20.11.05

Uma Insónia Filosófica

1.
vigília noemática:

alternativas impressionistas
crescem num instante descontínuo
por dentro das mentes
dos seres mais díspares

tentativa de recriar uma posição
ou suposição
relativa à essência de uma flor ou de uma pedra

ervas alastram
e amordaçam pessoas
em hordas de libertação

esvoaçar sobre esses campos psicológicos –
desertos enraizados no vazio da imaginação

máquinas lógicas
por que há-de a pedra ter uma essência?
Por que não deixar a flor florir?

2.
tentam preencher espaços humanos
onde a humanidade não cabe
como que substituindo cérebros
como que ofuscando a imagem primordial: estagnação

na penumbra da criatividade possível
as ideias desmaiam como seres últimos
dos verdadeiros desejos: passividade

homens recordação embalados
em sacos de plástico
que são os devaneios ancestrais
dos futuros recordados: repugnância

fazei-me então um favor –
silenciai vossas intenções
que nos falta a paciência
para um ultraje de moscardo

tautologias –
estagnação passividade repugnância: vómito

3.
o sete transfigura-se:

o futuro é a condição primeira de um passado
por coagular

matar o tempo que não há?

tudo é eterno
no seu modo singular de ser

esconderam os versos da sensibilidade
dos ritmos
ser humano tornou-se vil
porque a humanidade é agora
uma esmola dada à natureza

os insectos cagam
e as moscas sentem-se atraídas
o acto repugna
a forma última de ser reconhecimento

há a memória de um facto fictício
mas embutido no bolso traseiro
do indómito

4.
sobre o que fica por dizer:

desespero-me
num consciente infusível
sufoco
é-me difícil respirar
doentio é o silêncio de um deus omnifaltoso
e asmático

esse criador de todas as coisas
entre as quais uma liberdade por ser
que é a forma de ser humana
atropelando-se na causa
de todo o ódio nauseante

a atrofia invejosa
que a acomodação sublinha

matar o pensamento
é essa a missão dos dias
a vida é o sabor dos que esquecem
até a memória mais não ser
que um mero curvar de testa
Manuel Bento e a sua sombra
no Coliseu de Roma
a comerem bolachas Parmalat

Manuel Bento nasceu numa cidade fantasma no dia 20 de Novembro de 1974. Desapareceu subitamente, alguns dias após a publicação da sua única obra desconhecida: Neoménia seguido de Outros Exorcismos. Os seus primeiros poemas (E quem disse que o que se diz, Elegia do momento) apareceram publicados em Março de 1995 numa Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea que à data da primeira e única edição já tresandava a mofo. Dois anos de silêncio permitiram-lhe apurar o verso transatlântico, de raiz claramente metasurrealista. Neoménia aparece em Setembro de 1997, sem depósito legal, numa editora que nunca exisitu. A abrir, epígrafes de Álvaro de Campos e Marguerite Yourcenar. A fechar, dez poemas em prosa, que o autor intitulou de Outros Exorcismos, mais duas epígrafes: uma de António Maria Lisboa, a outra de Jean Genet. Sabe-se ainda que o espírito de Manuel Bento reencarnou no corpo de Juraan vink que, por sua vez, se desdobrou em múltiplas personalidades de um só acorde.

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