14.4.08

MC MAD

Vivo em Caldas da Rainha desde 2000. Antes de vir para cá, vivi 8 anos em Lisboa. E antes de viver em Lisboa, vivi em Rio Maior. Ainda gostava de viver uns tempos no Porto, numa cidade estrangeira qualquer e tenho por objectivo acabar os meus dias no interior alentejano. Praticamente cumpridos 8 anos em Caldas da Rainha, tantos quantos os vividos em Lisboa, penso na minha relação com este lugar. Vim para aqui por razões logísticas: casa barata, localização entre a fuga e o precipício, perto de ombros amigos, ideal para o sossego das crias, entre outras vantagens que não apetece enumerar. O pior é a humidade, sempre a malvada humidade. Ainda assim, gosto do meu bairro. Vivo num apartamento com vista para o Bairro dos Ciganos. Há uma velha que passa o tempo todo à janela, provavelmente a ver-me olhar para ela. A Quitéria, nome artístico de minha responsabilidade, é uma musa inspiradora inigualável. Ainda ontem arreganhou a desdentadura a um Pit Bull que o animal ganiu que parecia um Caniche. Também há raças perigosas aqui no bairro, sendo a mais ameaçadora de todas, sem dúvida, a Quitéria. Os putos labregos gozam com ela, devem julgá-la parva, doida, desventurada. Mal sabem a sabedoria que anda naqueles sapatos rotos, naquele avental emporcalhado, naquele lenço esfranjado. Enquanto passa, provocam-na com piropos ajavardados. Os ciganos riem-se das provocações. À volta da fogueira, ateada de tempos a tempos, tocam as guitarras e cantam. Às vezes abrem as portas das carrinhas e dançam ao som da música roufenha das cassetes pirata. Logo ali ao lado, os putos enrolam charros enquanto jogam à bola, vestem-se como as estrelas do rap, de pechisbeque no lugar do ouro e plástico a fazer de diamante. As raparigas andam quase sempre em grupo, aproximam-se dos rapazes, muito roliças, partilham os charros e depois partem de mão dada para outras aventuras. Vejo ainda, da varanda da minha casa, alguns sinais de modernidade: moinhos eólicos, gruas, prédios em construção, carros em circulação apressada, contentores abertos, um ecoponto praticamente inutilizado. Quando tenho saudades da agitação turística, o que é raro, faço um passeio até Óbidos ou vou à Nazaré. Mas isso acontece muito raramente. Prefiro ficar-me pelo parque a mirar os artistas da cidade, espreitar as bancas na feira das velharias, comprar pão caseiro e vegetais frescos no mercado da fruta, três carapaus para assar na brasa. Também vou, com alguma frequência, à Foz do Arelho. Bebo um café da avó e como uma filhós nos dias invernosos. Se estiver bom tempo, bebo umas imperiais numa esplanada com vista para a lagoa e, não me pesem muito as pernas, sigo até à beira-mar. Depois sento-me a olhar o horizonte e penso na vida. Penso no que são os meus dias de há 8 anos a esta parte, penso no que poderiam ter sido, penso no que jamais serão, penso no que poderão vir a ser. Penso. E fecho-me a pensar nestas coisas. A questão é esta: tenho um trabalho de merda que me permite pagar as contas, a água, o gás, a luz, as telecomunicações, a gasolina, as despesas de manutenção do carro, os serviços municipalizados, o seguro, tenho a segurança social à perna, mais um ou outro problema a moer-me o juízo, tenho preocupações várias com o cumprimento de certas e determinadas obrigações. Tenho todas essas chatices, mas, apesar de tudo, não me posso queixar. Podia estar pior, podia estar melhor. Estou. E estou aqui, agora, a partilhar tudo isto porque lá fora o sol espreita, a velha continua a mirar o vazio e eu continuo a mirar a velha.

13 Comments:

At 1:35 da tarde, Anonymous sara monteiro said...

Boa! É assim mesmo: enquanto miramos os outros e somos mirados é como se nos víssemos num imenso espelho caleidoscópico.
Tanta coisa para olhar! E de graça!
Também tenho a Segurança Social à perna e não sei o que lhe fazer, para mim é apenas um quebra-cabeças sem solução.
Mas olhar - é como dizem - não paga imposto. Olhemos, então!

 
At 2:25 da tarde, Blogger jaz.mim_tu... aqui. said...

e eu, mirone assumida, agradeço os seus mirares, ou miranços...

impossivel ler o seu texto sem viajar...

e sorrir também!


[adorável#nãoseiquantos]

 
At 2:28 da tarde, Blogger Mario said...

Até me pareceu ouvir o Adolfo L. Canibal a fazer deste texto uma música dos Mão Morta!

 
At 2:54 da tarde, Blogger Mário Lisboa Duarte said...

Como se a Quitéria fosse a vidraça baça na qual projectamos o hálito e regressamos ao hábito.

Um abraço

MLD

 
At 4:28 da tarde, Blogger hmbf said...

Sara, vamos fazer uma revolução?

jaz.mim_tu...aqui., boa viagem. Que nome!!! :)

Mário, gosto muito dos Mão Morta.

Mário Liboa Duarte, e com o dedo indicador a desenhar bonecos no vidro.

 
At 5:27 da tarde, Blogger etanol said...

Pois, o interior alentejano é bom para morrer! Eu já tinha saudades de ouvir falar na qitéria, sou fã dela!
Maria João

 
At 3:51 da tarde, Anonymous Anónimo said...

A Quitéria nem sonha... ;)

São

 
At 7:39 da tarde, Blogger José Eduardo Lopes said...

1ª crónica de "Quitéria e Outras Observações"? :)(http://antologiadoesquecimento-leituras.blogspot.com/2008/03/20-poemas-anton-webern.html)

 
At 12:33 da tarde, Blogger morfose said...

Como eu gostei deste post.
Também eu vivo em Caldas da Rainha, também eu "vim para aqui por razões logísticas: casa barata, localização entre a fuga e o precipício, perto de ombros amigos, ideal para o sossego das crias, entre outras vantagens que não apetece enumerar."
Também eu vivi em Lisboa 6 anos e 20 e tal em Londres. E agora estou aqui.
E também eu vou até à Foz do Arelho e penso na vida, a olhar para o mar.

 
At 1:07 da tarde, Blogger hmbf said...

Morfose: tu és um outro, como o Sá-Carneiro. :)

José Eduardo: a Quitéria & Outras Observações há muito vive nas «Estórias...»
(OVNI, 2006)

São: estou convencido de que sonha. Só que, quando sonha, pensa que é a realidade; e, quando é real, pensa que está a sonhar.

Etanol: quando for para lá morrer, levo-te comigo.

 
At 1:18 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Reconhecendo que embora algo atrasada, apetece-me deixar a minha marca. Pois eu estou todos os dias em Caldas da Rainha. Quanta humidade!E vivo em Rio Maior. Não porque goste especialmente de lá, mas porque a cria gosta.E muito!
Tenho um trabalho de que gosto, pago todos os meses um balúrdio de IRS e de ADSE (que privilégio!).
E todos os dias sou confrontada com aqueles que, pagando também, nem por isso gostam muito do que fazem. Mas vão fazendo. Exactamente porque têm as crias para sustentar, as contas da casa e do carro e outras para pagar.E é assim a vida de todos nós.
Trabalhando, não porque se gosta ou no que se gosta, mas porque é preciso.E pagando,sempre pagando...
Tudo se paga. A felicidade de trabalhar no que se gosta, incluída!
Um abraço e (bom) trabalho!
MF

 
At 4:55 da tarde, Blogger morfose said...

Minada de melancolia? Sim, também.

Diz a anónima: trabalhar no que se gosta tb se paga. Se paga!
Tenho o prazer de trabalhar no que gosto e ganho mais ou menos. Não é nenhuma fortuna, vai dando para as despesas, mas tb não se perdia nada se ganhasse um pouco mais.
Mas não se paga só desta forma, não é verdade?

Gosto imenso deste teu blog.
Tornei-me leitora assídua.

 
At 4:59 da tarde, Blogger hmbf said...

Obrigado Morfose. Boa sorte para essa depressão.

 

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