30.10.06

YO

No início da década de 1990 houve em Caldas da Rainha aquilo que pode ser designado de nova vaga musical, com uma série de bandas das quais me apetece destacar os Tina And The Top Ten, do artista plástico João Paulo Feliciano, e os Yolk. Essa vaga, como todas as vagas, durou praticamente uma década. Feitas as contas, o saldo não é negativo se recordarmos alguns bons concertos e meia dúzia de álbuns interessantes. A maior parte desses projectos, que se formara sob a inspiração dos Sonic Youth, desapareceu. Outros adaptaram-se às circunstâncias transformando-se em objectos pop de gosto duvidoso. Veja-se, a título de exemplo, o projecto de Paulo Gouveia, ex-Orange, que dá pelo nome de Gomo. Lembro-me desses tempos a propósito dos Yo La Tengo, banda que conheci à época e nunca mais quis perder de vista. O primeiro álbum dos Yo La Tengo, Ride the Tiger, data de 1986. Já lá vão, portanto, 20 anos bem passados. A banda, formada em 1984, pode ser entendida como uma espécie de empresa familiar – assim também, de resto, os Sonic Youth - liderada por Ira Kaplan (guitarra e voz) e Georgia Hubley (bateria e voz). Muitas vezes associados aos The Velvet Underground, os Yo La Tengo souberam personalizar o seu noise rock desafiando toda uma série de clichés à volta deste tipo de bandas. Desde logo, permanecendo fiéis ao ruído, nunca negligenciaram a melodia, aventurando-se mesmo em canções mais inteligíveis como é o caso de Tom Courtenay, do álbum Electr-O-Pura (1995). O noise rock dos Yo La Tengo, tal como o dos Sonic Youth, nunca pôs em causa a toada groove das suas canções, permitindo-lhes assim sobreviver sem dar mão da sua independência. Penso nisto tudo por uma razão muito simples: tal como as bandas das Caldas da Rainha nesses idos de 1990 e troca o passo, muito do que se faz neste país vive de inspirações momentâneas, decalques circunstanciais, modas efémeras. A grande parte dos artistas portugueses falta aquela personalidade que permite a bandas como os Sonic Youth e os Yo La Tengo manterem-se fiéis a um estilo, garantindo assim a sua identidade. É óbvio que temos excelentes excepções, mas verdade seja dita que na música, nas artes plásticas, etc., e porque não estendê-lo aos domínios do pensamento, das ciências humanas, da política, do jornalismo, há no nosso país uma falta de personalidade, um défice de coluna vertebral, por vezes gritante, tornando o que se faz por cá, muitas vezes, numa cópia desajeitada do que vem lá de fora. É por isso que em tantas matérias dificilmente passaremos da segunda divisão. Recordo-me de ainda nos tempos da Faculdade ter sido confrontado com uma cadeira de Filosofia em Portugal onde metade do semestre foi para discutir se havia uma filosofia portuguesa. Os autores abordados deixavam bem claro aquela ideia de que o putativo pensamento português não passava, na maior parte dos casos e para mal dos nossos pecados, de uma citação permanente do pensamento francófono, germânico e, mais recentemente, anglo-saxónico. O que me leva a crer que também aos nossos ilustres pensadores, assim como a alguns génios da política cata-vento, não faria mal algum olharem para os exemplos dos Sonic Youth e dos Yo La Tengo.

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