21.5.08

INÉDITOS DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA #48

SOPRO DE LUZ MORIBUNDA



Decidindo desligar o coração da corrente
puxou a ficha do sangue para o olhar
não voltar aos mares ou poisar
no parapeito da espera. Tudo ficou
apenas por um curto-circuito.
Uma parte de si apeou-se para sempre
no gesto, onde nunca houvera desespero algum.
Somente a constatação da sua vida ser
um tremoço a que Deus veio um dia tirar
o miolo
ficando casca seca, na berma da descrença.

Também nunca mais a vida fica a mesma
a partir do primeiro beijo
ou do primeiro corpo nu tocado.
Nem se esquecem as frésias depois
de lhes tomarmos o cheiro
ou dormimos em paz
quando uma paixão nos foge.
Como nunca desejamos amar
alguém que traga o nome
do desgosto mais amargo.

Um vinho ou um comprimido ajudam
a esquecer, mas, um novo amor, não.
Nunca. Um desgosto de amor é uma ferida
que mesmo sarando, deixa para sempre
uma cicatriz de disfarce impossível.

Não sabendo o que fazer destes minutos
senão guardar na lata vazia de salsichas,
luas de noites podres
onde o bolor viçoso prende
este enxovalhado olhar.
Se apanho secas de espera
é por ele ser a única razão de andar
por aqui, mesmo sabendo que
os planos de futuro
moram num cata-vento sem norte.

E se sonho vê-lo pegar numa seringa
espetar a agulha no seu coração
colher o sangue do amor
e vir cravá-la,
descarregando o seu no meu sangue

é por não suportar o medo
da nossa vida poder vir a ser
tão curta.


Jorge Aguiar Oliveira

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