24.7.06

SHAHID

Recupero um post com dois anos: a minha agenda não tem no índice das prioridades qualquer tipo de luta contra a guerra da ganância. Nada posso fazer contra essa guerra. Todos os meus actos, todas as minhas manifestações, serão inconsequentes contra essa guerra. Parto do princípio que todas as guerras, no sentido bélico do termo, são estúpidas, pelo simples facto de procurarem resolver pela força o que os homens não lograram resolver pela razão. Não vislumbro qualquer tipo de motivos, intenções e finalidades que justifiquem moralmente a destruição e o assassínio. Vislumbro apenas a ganância, a inveja, a ânsia de poder. Mas há guerras menos estúpidas que essas. São guerras onde todos podem sentir-se consequentes. Não enchem tantas páginas nos jornais, não inspiram tantos fazedores de opinião, nem conseguem tanta gente nas ruas. No entanto, são bem mais fundamentais que as outras. Muitas vezes, a negligência a que estão sujeitas transforma-as em pretexto para as outras. Refiro-me às guerras contra a fome, contra a pobreza, contra a miséria, contra a ignorância. Alguns colunistas julgam ser imbecil, ingénuo, infantil, pueril ou mesmo lamechas bater na tecla dessas guerras. Mas esses colunistas comem todos os dias, têm casa onde dormir e são pagos para bazofiar os últimos avanços na tecnologia da destruição, a inteligência das armas, a contagem das vítimas, os danos colaterais. São pitagóricos modernos. Para eles tudo é número. Na minha agenda, a prioridade será sempre a guerra da carência e do desamparo. Nunca a guerra da ganância e do poder. Acrescento: se ser a favor da paz é ser pueril, então quero ser pueril; se mostrar uma atitude pacifista é ser ingénuo, então quero ser ingénuo; se não embarcar na frieza das análises racionalistas, de comando na mão e à distância, é ser infantil, então quero ser infantil. Quero guardar para sempre dentro de mim essa infantilidade que outros recusam. Prefiro recusar a maturidade daqueles para quem tudo deve ser visto sob o prisma contabilístico do deve e do haver. Não contem comigo para a festança da morte. Os inteligentes deste mundo que se sirvam da desgraça para exibirem suas teses, que façam livros, vendam muito, que se promovam, que festejem os êxitos, que digam os maiores disparates como se alguém ligasse alguma coisa àquilo que dizem. Não contem comigo para esses bailados. O meu grito é outro. Talvez Meira Asher tenha alguma coisa a dizer sobre o assunto. Perante as imagens que nos entram em casa, a sua música é mel para os nossos ouvidos.

5 Comments:

At 7:29 da tarde, Anonymous amc said...

Brilhante!
Henrique, compreendo o teu grito de revolta.
E digo mais, se de facto és pueril, ingénuo e infantil, continua assim porque essas, porventura, são as qualidades que me fazem visitar diariamente este blogue.
Todavia, eu atrevo-me a substituir aquelas 3 expressões por nobreza de carácter e um coração imenso.
Mesmo que haja diferença de opinião, como neste caso.
Um abraço,
André
PS - este artigo de Amos Oz referido no Sem Estrada dá que pensar.

 
At 7:41 da tarde, Anonymous hmbf said...

Obrigado, amc, pelo comentário, pela simpatia, pela sugestão. De facto, é um artigo que dá que pensar. Neste momento muitos artigos dão que pensar. Mas olha, vou deixar isso para quem os saiba pensar. Se no final da guerra, da acção militar em curso, da coerção, o que lhe queiram chamar, o Hezbollah tiver sido erradicado, então procurarei esquecer, mais uma vez, a incúria dos políticos. Caso contrário, estaremos perante mais um facto histórico que contribuirá apenas para adensar a desesperança em que já vivemos. E agora calo-me. Nem mais uma palavra sobre a guerra.

 
At 7:50 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Há uns 10 anos visitei Israel e a Jordânia.
Uma das coisas que mais me surpreendeu, para além da "co-habitação" naquele lugar de vários símbolos máximos das 3 grandes religiões monoteístas(cristianismo, judaísmo,fé muçulmana)com todas as suas sub-divisões, foi a constatação de que, "economicamente", viviam uns com os outros. Na "via crucis", subida para a Igreja do Santo Sepulcro, eram inumeras as quitangas de tapetes, coroas de espinhos, artigos e cxheiros de cultura árabe. Entramos numa loja de tapetes, onde o dono e empregados árabes, atenderam afavelmente o nosso guia judeu e o nosso grupo "ocidental".
O "comércio" árabe estava ins talado por todo o lado. Evidente que perto do "Muro das Lamentações" e nas estradas havia polícia e ex
rcito. Não pudemos ir a Jericó, pois constava, o exército tinha cancelado entradas e saídas dessa cidade, devido a uns ataques "terroristas". Nesse tempo ainda não tinham aparecido os bombistas suicidas, nem Bin Laden, nem o horrendo "eleven" novaiorquino.´
Também estive em Amã e em Petra, onde até ap+rendi a pôr aquele lenço quadriqulado à Arafat, que me lembra sempre uma toalha de restaurante italiano. E me disseram que aquele cordão negro que os sauditas e outros usam a apertar o lenço, data do luto da perda de Andaluzia, na Ibéria...
Parece-me, que quando foi "restaurado" o estado de Israel a seguir à 2.ªGuerra Mundial, não havia nação palestiniana e muito menos Estado. Pois o que havia eram algumas tribos nómadas. Mas, agradeço me desmintam se4 estou errada, pois não estou com pachorra, no momento, para investigações mais certificadas.

É óbvio que os extremismos numa zona onde existe uma pulverização impressionante de "caldos" civilizacionais e religiosos é um perfeito suicídio. Israel dava trabalho a muitos palestinianos, ou lá o que sejam -e isto é apenas desinformação. Acredito que as hostilidades se tenham exacerbado.
O que me irrita é um certo maniqueísmo, mais de esquerda que só vitimiza os "pobres" palestinianos", cujo leader, o desaparecido Arafat, mais a sua mulher - a 1.ª esposa? -se locupetaram com as ajudas monetárias internacionais, para as suas vultuosas fortunas bancárias, enquanto o povinho...tadinho...gemia sem tusto nem torneiras, por causa dos malditos judeus.
Sabem que o território israelita equivale a três quartos do Alentejo?
Claro que o Bush, o Tony Blair, os militarões do Pentágono, são uns grandes FILHOS DAS PUTAS. E só fabricaram e continuam a fabricar terroristas.

 
At 8:04 da tarde, Blogger hmbf said...

Diz bem, Vi. Diz bem. 100% de acordo.

 
At 8:05 da manhã, Anonymous Anónimo said...

vamos ser sempre infantis e igenus por tanta gente idiota no mundo capitalista e egoista. entao foda se seu mundo degradavel

 

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