3.5.06

PEQUENOS POEMAS MENTAIS

Mental: nada, ou quase nada sentimental

I
Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indómitos ódios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.

V
Os poetas cumprimentam-se, delicados.
Cada um com o seu metro, o seu espírito, a sua forma;
as suas credenciais…
Mas são simpáticos os poetas!
Sensíveis, femininos, curiosos.
Envolve-os um mistério.
Não! Esta é a linguagem de toda a gente: o mistério…
Que mistério?
Os poetas são apenas reservados, são apenas…
perturbados e capciosos.

Irene Lisboa

Irene Lisboa nasceu no Casal da Murzinheira, Arruda dos Vinhos, a 25 de Dezembro de 1892. Professora primária, estudou na Suíça, Bélgica, tendo contactado com Piaget, em Genebra, e França, onde se especializou no ensino infantil. Estreou-se em 1926, com o livro de contos, 13 Contarelos a que se seguiram dois livros de poesia: Um Dia e Outro Dia… (1936) e Outono Havias de Vir (1937), ambos sob o pseudónimo João Falco. Colaborou em inúmeros jornais e revistas, tais como Seara Nova, O Diabo, Vértice, O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, etc. Faleceu em Lisboa, na madrugada de 25 de Novembro de 1958.

3 Comments:

At 10:20 da manhã, Anonymous Luís said...

Tenho pena que não seja uma autora mais divulgada.

 
At 12:20 da tarde, Blogger dama said...

Lembra-me uma coisa de uma personagem de Eudora Welty, em The Golden Apples (cito de cor, porque não tenho aqui o texto): "I've seen the world round from my rocking chair"

 
At 1:15 da tarde, Blogger hmbf said...

Muito obrigado pelos comentários. Só para referir que o facto de o poema V vir depois do poema I deve-se a certos caprichos deste que vos escreve. ;-)

 

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