15.9.05

Desabafo à pressa

A ideia de alargar o ensino do inglês a todos os anos da primária é boa… Mas o que era bom, o que era mesmo bom, bom, era que o ensino do português também fosse alargado. (sic) Ontem, em desabafo com uns camaradas, um dos quais insone, confessava eu algumas das minhas frustrações diárias. Todos os anos, mas mesmo todos, chegam-me turmas de cerca de 20 alunos/formandos às mãos (salvo seja), onde, para ser bonzinho, pelo menos metade não sabe ler nem escrever. Quando digo que não sabem ler nem escrever, é mesmo não saberem ler nem escrever. Nada de hipérboles. O desastre, se disso houver necessidade, pode ser facilmente demonstrado. Já nem me lamento que as criaturas não saibam interpretar um texto, mesmo quando o texto é de interpretação óbvia; nem me lamento que não saibam o significado de conceitos como, só para dar um exemplo, o de «etnia». Isso mesmo, «etnia». Ontem, numa turma de 18, só dois sabiam o significado de «etnia». Quando digo não saber ler nem escrever é, pura e simplesmente, não saber vocalizar palavras, ler com ritmo, estruturar uma frase, por mais simples que a frase seja. Vejam bem: ontem, uma aluna, disse-me que vivíamos numa monarquia. Perguntei-lhe se ela sabia qual a diferença entre uma monarquia e uma república. Respondeu-me que não. Falei-lhe num feriado que celebra a implantação da república no nosso país. Ela, toda feliz da vida, adiantou-se dizendo: «Pois é stôr, não ligue, é o 25 de Abril.» Outra aluna não me conseguiu referir um assunto da actualidade que lhe interessasse discutir. Nem sequer tinha ouvido falar de um furacão nos EUA. Após muito esforço, referiu-me uma tal guerra contra os árabes. Pedi-lhe que me esclarecesse qual era essa guerra a que se referia. Disse-me que era uma que tinha começado depois da queda de umas torres nos EUA, para aí há 60 anos. Isto é a mais pura das verdades. Esta é a mais pura das realidades. Estes miúdos têm todos o ensino obrigatório, trazem no repertório pelo menos 9 anos de escola, quando não 12. Não sabem nada de nada. Todos os anos me espanto com a quantidade de raparigas que me confessa ter por objectivo máximo na vida “arranjar” um bom marido, casar e constituir família. Pouco, muito pouco, mudou no nosso país. As meninas, muitas meninas, continuam a ser educadas para casarem, terem filhos, comerem porrada dos maridos e ficarem de bico calado. Não se iludam, este é, de facto, o retrato de uma grande parte do nosso país. Pôr esta gente toda a falar inglês é uma excelente ideia… Mas bom, mesmo bom, seria que se lhes desse cabo da indiferença, do adormecimento, da dolência com que se vão deixando endrominar no passar dos dias. Bom, mesmo bom, seria que, não sendo possível castrar-lhes a indiferença, pelo menos se pusesse esta gente a ler, escrever e falar com o mínimo de razoabilidade. Sem isso, de nada lhes valerá o tão apregoado thank you very nice.

7 Comments:

At 10:05 da tarde, Blogger José Alexandre Ramos said...

Pois é, sim senhor, é verdade. Mesmo que me espante que com esta globalização da informação, haja quem não saiba que o ataque às torres americanas foi quase no outro dia. Mas acredito que isso seja verdade. Agora, bom mesmo era que houvesse professores que o fossem de facto. Que formação têm os novos professores?? Eu conheço de muito perto uma professora que se está a marimbar para isso tudo, se os alunos aprendem ou não, e o que ela ganha com isso, com o esforço de fazer mais, etc... Tem uma cultura geral deplorável. A ensinar geografia a alunos do secundário... E tenho conhecimento que, entre os seus colegas, há outros tantos assim... Enfim, não sei o que será mesmo bom, já nem sei por onde é que se devia começar, pois a vontade política, para tudo isto e muito mais, é nula...

 
At 12:19 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Acho eu que de vez em quando aparece uma alminha tão cheia de vontade de aprender, que ofusca esses dissabores, pela parte que me toca tb fui criada para satisfazer as "necessidades da família" e tirada da escola no 6º ano (porque o dinheiro escasseava e essas coisas não são tão necessárias como saber cozinhar) isso não me impediu de trabalhar, estudar e tirar um curso superior.
Espantoso aquilo que as pessoas não sabem, espantam-me ainda mais o profundo desinteresse que revelam pelo mundo que os rodeia. Mas nunca desisti.
Aluno que me passe pela mão raramente desiste e se faz, fá-lo muito antes de mim. Não sou optimista, mas espero nunca na minha existência deixar de ser convicta.

A ignorância na infância é muitas vezes chocante, mas a mim faz-me mais confusão a indiferença dos adultos.

MASilva

 
At 12:39 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Henrique, a minha filha comecou o ano passado a vestir-se de forma diferente, chegou aos 13 e apeteceu-lhe ser gotica, punk etc., mas apesar de continuar a ser boa aluna, interessada e com uma cultura muito acima da media, os professores, muito preocupados, chamaram-me.
Outro episodio foi o facto de ela gostar de ler Daniel Sampaio, achavam que nao tinha idade para aquela leitura, e comecou por iniciativa propria pois nem eu nem a mae tinhamos, ate ali, lido nada do Sr..
Portanto voltamos aos professores, parece-me que funcionam um pouco como os macdonalds nao e, normalizados, sem imaginacao e sem sabor.
Os professores de que eu me lembro foram aqueles que me emprestaram discos dos rem, tom waits triffids, smiths e me ensinaram a discutir os problemas muito para alem do estabelecido pelos livros ou pelas normas.
Sera que ainda existem.
Eu gostava muito de ser professor e ensinar assim, mas nao consigo, acho que existem poucos lugares para os hamburgers.

Desculpem os erros, mas este teclado ingles da;me cabo da cabeca.
nelson

 
At 5:52 da manhã, Blogger Darlan M Cunha said...

Prezado Henrique Fialho,
Vi e ouvi, ontem (15/09) na SIC, um professor pedir desculpas aos portugueses por ter votado no PS, como se já não bastassem,aos dicentes, as inúmeras dificuldades inerentes à profissão (nesta postagem intitulada 'Desabafo à pressa', você mesmo coloca algumas delas). O professor em questão, parece-me, gastou cerca de 80 euros, para fazer o anúncio. Colegas dele, aqui no Brasil, suspiram...

 
At 11:03 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Precisamos de aprender inglês para servir os fregueses estrangeiros, no café ali da esquina.

 
At 1:10 da tarde, Blogger Amélia said...

Estou de acordo com o essencial, não só desta entrada (fui professora de Português durante 36 anos e meio)e com a generalidade dos comentários feitos até aqui.
Sabe que já uma vez -há seguramen-
te uns 15 anos, um aluno me perguntou, a respeito de um verso de Camões («o esconder do sol pelos outeiros») se outeiro era uma espécie de animal?E que à pergunta que fazia frequentemente sobre se tinham ideia de quando Portugal se tornara independente só sabiam responder:
«antigamente...»( era verdade, mas se perguntava se antes ou depois do tempo dos avós ou bisavós deles, ficavam embaraçados)
E também não sabiam o que eram reposteiros...só conheciam estores ou cortinados (era importante para o cenário do III acto do Frei Luís de Sousa e a sua relação com a acção do acto)- e olhe que isto foi já há uns 15 a 20 anos, igualmente.
Quanto a professores, bem...parte deles achava que não era obrigado a saber Os Lusíadas porque não os tinham estudado na faculdade...(algins foram meus estagiários)
Mas há ainda professores de qualidade, eu sei disso e conheço vários.Também com frustrações e desencantos - mas perseverantes.
Quanto a leituras, então, entre alunos e professores, não há quem leia livros de qualidade regularmente...

 
At 1:35 da manhã, Anonymous Anónimo said...

estou casada com um muleque não sei se conheço de verdade eu não posso mais confiar nele pq tudo que conto para ele ele conta tudo para irmã dele ele não guarda segredro e hoje fui reclamar sobre isso ele estava jogando um jogo com meu filho ele meaçou de jogar um dos botões em meu rosto eu acho que isso foi muito covarde da parte dele e disse á ele enquanto ele não vim pedir desculp-as sobre isso ele está proibido de converssar comigo.

 

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