16.11.06

MAYAKOVSKY COMEÇA

Hoje
as folhas arrancam-se das árvores,
e o eixo
da terra
muda o seu ângulo,
e a floresta
torna-se um casaco de pele de raposa –
batida pelo vento
e dourada de lés a lés.
E no assobio
dessas ventadas brutais,
que levantam e arrastam
um rastro poeirento, -
o escritor
pensava em sobretudos
e mais roupas
nos ombros dos outros.
Ser escritor –
não é a arte do lucro,
e o rublo domina
o nosso tempo.
Aqui
revelar-se-ão os falsos,
afundar-se-ão –
os que amam a poesia.
Mas
para quê fazer acusações?
O corpo precisa
de nervos
e humores.
O país era luz,
mas eles eram sombras
pois a luz sem sombras
não pode existir.
Pois então que existam
mas não me incomodem,
e se
delas não escrevo agora, -
firme a minha força,
dura a minha pele, -
cultivo a terra
para o nosso futuro.
Para uma nova
era de alegria –
densa semente escolhida
do homem -
de joio
e de cardos
liberta
e limpa.
Que não haja nela
nem condições
nem lugar
para lacaios engraxadores,
hipócritas e mentirosos,
para palavras aduladoras
e gestos covardes,
para que à vista desarmada
o homem conheça o homem.
Para que um Mayakovsky,
sorrindo,
através dos séculos
abra sempre caminho…
E o seu nome será
- eu sei! –
ó vindouros da terra,
dado
a qualquer estrela.
Tradução de Manuel de Seabra.

Nikolay Aseev
Nikolay Aseev nasceu em Lgov, na região de Kursk, em 1889. Estudou filologia nas universidades de Moscovo e Khárkov. A sua primeira colecção de poemas, Flauta da noite, foi publicada em 1914, já depois de ter conhecido Mayakovsky. Colaborou na publicação da revista Lef e foi autor de muitos importantes trabalhos de teoria poética. Faleceu em 1963.

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