6.1.07

GRANADA

Avançando a trote,
Correndo prà luta
Uma velha canção
Pegada nos dentes.
Ah, este refrão
Guardou até hoje
A erva daninha
E rasa da estepe.

Mas outra canção
De terra distante
Tinha o meu amigo
Consigo na sela.
E cantava, olhando
A terra natal:
‘Granada, Granada,
Granada que é minha!’

E esta canção
Dizia de cor…
Donde lhe viria
Tristeza de Espanha?
Responde, Alexándrovsk,
E Khárkov, responde:
‘Mas há quanto tempo
Cantas tu espanhol?’

Diz-me cá, Ucrânia,
Não foi neste trigo
Que a gorra de Tarás
Shevchénko caiu?
Então, donde vem
A tua canção:
‘Granada, Granada,
Granada que é minha’?

Não respondeu logo
De tão pensativo:
‘Irmão! Encontrei
Granada num livro.
É um nome belo
De terra altaneira,
Terra de Granada,
Granada de Espanha!’

Deixei a cabana
E fui combater
Para que em Granada
Terra possam ter.
Adeus, minha gente!
Adeus, minha terra!
‘Granada, Granada,
Granada que é minha!’

A sonhar, galopando
Para compreender
A sintaxe da guerra
A fala dos tiros.
E ergueu-se a aurora
E de novo caiu
- Cavalos cansados
A correr na estepe.

E a velha canção
Cantava o esquadrão
No arco da dor,
Nas cordas do tempo…
Onde está, amigo,
A tua canção:
‘Granada, Granada,
Granada que é minha?’

Um corpo caíra
Por terra, o primeiro.
Era o meu amigo,
Ansioso guerreiro.
E sobre o seu corpo
Curvava-se a Lua,
E os seus lábios mortos
Sopravam: ‘Grana…’

Às nuvens lontanas,
Às lonjuras vastas
Foi o meu amigo
Com a sua canção.
Não a ouvia agora
A terra natal.
‘Granada, Granada,
Granada que é minha!’

E ninguém notou
A queda dum homem
E a velha canção
Foi até ao fim.
Só do céu calado
Em breve caiu
Por sobre o sol-pôr
Lágrimas de chuva…

A vida encontra
Novas canções empre…
Rapazes, não vale
Chorar a canção;
Não é preciso, amigos,
Não é preciso, não…
Granada, Granada,
Granada que é minha!

Tradução de Manuel de Seabra.

Mikhail Svetlov
Mikhail Svetlov nasceu a 17 de Junho de 1903, no seio de uma família judaica de origens humildes, em Ekaterinoslávka. Foi editor do primeiro jornal comunista publicado na Ucrânia. Começou a publicar poesia em 1917, tendo o seu primeiro livro, Rél’sy, aparecido em 1922. Entre 1927 e 1928 estudou na Universidade de Moscovo, dedicando-se, posteriormente, à dramaturgia. Foi correspondente de imprensa em Leninegrado, durante a II Grande Guerra. Publicou várias colecções de poemas, sendo Granada um dos seus poemas mais reconhecidos. Faleceu em Moscovo, a 28 de Setembro de 1964.

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