9.3.09

ANIMAIS

Depois de reler pela enésima vez O Carnaval dos Animais (Rui Caeiro, Letra Livre), regressei a um breve conjunto de epigramas com que resolvi abrir a antologia do esquecimento. Ainda ontem dizia a uma colega que a nossa condição humana é a mais animal e brutal de todas as condições. Só isso explica que prevaleçamos sobre as outras espécies. Trazemos a selva no sangue, mais ou menos oprimida, mas facilmente transpomos as fronteiras da reserva natural que nos confisca os ímpetos instintivos (sejam eles dóceis ou violentos). No fundo, apenas aprendemos a protegermo-nos de nós próprios. Um bocadinho. No primeiro dos dez epigramas tenho um cão, símbolo de uma fidelidade (a canina) só metaforicamente provável. Todo o cão trai o seu dono se aliciado por um suculento naco de carne. Assim os homens, mais que os cães. A diferença é que os homens são donos de si próprios, mesmo quando, subservientes, oferecem a consciência às ordens dos mestres. Por isso, ao contrário do cão que trai o dono, o homem trai-se sempre a si próprio. Segue-se o gato, evocado na figura fleumática da mais invejável das personagens: Garfield. Julgo que todo o felino se faz notar pela forma como marca o território e por uma admirável libertinagem. A ciência do gato é o sonho, daí a sua inegável tendência surrealista. É um animal paradoxal, pois a sua liberdade colide com a necessidade de marcar territórios. Tal como muitos homens, cuja liberdade não se afirma senão confortavelmente acalentada pelos territórios que vão reivindicando à sua volta. Veja-se Breton, o rei dos gatos. Seguem-se sanguessugas, cavalos, pulgas, sereias, lamas, koalas, lobos e, finalmente, o leão. Não gosto de aves, tenho pavor a penas. O meu leão é nietzscheniano. Sigo os ensinamentos de Zaratustra e tento mergulhar as mãos na juba do leão, procuro ultrapassa-me e não espero do leão senão que se mostre enquanto a criança que nunca deixou de ser. Reconheço estar muito longe de conseguir alguma coisa neste meu reino animal. Sempre que mergulho as mãos em alguma coisa as pulgas encontram-me, mordem-me, fico contaminado de alergias, sou bebido até à medula por sôfregas sanguessugas, deixo-me atrair pelo canto das sereias para acabar coiceado por cavalos com orelhas de burro. Não uivo como os lobos, embora cá dentro muitas vezes se faça ouvir esse idioma intraduzível, uma espécie de lamento índio. Entre os ensinamentos de Zaratustra e a realidade, julgo que estou bem para koala: lento e pouco sério / postiço de vitupério / o koala come folhas // segue-lhe o padrão / em ar de meditação / o poeta saca-rolhas. Enfim:

ANIMAIS

Infindável cortejo: formigas, elefantes, homens, chacais
catatuas, salmonetes… todos filhos de Deus, concebidos
à imagem e semelhança do seu inquietante rosto proteico


Rui Caeiro, in O Carnaval dos Animais, Letra Livre, p. 109.

2 Comments:

At 6:55 da tarde, Blogger manuel a. domingos said...

dizem que a única diferença entre nós e os animais é que nós vamos buscar a carne ao talho (Grisson dixit)

 
At 10:11 da tarde, Blogger hmbf said...

Manuel, acabaste de citar uma das minhas fontes de inspiração. Sem ironia. Sou viciado.

 

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