5.1.07

A virgem violada

Henri de Toulouse-Lautrec
Sempre me intrigou a aversão dos filósofos ao dinheiro, como se dinheiro e filosofia fossem realidades incompatíveis. Desde muito cedo que a questão se colocou desta maneira: a filosofia é amor ao saber; logo, tirar lucro da mesma reduz o filósofo à condição de prostituta; isto porque só as prostitutas retiram lucro do amor. Penso não existir raciocínio mais anti-filosófico que este, dado o preconceito que revela - e a filosofia só faz sentido quando traz na mira todo o tipo de preconceitos. Na verdade, as prostitutas não retiram lucro senão do sexo. O amor é uma coisa completamente diferente. O que eu penso é que temos cada vez mais gente para quem o saber se apresenta como algo desnecessário, sendo muito poucos os que verdadeiramente o amam. Isto cria-nos um paradoxo, pois à legalização da “prostituição” dever-se-ia seguir a sua quase extinção. Porém, não consta que o negócio vá correndo assim tão mal. Se no mundo em que vivemos até os filhos se decidem pela despesa, o que pensar do saber? Tende a ser visto como um luxo, digamos assim, para prostitutas finas. É deste modo que as pessoas se relacionam com o saber. Duvido que, além dos filósofos e mais meia dúzia de tontos, a relação dos homens com o saber tenha alguma vez sido diferente. Sempre foi uma relação muito semelhante à de quem vai às putas. Quem tem dinheiro, frequenta as finas; quem não o tem, fica-se pela estrada. O resto é missa. Chego aqui depois de voltar a folhear o Discurso Sobre a Dignidade do Homem, de Giovanni Pico Della Mirandola, de onde relembro, evocando Pitágoras, «duas coisas que acima de tudo devemos evitar: urinarmos voltados para o sol e cortarmos as unhas durante o sacrifício». Ora digam se não andamos quase todos a fazer exactamente o contrário?

2 Comments:

At 11:17 da tarde, Anonymous Anónimo said...

uma bela excepção é o livro The Philosophy of Money, de um tal Simmel,que li numa biblioteca com 3,5 milhões de livros (a biblioteca da universidade de Leeds) mas é difícil encontrar, talvez por ser "a much neglected classic"
(http://www2.pfeiffer.edu/~lridener/DSS/Simmel/SIMMELW7.HTML)

Rui Costa

 
At 11:35 da tarde, Anonymous hmbf said...

Excelente dica.

 

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