14.10.06

XÁCARA DAS MULHERES AMADAS

Quem muitas mulheres tiver,
em vez duma amada esposa,
mais se afirma e se repousa
pera amar sua mulher;
quem isto não entender…
em cousas d’amor não ousa,
em cousas d’amor não quer!

Quantas mais, mais se descansa,
mais a gente serve a todas;
quantas mais forem as bodas,
quantos mais os pares da dança,
menos a dança nos cansa
o gosto d’andar nas rodas.

Que quantas mais, mais detido
a cada uma per si;
nem cansa tanto o que vi,
nem fica o gosto partido;
ao contrário, é acrescido
a cada uma per si!

No paladar de mudar
mais se sente o gosto agudo:
que amar nada ou amar tudo
é estar pronto a muito amar;
o enjoo vem de não estar
a par do nada e do tudo.

Mais fàcilmente se chega
pera muitas que pera uma;
e a razão é porque, em suma,
se esta razão me não cega,
quem quer que muitas adrega
é como tendo… nenhuma!

Com muitas, descanso vem,
faz o desejo acrescido:
que é o mais apetecido
aquilo que se não tem;
e o apetite é o bem;
e em saciá-lo é perdido.

Também a mulher que tem
seu marido repartido
é mais gostosa do bem
que advém de seu marido!

Tão gostosa e recolhida,
tão pronta e tão conformada,
quanto o gosto é não ter nada;
porque o gosto é ser servida
e não o estar contentada.
O gosto é cousa corrente,
e quem o tem já não sente
o gosto dessa
corrida,
que tê-lo, é cousa… jazente…
que tê-lo, é cousa… perdida!

Ora, pois, nesta jornada
não vi nada mais de amar
que ter muito por chegar
e cousa alguma chegada;
não vi nada mais de ter…
que ter muito que perder…
e cousa alguma ganhada!

Mário Saa

Mário Saa
nasceu nas Caldas da Rainha em 18 de Junho de 1894. Colega de Almada Negreiros no Colégio de Campolide, frequentou vários cursos, em Lisboa e em Coimbra, não tendo completado qualquer um. Dedicou-se à filosofia, à genealogia, à geografia antiga, à poesia, à problemática camoniana, às investigações arqueológicas, e mesmo à astrologia e à grafologia. A ele se deve a fixação da data de nascimento de Camões: 23 de Janeiro de 1524. Com uma vasta obra em prosa, foi publicando a sua poesia em revistas e outras publicações. Publicou com assiduidade na revista Presença e privou com os grandes poetas e intelectuais da época no âmbito da boémia literária da Brasileira do Chiado. Faleceu no Ervedal (Avis) em 23-1-1971. »

4 Comments:

At 12:13 da manhã, Anonymous Anónimo said...

A Mário Saa deve-se a data de nascimento de Camões.
Deve-se também essa obra magna que é As Vias da Lusitânia e alguns poemas e textos que qualquer letrado português deveria conhecer.
A capa da edição da IN-CM é muito má e é pena. Mas tem o mérito de quebrar um enguiço de décadas. Embora num tempo de livros-lixo tenha sido publicado para ficar a ganhar mofo nos armazéns da editora.

Leitor

 
At 12:14 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Errata: onde se lê "publicado" deveria estar "publicada".
Leitor

 
At 5:07 da tarde, Blogger etanol said...

Mário Saa, meu parente nascido nas Caldas.
Maria João

 
At 12:03 da manhã, Blogger Pedro Ferreira said...

A Mario Saa deve-se uma das melhores teses antissemitas publicadas em Portugal: A Invasão dos Judeus (1925).

Parabéns Mario Saa, se o Hitler te conhecesse dava-te um prémio.

 

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