2.3.07

Cinema inferno

Quando era pequeno sonhava vir a ser o Tarzan. Observava, a preto e branco, as aventuras do homem da selva e imaginava-me, a cores, a saltar de árvore em árvore, a dominar os animais, a mergulhar de penhascos altíssimos. Na terra onde nasci não havia cinema. Falso. Havia um cinema mas eu não o frequentava. Apenas comecei a frequentá-lo quando ele já só era ruínas, num tempo em que, nos meus desejos de criança, o Tarzan fora substituído pelo Indiana Jones. Com o tempo, o espaço de projecção das fantasias infantis foi diminuindo. As telas de cinema deram lugar aos ecrãs de televisão, ficou tudo muito mais pequeno, muito mais raso, muito menos espantoso. Deve haver uma relação qualquer entre a dimensão desse espaço de projecção dos sonhos e o grau de desejo inerente aos sonhos eles mesmos. Interrogo-me como serão os sonhos de uma geração que agora se habitua a ver o mundo pelo monitor exíguo de um telemóvel, de um iPod ou de uma qualquer outra tecnologia do género. Sempre acreditei que viver a olhar a vastidão do deserto ou a incomensurável força do mar é completamente diferente de passar a vida nos corredores exíguos das grandes cidades. Sempre acreditei que isso faz parte da diferença entre os povos, as culturas, os homens. A relação que temos com o espaço deve influenciar-nos de alguma maneira. Espaços amplos, grandes ideais. Será? Da mesma forma, o enquadramento do mundo em espaços diversos, seja ele real ou ficcional, como que também deve enformar o mundo de maneira diferente. Estreitar os sonhos à dimensão de um monitor de telemóvel talvez não estreite a capacidade de sonhar, mas duvido que, de algum modo, não cerceie os sonhos que vamos tendo.

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