28.10.06

IVG # 8

«Tanto se tem discreteado sobre um suposto masoquismo feminino que se chegou a este ponto em que se diz que a despenalização do aborto levaria ao fim da contracepção. A realidade prova o contrário: nos muitos países em que a interrupção da gravidez nas primeiras dez ou doze semanas foi legalizada, as taxas de aborto diminuíram. (…) Moramos numa cultura que culpabiliza o corpo da mulher – que sangra porque é impuro, e é impuro porque tem esse afrontoso poder de gerar vida. Mas os espermatozóides que hoje se distribuem em bancos bacteriologicamente puros, para fazer crianças que nascem sem o direito de saber quem são – não são também vida? Tudo neste mundo é vida – vida elaborada a partir de pó de estrelas. Mas quando se trata desse assunto menor que é a saúde reprodutiva das mulheres, a demagogia solta-se e voa até às mais turvas nuvens comparativas. Fetos de cinco e seis meses aparecem em folhetos, baptizados como embriões. Pode haver quem defenda o direito do embrião – mas então, coerentemente, essas pessoas deveriam rejeitar a interrupção da gravidez por malformação do feto ou violação da mãe, e criminalizar claramente as prevaricadoras, em qualquer situação. (…) Outros ainda afirmam que concederiam votar a favor do direito à interrupção até Às 10 semanas – desde que não fosse praticada nos hospitais públicos, para não prejudicar os doentes «a sério». Por esta ordem de ideias, haveria que arredar dos hospitais públicos: a) os suicidas falhados b) os fumadores com cancro do pulmão c) os diabéticos gulosos d) os obesos e) os alcoólicos com cirroses f) os doentes de sida que não tivessem sido contaminados por transfusão de sangue. E por aí fora. Como é que se faz? Instalam-se confessionários à porta dos hospitais e mandam-se os pecadores, em penitência, para as clínicas privadas? Um pouco de bom senso, por favor. E de respeitinho, já agora.»

Inês Pedrosa, Única, 28 de Outubro de 2006.
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