4.5.07

BRASIL


Fosse eu pintor ou músico
(Pobre de sons, embora! Pálido de cor, que importa!)
Sempre haveria alguém que me entendesse
Em qualquer canto incógnito do Mundo.
Sempre haveria alguém que me dissesse:
- Músico, vem! Entra, pintor! – e abrir-me-ia a porta.

Mas da palavra eu fiz a minha ferramenta.
Sim, da palavra, como os loucos.
E quanto sinto e penso unicamente o digo em português,
Quase em silêncio, porque somos poucos,
Quase em família. E só por uma vez.

Brasil, que bom saber
Que tu também, se por acaso, entre o rumor do mar,
A minha voz escutas, poderás dizer:
- Compreendi-te, irmão. Torna a falar.

Cabral do Nascimento

Cabral do Nascimento nasceu no Funchal a 22 de Março de 1897. Concluiu, em 1922, o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Fundou a revista Ícaro (1919) com Américo Cortês Pinto, Alfredo Brochado e Luís Vieira de Castro. Traduziu para português autores importantes da literatura inglesa, norte-americana e francesa, tais como George Eliot, H. G. Wells, Henry James e Pearl S. Buck. Poeta, editor, colaborador de importantes jornais e revistas da sua época, foi também professor. Estreou-se em 1916 com As Três Princesas Mortas num Palácio em Ruínas, livro elogiado por Fernando Pessoa na revista Exílio. Em 1943 obteve o prémio Antero de Quental. Fixou residência em Lisboa em 1937, tendo aí falecido a 2 de Março de 1978.

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