11.4.06

Um calo nos olhos, uma ferida no coração*

Na exposição do CCB dedicada à vida e obra de Frida Kahlo, havia pessoas penteando-se enquanto se olhavam reflectidas nos vidros que protegiam alguns dos trabalhos expostos. Deu também para ver um turista tirar macacos do nariz. Enfim...
São mais as fotografias do que as obras, muito mais a ementa e os acepipes que o prato principal. Para aí uma vintena e meia de quadros, repartidos por quatro salas atafulhadas de gente. O pior é que esta gente rima demasiado com frente e indiferente. É gente que se atravessa à frente dos nossos olhos, gente indiferente a quem olha com a pausa possível as parcas obras ali disponíveis de um acervo que também não foi por aí além.
Há qualquer coisa na pintura de Frida Kahlo que me obriga a arrumá-la no caderno dos artistas cuja vida parece interessar-me mais que a obra. Eu fui ao CCB com a intenção de entrar na obra. Saí da exposição sem saber bem onde tinha estado. Se mais na vida, se mais na obra.
O Diário de Frida é projectado numa das paredes. Talvez o sentido desta exposição se possa resumir a este gesto: uma reconstrução fragmentada do diário de Frida. Deste modo, andamos pelas salas como quem se passeia dentro das páginas de um diário. Só não sei é se isso me agrada muito…

*Este título, completamente aparvalhado, surgiu-me depois de ter ouvido alguém comentar que os quadros de Frida Kahlo «sangram por todos os lados».

7 Comments:

At 10:38 da tarde, Blogger Woman Once a Bird said...

Tem piada, o título pareceu-me tudo menos aparvalhado.

 
At 9:00 da manhã, Blogger Exagerada said...

De Frida todo conmueve.
http://infraleve.blogspot.com/2005/11/hagiografa-conmovida-entre-la-devocin.html

 
At 12:49 da tarde, Anonymous hmbf said...

Obrigado pelos comentários.

 
At 3:03 da tarde, Anonymous kaku said...

Eu confesso-me... já me perdi naquela lengalenga do ovo e da galinha. Não me lembro se parei pela primeira vez no quadro ou na vida da Frida K.. Sei que parei... e isso é motivo para voltar a ver os seus quadros. Prometo esticar o pé e fazer tropeçar os penteadores de cabelo e os investigadores de nariz que encontrar!... em tua honra!;)

 
At 5:08 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Se ficaste com um calo nos olhos é muito aborrecido mas se ficaste com uma ferida no coração é porque a Frida te tocou onde tinha que tocar-te.

 
At 10:43 da tarde, Blogger O'sanji said...

Há muito tempo não passava por aqui. Fui correndo os teus posts e revejo-me neste. Também fui ao CCB ver a exposição. De facto, as condições são péssimas. Luz mal dirigida, com os tais vidros a reflectirem a nossa imagem, entre outras coisas que se poderiam apontar.
Por outro lado, se atendermos ao facto de que a obra de Frida está muito dispersa e este conjunto ser o acervo de um museu que irá deixar de emprestar a colecção para que o povo mexicano o possa apreciar, temos de nos sentir privilegiados por lhe termos tido acesso.
Quanto aos "espectadores" deste tipo de mostras "badaladas", são o que devemos esperar. Quando não existe uma educação para a arte, o que se pode exigir?
Um abraço

 
At 1:27 da tarde, Blogger hmbf said...

Kaku: Se fizeres isso por mim, que não farei eu por ti?
anonymous: És capaz de ter razão…
O’Sanji: Obrigado pela visita. Quando não existe uma educação para a arte, acho que podemos exigir, pura e simplesmente, boa educação. O que se resume, por exemplo, a respeitarmos o espaço uns dos outros.

Saúde a todos,

 

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