22.9.06

REQUIEM

A Terra crucificada,
se pudesse encontrar uma voz,
e um sentido da ironia,
bem poderia agora dizer
sobre a maneira como abusámos dela:
«Perdoa-lhes, Pai,
Eles não sabem o que fazem.»

A ironia estaria
no facto de sabermos
o que fazemos.

Quando a última coisa viva
tiver morrido por nossa culpa,
como seria poético
se a Terra pudesse dizer,
numa voz que flutuasse até aos nossos ouvidos,
talvez
vinda do fundo
do Grande Canyon:
«Está feito.»
As pessoas não gostavam disto aqui.

Tradução de Susana Serras Pereira.

Kurt Vonnegut
Kurt Vonnegut, americano de ascendência germânica, nasceu em Indianapolis a 11 de Novembro de 1922. Concluída a formação em Química, alistou-se no exército e combateu na II Guerra Mundial – onde, feito prisioneiro, assistiu ao bombardeamento de Dresden. Após a Guerra formou-se em Antropologia. É autor de vários ensaios, peças de teatro e romances, entre os quais se destacam Player Piano (1952), Cat’s Craddle (1963), Galápagos (1985). Recentemente, a editora Tinta da China publicou entre nós Um Homem Sem Pátira.

2 Comments:

At 7:18 da tarde, Blogger Larissa Marques said...

Tenho um poema homônimo!

 
At 12:50 da manhã, Anonymous Sérgio said...

É pena que o que está traduzido em português esteja esgotado. O Galapagos é muito bom, mas o melhor é o Slaughterhouse 5, que foi traduzido na coleção azul, de FC, da Caminho com o título de Matadouro 5 ou a Cruzada das Crianças. Talvez alguém pegue nos livros mais antigos - o interesse que Vonnegut tem não reside apenas nas suas confissões anti-bush.

 

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