3.4.06

7. [in A Ordem do Mundo]

Em qualquer momento, no começo e no fim,
mesmo na medida de toda a vida – falhos de toda a pena,
permanecemos sem amanhã nem princípio,
esbatidos na idade e na distância, saqueados na sua mentira,
apenas acumulando areia para o fundo de um recreio
a simular um amuleto contra o regresso impossível.
Não temos trégua – não podemos voltar – e afastamo-nos – sem
ruído – lá para onde de longe chamamos, no ar rarefeito
- figuras resumidas a uma branca poeira informe,
em quantas inumeráveis semelhanças com a morte.
Pressentida ruína, a do íntimo declínio disto tudo,
demais cientes na incerteza como o sinal exposto da memória,
resina que nela se abate à frente dos olhos, que
esmaga cada braçada do tempo ao seu embuste
e nos recusa a menor separação do abandono –
que por nada existimos – e só acenamos – acenamos –
senão para crer no que julgamos não ter acontecido,
senão a entender a justa aceitação da nossa vida.

Rui Coias

Rui Coias nasceu em Lisboa no dia 2 de Setembro de 1966. Em 1985, com 19 anos, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se licenciou em 1991. Trabalhou como advogado numa empresa petrolífera espanhola, profissão que abandonou para se dedicar ao estudo de Filosofia. Publicou dois livros de poemas, ambos nas Quasi: A Função do Geógrafo (2000) e A Ordem do Mundo (2005). »

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