possui o “é” da identificação artística. Com estes argumentos, Danto valoriza a intenção dos artistas como componente importante na teoria de arte e para a existência da arte. Mas, será que é a intenção do artista que faz a obra? Será que é a teoria e o discurso que a tornam possível? E este “é” da identificação, não nos poderá vender gato por lebre muitas vezes? Talvez, porque se pode criar sempre um discurso lógico e defendê-lo com convicção, basta saber o mínimo de retórica para isso. Bom, antes de estar a duvidar do Artur Danto, vou voltar à questão central deste post, que o autor colocou com outro exemplo: Andy Warhol, artista pop, expõe fac-símiles de caixa de cera Brillo pintadas sobre madeira, enquanto as originais são sobre cartão. Porque motivo os fabricantes de cera Brillo não podem produzir arte e porque motivo Warhol não pode deixar de fazer obras de arte? O que faz a diferença não é o facto de serem pintadas à mão, mas sim a teoria de arte. A teoria vê as caixas de Warhol sem estarem separadas da galeria onde são expostas, por isso elas são diferentes das que estão expostas no supermercado. Assim sendo, a teoria de arte faz a distinção entre os objectos reais e os objectos reais artísticos, porque tem em conta o contexto onde eles se inserem; e o “é” da identificação artística estabelece a fronteira entre realidade e ficção, ou seja, se o objecto é artístico ou não artístico. Será que é mesmo assim? Será que tudo pode ser arte, hoje em dia, a partir do momento em que alguém com cultura artística assim o afirma? Não será isto tudo um mero exercício de retórica?
Maria João

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