12.1.07

Pérolas a porcos

Pearls For Pigs

De vez em quando caem comentários em poemas antigos. O contemplado de hoje foi Carlos de Oliveira, acerca do qual posso gabar-me de haver lido toda a obra. Um dos meus livros preferidos do autor de Descida aos Infernos é O Aprendiz de Feiticeiro, livrinho de crónicas publicado originalmente em 1971. Reencontro aí uma crónica intitulada de Almanaque Literário. Trata-se de um breve e, quanto a mim, justíssimo retrato da literatice que sempre assolou o país. Sobre a crise do livro, por exemplo, excluem-se as edições de luxo que «servem sobretudo para pôr nas salas provincianas, em cima das mesas de pé-de-galo» e «dois ou três autores consagrados». Passados todos estes anos, acrescentemos aos «dois ou três consagrados» mais dois ou três neófitos apaniguados daqueles e muito lixo de tipo delicodoce ou melodramático, podemos asseverar que continua tudo na mesma. Já no que à poesia diz respeito o panorama em absolutamente nada se alterou: os poetas vivem de oferecerem os seus livros uns aos outros e, com sorte, de serem lidos uns pelos outros. Diz Carlos de Oliveira, e bem: «a nossa poesia foi sempre mais ou menos uma pedinchona incómoda: de letra de forma, de favores às damas, de empregos, de mercês, de tenças, de dinheiro, de galinhas a todos os senhores de Cascais deste mundo». Assim se compreende, perante cenário tão bem delineado, que o meio poético português seja, salvo raríssimas excepções, um meio de arrivistas, indigentes, bajuladores, onde os mais novos se encostam aos instalados e os instalados pavoneiam-se dos encostos. A pobreza é tanta que as mais das vezes o serviço se faz pagar por um livreco editado, um artiguelho de jornal, uma foto autografada de recuerdo, um "rissol" para o estatuto. No entanto, não será também assim na política, no meio universitário, no mundo empresarial? Temo que a resposta só possa ser positiva. Desafio quem quer que seja a dizer-me o nome de um presidente ou ex-presidente qualquer, de um ministro, secretário de estado, etc, que tenha um filho no desemprego. Aqui há tempos alguém fez um desafio do género, recebendo de troco a censura de uns tantos leitores fidelíssimos. Nestas coisas todos temem pôr a descoberto os seus telhados de vidro. A vida sempre foi assim, esta relação imanente entre nascer em berço de ouro e nascer com o cu virado para a lua tem muito que se lhe diga. Certo é que bater a portas, saltar pelas janelas, desbravar caminhos e derrubar muros nunca foi para quem pode mas antes para quem quer.

54 Comments:

At 5:05 da tarde, Anonymous ruilage said...

Ok Henrique, desafio aceite(entristece-me constatar que mesmo pessoas inteligentes e lúcidas como tu também cedem à puta da demagogia): o meu pai é Presidente da Comissão de Coordenação para o Desenvolvimento da Região Norte (CCDR-N), e eu, seu filho, estou desempregado.

Conheço também casos de filhos (e filhas) de secretários de estado na mesma situação, etc., mas, como é óbvio, não tenho direito de os divulgar.

Uma lástima. Com o catarro da demagogia preso nas gargantas de tudo quanto é cidadão português, para quê, de facto, preocuparmo-nos com a gripe das aves e merdas dessas...

 
At 5:09 da tarde, Anonymous ruilage said...

E só para o caso de não vir para aí ninguém disparado dizer que só estou desempregado porque quero, ou porque sou burro, deixa-me já mandá-lo, antecipadamente, ir dar uma volta ao bilhar grande.

 
At 5:10 da tarde, Anonymous Anónimo said...

concordo contigo, henrique. com ou sem a puta da demagogia.

há umas semanas eu prórpio escrevi: «Os outros, os que se dizem grandes, sobrevivem à custa dos bajuladores e arrivistas que esperam comer uma ou outra migalha, para depois arrotarem como se tivessem comido o maior dos banquetes.»

 
At 5:10 da tarde, Anonymous Anónimo said...

concordo contigo, henrique. com ou sem a puta da demagogia.

há umas semanas eu prórpio escrevi: «Os outros, os que se dizem grandes, sobrevivem à custa dos bajuladores e arrivistas que esperam comer uma ou outra migalha, para depois arrotarem como se tivessem comido o maior dos banquetes.»

 
At 5:11 da tarde, Anonymous Anónimo said...

desculap lá o comentário ao quadrado

 
At 5:22 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Não vou dizer que não há gente em cargos superiores honesta, que com certeza haverá. Mas o que infelizmente tenho constatado ao longo da minha vida profissional é que para progredir é muito útil ter o encosto certo.
Ora como eu nunca soube (nem quero saber) a quem dar o raio do presunto, vejo-me na iminência de fazer o mesmo que tantos outros. A mala.
A. Silva

 
At 6:42 da tarde, Blogger hmbf said...

«Aqui há tempos alguém fez um desafio do género, recebendo de troco a censura de uns tantos leitores fidelíssimos.»

Rui, quando escrevi isto já estava à espera de reacções como a tua. E estou à espera de outras, do género: às vezes ser filho de alguém no poder só traz é dificuldades, és um rancoroso, tens é inveja, coisas do género. Seja como for, o teu caso deverá ser considerado a excepção que confirma a regra. Sugiro-te um encosto mais à maneira. Deixa-me apenas pedir-te que leias melhor o texto - na sua totalidade - e não te fiques apenas pelo que te tocou mais emocionalmente, provavelmente, por ser o que te diz respeito mais especificamente. O meu desafio, se reparares, é uma dúvida, não é uma afirmação. O meu desafio não é uma asseveração. E até estou disposto a pôr a descoberto os meus telhados de vidro, se for caso disso. Tento nessa sensibilidade, ó poeta!

Manuel, nada a desculpar.

Aurora, não se trata de honestidade ou desonestidade. Assim como não se trata de competência ou falta dela. Trata-se, como tu bem dizes, de ter o encosto certo.

 
At 9:25 da tarde, Anonymous Anónimo said...

E "As abelhas"? Como funciona com "As Abelhas?"

 
At 11:59 da tarde, Blogger hmbf said...

Bem visto, marginal. Basta pensar em Mandeville. ( http://www.braudel.org.br/bps/paper5a.htm )

 
At 1:19 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Ainda há gente limpinha e com vergonha na cara. Que até estava em posição de ser "alpinista", mas que prefere os próprios caminhos, a pulso.
O Rui Lage, para já é desses. E que assim continue.
A propósito de encostos e favores, há-os de toda a espécie, desde aqueles pela frente ou por trás, até ao poder do "apelido".

Tive uma amiga, que se foi para as Austrálias, há bastos anos, que ainda era prima afastada, em 3.ª ou 4.ª geração, do Mário de Sá-Carneiro. Não tinha nada a ver com o político.
Ela nunca usava esse sobrenome, -era de esquerda -que também tinha, em detrimento de outro seu, mais sonante e estrangeirado.
Mas, dizia-me ela, que quando se tratava de arranjar uma consulta médica,urgente, o "Sá-Carneiro" dava imenso jeito...

Vi.

 
At 2:16 da manhã, Anonymous Anónimo said...

não é a mesma coisa ser desempregado sendo filho de um presidente ou de um médico ou de outro desempregado. é mais fácil ser honesto e sério quando se tem a barriga cheia. o valor ético de um comportamento só se pode avaliar (se puder) em função da quantidade de sacrifício que se está disposto a suportar para se ser “ético”. mas a própria capacidade de sacrifício é condicionada pelo ambiente que se “tem”. De qualquer maneira, este tal “sacrifício” não é para alardear, ou é – para quem pretenda um “prazer” de interesse exclusivamente pessoal (e já se sabe que a “santidade” pode ser a consequência de um atroz egoísmo – ou doença). Eu próprio já era “mestre” (uuuh) e, por falta de melhor alternativa, fui trabalhar para um restaurante. Não me sinto orgulhoso disso (também sabia que em caso de urgência tinha a quem cravar desenrascanço), mas percebo mérito e sorte em mim por não ter, até agora, deixado que o mundo me transformasse, por exemplo, num infeliz lambe-botas. Esta parte é minha, e em geral deve ficar no silêncio. A outra, que é bem mais tola e não deve ficar no silêncio, é mudar o mundo.

Rui Costa

 
At 10:35 da manhã, Blogger FAG said...

ruilage não tem razão porque pessoaliza, excepciona, foge à regra, e um apelido de cidadão honesto (público, notório e merecido)conta apenas como exemplo de flor no pântano, talvez de esperança num futuro mais justo, como se costuma dizer, mas deve saber muito bem que, para o status de merda em que vivemos, apelidos assim são já raros e considerados pelo status DEMASIADO honestos.
Já que se pessoaliza tanto, falo de uma instituição em que trabalhei dez anos e que poderei multiplicar por mil (portanto, não tão pessoal como isso). É tudo mais baixinho do que o nível de secretário de estado ou director-geral, o que é ainda pior porque mais vasto. Cheguei lá e vi:
Os cargos de chefes de secção até chefe de divisão eram ocupados por familiares e amigos do «patrão» e do director do pessoal, o resto era uma tropa fandanga humilhada diariamente pelos mediocrezinhos. Só eram bons na implementação de big brothers internos. Mas o «patrão», homem íntegro mas sobretudo esperto, se meteu lá a mulher e a namorada do filho como chefes, já não meteu lá directamente os dois filhos licenciados em não sei quê. E porquê? Porque qualquer outro «patrão» de qualquer outra instituição junto da dele arranjava trabalho aos filhos dele de um dia para o outro.

 
At 12:17 da tarde, Blogger hmbf said...

Vi: Não tenho dúvidas de que ainda há gente limpinha e com vergonha na cara, mas o meu post nem é sobre isso. O meu post pretende apenas fazer estender ao mundo aquilo que Carlos de Oliveira acusa no universo da poesia: não apenas a poesia é uma pedinchona incómoda, como o próprio país assim se revela – contaminando a sociedade com esse espírito «de letra de forma, de favores às damas, de empregos, etc». O país pede à Europa, a sociedade pede ao Estado, o Zé pede ao Senhor e por aí fora até ao cabo mais raso da insuportável pedinchice. Eu, sinceramente, acho que o Rui Lage não entendeu bem o post, mas já me explicarei melhor. Quanto a essa história dos apelidos, que muito se vai repetindo por esse país fora, vou contar-lhe uma história que se passou comigo. Uma vez, num restaurante na zona da Lapa, o gerente, ao reparar no meu apelido, chegou-se-me e perguntou-me se eu era alguma coisa ao Fialho de Évora. Parece que entre a malta da restauração há o costume, quanto a mim bastante saudável, e a simpatia de pagarem umas almoçaras uns aos outros. Eu, na brincadeira mas já topando a coisa, disse ao senhor que sim, que era familiar directo do Fialho de Évora. A verdade é que não conheço o senhor de lado algum, mas isso, não fosse a minha cabeça limpinha e com vergonha, ia-me valendo uma bela comezaina à borla. Como vê, também há vantagens em ser-se Fialho! 

Rui Costa: Gostei muito do teu comentário e concordo com ele em absoluto. Tocaste precisamente onde eu queria tocar. Todos os dias me confronto com essas situações que nos demonstram ser o sacrifício proporcional às adversidades. Um exemplo: quando se fala na democratização do acesso à educação e à cultura. Não há verdadeira democratização do acesso à educação e à cultura enquanto não existir uma verdadeira democratização social. Não falo da democracia política, essa já temos e foi conquistada com o 25 de Abril. Mas as outras dimensões da democracia, social e cultural, estão ainda por cumprir. Como trabalho com formandos provenientes de contextos sociais ditos problemáticos, sei bem do que estou a falar. Às vezes brinco aqui no weblog com as bacoradas dos meus formandos. Por exemplo, ainda esta semana uma miúda perguntou-me se já havia leis antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem ao passo que outra sugeriu que a DUDH tinha sido “implantada com o 25 de Abril”. A verdade é que trata-se de miúdos que são vítimas de um sistema que lhes permite o progresso escolar sem a aquisição mínima de conhecimentos, agravando assim as assimetrias com que partem para a escola logo de início: pais humildes, sem livros em casa, sem computadores, sem nada, 0. Ora, estes miúdos, se querem alguma coisa da vida, ter-se-ão de esforçar triplamente relativamente a outros que nasçam, como digo no post, em berço de ouro. Isto parece-me indiscutível, assim como me parece que o acesso ao emprego fica, então, facilitado pela situação familiar e social de cada pessoa. Daí que nos seja muito difícil encontrar gente familiar ou amiga do poder em dificuldades.

fag: Aí está mais um excelente exemplo daquilo a que aludo. É com situações dessas que me deparo todos os dias. Atenção: isto não tem nada que ver com a competência de cada um. Um tipo que usufrui, digamos assim, de uma “cunha” pode-se revelar extremamente competente no exercício das suas funções. O que aqui está em causa é a legitimação social, por via da prática comum, do privilégio. É curioso que o Rui Lage tenha reagido como reagiu, falando na «puta da demagogia» e no «catarro» da mesma. Digo que é curioso, não para o censurar – percebo que tenha cedido instintivamente às emoções -, mas simplesmente porque me recordo de uma querela que o mesmo manteve no saudoso QF&M a propósito da forma como, segundo ele, a «elite lisboeta ignora ostensivamente o Porto». Na altura muita gente lhe caiu em cima, e com alguma razão, mas não creio que a sua “queixa” estivesse de todo desprovido de verdade. Voltamos ao problema da situação. Nascer e viver em Lisboa, ou para lá emigrar, fornece-nos, entre outras coisas, um acesso e uma proximidade às elites que não seria possível de outra forma, mesmo no famigerado mundo globalizado. Ou seja, facilita-nos a obtenção da tença (seja ela de tipo financeiro ou estatutário). Já repararam como neste país tanta e tanta gente se faz promover pela simples alusão a amizades, proximidades, relações, intimidades com este ou com aquele instalado?

 
At 3:44 da tarde, Anonymous ruilage said...

Henrique, eu não entendi mal o teu texto. Ninguém põe em dúvida a actualidade das observações do Carlos de Oliveira quanto ao panorama literário português. Eu apenas aproveitei o teu "desafio" - a palavra é tua - para extrapolar e me pronunciar (talvez de forma excessivamente emotiva, concedo) sobre um enorme equívoco que existe hoje na sociedade portuguesa. É que não são as figuras que ocupam lugares cimeiros na condução do rumo do país (que por acaso nem rumo chega a ter) aquelas que se podem dar ao luxo da "cunha" e do tráfico de influências. Melhor, poder, até podem, mas arriscam mais que os outros. É óbvio que os "grandes" da "res publica" têm as suas vidas privadas muito mais expostas do que os "pequenos", e um batalhão de jornalistas à cuca com ordens explícitas para obrarem manchetes ao mínimo passo em falso. Também se trata de um problema de memória curta: alguém se lembra ainda daquele ministro (ou secretário de estado?) do Durão (ou do Santana?) que alegadamente meteu uma cunha e mais não sei quê a favor da filha? Lembram-se da balbúrdia que foi? E a jovem em causa? Terá sido, de facto, favorecida, ou, pelo contrário, com o seu nome enxovalhado na praça pública, desfavorecida...? Fosse ela filha do presidente do executivo de uma C+S de Castelo Branco, e o esquema, igual a milhares e milhares que todos os dias acontecem no nosso país, teria passado totalmente despercebido. Para utilizar uma expressão de que o Pacheco Pereira tanto gosta, ASSIM É FÁCIL. Custa-me ver que cabeças pensantes, consistentes, cultas e criativas como as que costumam frequentar o "Insónia" cedam à tentação chã, trauliteira e nada cívica de atirarem as culpas para cima dos políticos, bodes expiatórios de tudo, inclusive, por vezes, do granizo que cai fora de época.

A verdade, amigos, é outra. A cultura da "cunha", os "arranjinhos", os telefonemas "a resolver", resultam - Ah se resultam! - mas é ao nível, sobretudo, do funcionalismo público mais anónimo, das autarquias mais "resguardadas" (pela interioridade), das junta de freguesia e por aí fora. É nessas instâncias que o presunto e o cabritinho funcionam, congratulando-se mutuamente quer os dadores quer os presenteados, orgulhosos do seu engenho e agudeza. Esses pouco ou nada têm a arriscar: ninguém os vigia, ninguém está interessado nas suas manobras e estratégias. Mas vocês, caros amigos, sabem disso tão bem quanto eu: passa-se com o vosso vizinho, com o vosso primo, com o vosso colega de trabalho, e não digam que não têm conhecimento dessa realidade, ou que até, inconscientemente, não a aprovam (como quem se resigna a uma prática consuetudinária de séculos). No interior do país, o descalabro é total: aí sim, são os chefões da coisa pública que arranjam tachos para toda a gente, funcionando como verdadeiros centros de emprego. Se acontece de haver fumo, a coluna ergue-se demasiado ao longe para que possa captar a atenção de alguém. Sei bem do que falo: é exactamente assim que as coisas se passam, por exemplo, em Trás-os-Montes, de onde é originária toda a minha família e onde passo todo o tempo que posso.

Por isso vos digo, caros cidadãos e cidadãs: se querem acabar com este estado de coisas, denunciem o próximo (o colega de trabalho, o primo, o vizinho). Ou então mantenham-se fiéis aos bons e velhos preceitos "cristãos", metam a viola no saco, e engulam de quando em quando um sapinho (bem amanhado pode ser um pitéu, não é...?).

P.S. Ó Rui, isto também já é demais! Não queres que peça desculpa por ser um desempregado filho de um presidente, pois não...? Mas estou a ver que pelo andar da carruagem ainda chegaremos a isso. Não tens consciência de que o que dizes traz implícito, de certa maneira, que dificilmente alguém "de barriga cheia" pode ser honesto e sério? Desde quando a honestidade e a seriedade se confundem com as batatas que metes no bucho? Ou a honestidade e a seriedade são domínio exclusivo dos pobrezinhos? Não sei onde colocar essa treta, se no paternalismo salazarento se no nivelamento estalinista. Isso é moral de telenovela, e de telenovela rasca. Quem tem a barriga cheia não tem "capacidade de suportar sacrifícios"...???!!!! Mas que ética de merda, desculpa que to diga! E mais te digo que não me impressiona nada o facto de teres trabalhado num restaurante (já agora, parece que os filhos do Belmiro também). Eu já trabalhei no campo, e no duro: a vindimar, a carregar cestos, a varejar oliveiras e nogueiras, a espetar estacas, a podar, etc. Bem sei que tenho um apoio que os meus amigos do campo não têm, mas, vá-se lá saber porquê, nunca deles ouvi uma “boca” sequer; e, vá-se lá saber porquê, é deles que me sinto mais próximo.

 
At 5:18 da tarde, Blogger FAG said...

Afinal, a culpa não é dos políticos, coitados, que até são muito «vigiados» e precisam de ter mais cuidado com o que fazem do que o comum dos mortais (apesar de não criarem condições de emprego e de justiça social, a culpa, portanto, não é dos políticos). A culpa também não é bem dos caciques da província, como pretende Rui Lage, porque, afinal, eles também são políticos, por um lado e, por outro, saíram da massa do povo. Portanto, a culpa também não é dos «intermédios». A culpa, afinal, é nossa, que não temos dinheiro para sermos orgulhosamente desempregados ou trabalharmos por brincadeira nas vindimas e nos restaurantes, e temos de nos submeter à cunha e à pedinchice, sem qualquer dignidade, para arranjarmos um empregozito que nos dá porcamente para sobreviver. A culpa, portanto, é nossa e da puta da nossa demagogia social.

 
At 6:13 da tarde, Anonymous ruilage said...

Eu só acrescentaria o seguinte, FAG: a culpa é nossa porque nos achamos bons demais para um "trabalhito" qualquer! Essa é que é a verdade! Essa é que é a demagogia social de que fala, em que todos se avaliam pelo assento que aquecem, e todos invejam os assentos (e os cus) uns dos outros. Em qualquer país da Europa, nos E.U.A., etc., trabalhar num restaurante é a coisa mais normal do mundo. Aqui, neste país excepcional, superior, fino, glorioso, em suma, aqui neste grande país (falta-me o adjectivo!) assombroso, há trabalhos que envergonham e despromovem. Vejam como o Rui Costa "não se sente orgulhoso" de ter trabalhado num estabelecimento de restauração, e prefere ir mudar o mundo - dele - com poemas. Mas ó poeta, outro que te precedeu em milénios, Hesíodo, já cantava que "o trabalho dignifica o Homem"! E, caro FAG, deixe-me só dizer-lhe que trabalho é trabalho, não é brincadeira.

 
At 6:53 da tarde, Anonymous Anónimo said...

"se querem acabar com este estado de coisas, denunciem o próximo (o colega de trabalho, o primo, o vizinho" - acrescento denunciam-se a si prórios.
Quando a minha cunhada estava na fase terminal de crancro, eu meti uma cunha para ela entrar no superlotado serviço de cuidados continuados.

não tenho nenhum orgulho nisso mas voltava a fazer o mesmo. E quem nunca "cunhou" que atire a primeira pedra.

Aurora silva

 
At 7:11 da tarde, Blogger FAG said...

Rui, eu sei o que é trabalho sem esperança de melhorar e os «trabalhitos» que fui obrigado a aceitar TODA A VIDA têm sido o meu trabalho. Então, como foi que aprendi a talhar um perpianho com certa qualidade, e a polir uma pedra, e a boleá-la? E a limpar em 5 horas uma mansão (que não a minha) de 20 quartos, 2 cozinhas e 4 casas de banho? E acozinhar melhor que o Michel? E a conduzir um pesado e fazer 20 horas pela Europa sem dormir? E a roubar comida quando a fome apertava em França? E a fugir da polícia mesmo quando não era nada comigo? E a fazer um minete perfeito à condessa e depois levá-la com todo o respeito no Mercedes ao cabeleireiro como se nada fosse? E a aprender a escrever sem erros e com certa elegância para poder agora estar aqui a argumentar com os doutores?

 
At 7:15 da tarde, Anonymous Anónimo said...

rui lage: pra que é que distorces o que eu disse (“não é a mesma coisa..”, “é mais fácil”, etc.), tornando-te tão mau conversador. Eu chamo/ei a atenção para isto, que é importante: uma pessoa com a barriga cheia tem (ainda) mais responsabilidade. Um artista/empregado inteligente e talentoso (portanto ainda mais responsável), por exemplo, não deve ser um mero estratega do sucesso, precisamente por aquela razão, e deve intervir e/ou não colaborar com esquemas decadentes. Os conservadores é que derivam do (eventual) mérito pessoal a conclusão de que cada um tem aquilo que merece. Parece-me que subjectivizas demasiado os argumentos e a “distinção” entre pequenos e grandes corruptos só tem interesse para dizer que a postura que adoptamos é importante nas “pequenas” coisas e nas “grandes”.

Rui Costa

 
At 7:53 da tarde, Anonymous ruilage said...

Eu nunca cunhei, por isso, tome lá uma pedra, Aurora (muito pequenina, redondinha e entregue em mão).

Caro FAG, foi você que veio falar em "trabalhar de brincadeira". De resto, deu uma prova acabada de demagogia (e atenção que eu sei que você não é nenhum demagogo), ao insinuar que não há por aí doutores que tenham passado por experiências laborais e sociais tão ou mais duras que aquelas pelas quais você passou. Olhe que eu conheço muitos. MESMO muitos.

Não, Rui. Isso que assinalas como importante, e com que concordo em absoluto, é neste último comentário que o fazes, e não no teu primeiro. Nesse até dizes coisas mais graves, como, por exemplo, que é mais fácil ser desonesto quando se tem a barriga vazia - uma vez que escreves, à letra, que "é mais fácil ser honesto e sério quando se tem a barriga cheia". E se achas que a distinção entre, como tu lhe chamas, "pequenos" e "grandes" corruptos não é útil para tratar o cancro da corrupção no nosso país, think again, porque o que acontece é que os "pequenos" corruptos - a esmagadora maioria da população - não deixará de ser corrupta enquanto puder, à boca cheia, atirar as culpas para cima dos "grandes", lavando daí as mãozinhas. De facto, não há nada melhor, para um tipo se sentir com a consciência limpa, do que a terceira pessoa do plural. Eu não acho que a sociedade se muda ou de cima para baixo ou de baixo para cima: muda-se nos dois sentidos.

E, por favor, não vás já fazer um poema sobre isto para eu não ter de retribuir essa do "mau conversador". Um abraço.

 
At 8:45 da tarde, Blogger FAG said...

Rui, eu não faço demagogia no essencial, posso brincar um bocadinho e provocar, mas o que quero dizer é isto mesmo: a nossa vida e o nosso trabalho (ou falta de trabalho) influencia, e muito, o nosso pensamento, a nossa argumentação, a nossa ordem de valores e prioridades, a nossa literatura (já que andamos todos nisso). E olhe, não acho os poemas do Rui Costa (assim como os seus) um escape (não sei se é isso que quer dizer), porque isso notava-se logo, mas sim denotando uma incomodidade de viver e até revolta que me agradam.

 
At 10:13 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Henrique,

Confesso que li os comentários em diagonal, pois levaria imenso trempo a fazê-lo criteriosamente.
Assim só duas notas:

O filho do médico -que os médicos jovens,já são de outro campeonato (não generalizemos)ou do político desempregado, tem outros "custos" psicológicos que não tem o filho ou filha dos "humildes".
É o "falhado", o "chulote", o que "não-quer-fazer-nenhum", o que "não saiu à Família".

A segunda nota é para dizer, que muitas raparigas minhas contemporâneas, da pequena, média-burguesia, foram "sopeirar" como "au pair", fenómeno em voga na altura, para a Inglaterra e Alemanha, para desenvolverem a competêrncia falante, nos respectivos idiomas.

Não podemos ser simplistas, nem esquemáticos demais. Porque uma coisa é lavar pratos em Londres ou em Hamburgo e outra lavá-los na tasca em frente ao consultório do papá.

Quanto à trafulhice generalizada,em todos os sectores, no portugalinho, como você assinala no seu post, a propósito da "coisa" artística, já está mais que demonstrada.

Só queria relembrar que quem elege os "sabujos" políticos são os "inocentes" e "trraídos" povos a que eles pertencem. E quem se filia nos Partidos e respectivas Jotas, também.

No fim dos anos 60 do século XX, Portugal tinha um terço da população analfabeta. Mas, agora, nem há essa desculpa.

 
At 10:25 da tarde, Anonymous ruilage said...

Não, FAG, não foi isso que eu quis dizer, nem acho, também, que os poemas do Rui sejam um escape (também, se fossem, não vinha daí nenhum mal ao mundo). É apenas um "piropo" que faço a um amigo, porque ele me chamou de "mau conversador". Se calhar, chamou-me "mau conversador" porque a conversa não lhe estava a agradar, até porque já conversamos bastantes vezes à mesa do café sem que ele alguma vez se tenha queixado.

 
At 1:10 da manhã, Anonymous Anónimo said...

agradecida pela pedra Rui lage ,qualquer coisa pequena, redonda e entregue em mãos é sempre boa notícia. Espero que não precises de cunhar por muito tempo.

Aurora

 
At 11:13 da manhã, Blogger hmbf said...

Rui Lage: Terás que me desculpar, mas eu continuo a julgar que tu tresleste o meu post. Da mesma forma, aliás, que o fizeste com o comentário do Rui Costa. Primeiro, em parte alguma me ouviste ou ouvirás desculpar “o pobrezinho” colocando o ónus da corrupção nas cúpulas do poder. Aliás, é sintomático da tua tresleitura essa confusão entre “cunha“ e corrupção. Aquilo a que vulgarmente chamamos cunha, favorecimento, etc, não é necessariamente corrupta. Por exemplo, se fores filho de uma pessoa influente és filho de uma pessoa que conhece muitas outras pessoas por razão, também mas não só, da influência que exerce. Ora, pode acontecer que uma dessas pessoas conhecidas do teu pai, um dia, sabendo-te desempregado, lhe diga: «Ele que apareça lá na empresa, é bom rapaz, inteligente, precisamos de pessoas assim». Tu vais e ficas e não cometes nenhum crime por isso. Entidades privadas empregam quem querem como querem, não estando obrigadas a qualquer tipo de escrutínio público. Nesse exemplo, é só um exemplo, tu aproveitas uma cunha sem que haja qualquer tipo de corrupção. Logo, nesse exemplo, é só um exemplo, a cunha é perfeitamente legítima e ninguém tem nada com isso. «Cabeças pensantes, consistentes, cultas e criativas» percebem isso com a maior das facilidades, sem que estejam a ceder «à tentação chã, trauliteira e nada cívica de atirarem as culpas para cima dos políticos, bodes expiatórios de tudo, inclusive, por vezes, do granizo que cai fora de época». Assim como terão que entender que os políticos possuem especial relevância neste processo, na medida em que ocupam cargos públicos e, por isso, deverão ser os primeiros a dar o exemplo do que julgam ser ético ou não. Há não muito tempo, Jorge Coelho, do PS, deu o exemplo. Quando lhe foi detectado um cancro ele telefonou a um amigo (Durão Barroso?) que, por sua vez, ligou a um outro (Jacques Chirac?) que, por sua vez, o meteu numa clínica parisiense especializada na matéria. A vida é mesmo assim, perante as aflições telefonamos aos amigos – que são sempre para as ocasiões (especialmente as aflitivas). Memória curta? Não. Só dizer que: cada qual pode contar com os amigos que tem para as ocasiões em que se vê. Tu dizes que «não são as figuras que ocupam lugares cimeiros na condução do rumo do país aquelas que se podem dar ao luxo da "cunha" e do tráfico de influências». Eu digo que são e, nota bem, na maior parte dos casos, fazem-nos com a maior das legitimidades. Por isso a imprensa não pega no assunto. É que o «dar-se ao luxo de» é inerente ao “luxo” da situação social – estatuto, papel, necessidades – que se vive. A tua perspectiva é que me parece ingénua e até, desculpa que te o diga com franqueza, algo paranóica, pois metes cunha e tráfego de influências no mesmo saco da corrupção. São coisas diversas, meu caro. Por isso te digo, caro cidadão: se queres acabar com este estado de coisas, não sejas bufo – sê ético o mais que puderes. E os limites da ética, como sabemos, são muitas vezes os limites das necessidades. É isso, julgo, o que o Rui Costa diz nos seus comentários. Quanto maiores as necessidades, maiores as fragilidades – o que cria, obviamente, as condições para a cedência. Por isso as palavras de Carlos de Oliveira são pertinentes e devem-se estender a outros campos da vida pública que não apenas o campo literário: ou a malta resiste ou, perante as necessidades, cede. É uma espécie de tortura que a Inês ilustra com bastante propriedade: passas a vida a comer porrada social porque não queres ceder, não queres ceder à cunha, não queres pedinchar, comes e comes e comes, pões o estatuto à mercê da porrada, levas porrada de todos os lados, não arranjas emprego, não arranjas trabalho, o trabalho que arranjas não é digno de um menino como tu, que estudou, é formado, dizem os teus pais, vê bem, até dos pais levas porrada, afinal por que trabalharam eles tanto para que pudesses ter um curso, pimba, pimba, pimba, vais crescendo a levar porrada… Mas espera lá, ó Lage, estás desempregado? Queres emprego? Foda-se, eu arranjo-te trabalho facilmente nas obras. Estás disposto a isso? Até podemos ir para as Caraíbas trabalhar na construção de hotéis. Portanto, a ética do Costa não é «uma ética de merda». É antes a ética da vida, da vidinha, dessa vidinha que não se confunde com as boas memórias da vindima na companhia de nossos avós (também as tenho pá!). É a ética de que fala Carlos de Oliveira: quem tem a barriga cheia não tem tantas necessidades por satisfaz. Termino com uma citação, agradecendo a todos os comentários: «O que sabemos da fome vem da boca dos que estão saciados; grande saber não será». Ezensberger, o tal que, segundo Adília, anda muito chateado com o mundo mas feliz consigo próprio. Estará a ironia a votação para as 7 maravilhas?

 
At 11:22 da manhã, Blogger hmbf said...

P.S.: A parte do meu post que te indignou, a mesma que julgo ter sido treslida por ti, ou lida de forma parcial, coloca a questão da seguinte maneira: «No entanto, não será também assim na política, no meio universitário, no mundo empresarial? Temo que a resposta só possa ser positiva. Desafio quem quer que seja a dizer-me o nome de um presidente ou ex-presidente qualquer, de um ministro, secretário de estado, etc, que tenha um filho no desemprego.» Porquê a obsessão com a política? Podemos ir para o meio universitário e para o mundo empresarial. Somos um país pedinchão, o que faz de nós um país de pedinchões. Ponto final.

 
At 2:52 da tarde, Anonymous ruilage said...

Isto assim já é demais: acusas-me de tresler os teus posts, e fazes o mesmo aos meus comentários. Não fui eu que trouxe à baila a corrupção, foi o Rui (vai ver atrás). Aliás, eu próprio confessei (cf. supra) que extrapolei a partir de uma passagem do teu texto! Quanto a "paranóico", Henrique, é apenas a palavra que encontraste para significar, neste caso, politicamente incorrecto, pelo que te agradeço. Depois incorres em contradição, quando escreves que "os políticos possuem especial relevância neste processo, na medida em que ocupam cargos públicos e, por isso, deverão ser os primeiros a dar o exemplo do que julgam ser ético ou não", para um pouco à frente afirmares que "se queres acabar com este estado de coisas, não sejas bufo – sê ético o mais que puderes". Mas em que é que ficamos? É a velha treta de sempre: os de cima têm que dar o exemplo, nós, os de baixo, nem por isso - ou SÓ quando os "de cima" se resolverem a fazê-lo. Muito cómodo, não é? Por um lado, apelas à responsabilidade e ética individuais, por outro, dizes que os políticos é que devem dar o exemplo, e, para cúmulo, não um exemplo de ética "tout court", mas um "exemplo do que JULGAM ser ético ou não"! Fantástico. Quanto à obsessão com a política, ó Henrique, por favor: tudo é política. Todos esses meios de que falas são orientados pela POLÍTICA, a tal arte (ciência, dizem alguns) da "coisa pública". Portanto, a moral desta história parece ser: pedinchões de Portugal, uni-vos (and take over)!

 
At 12:33 da manhã, Blogger etanol said...

O "discurso de um filho-da-puta" do Alberto Pimenta é uma reflexão séria e profunda sobre como funcionam os diversos meios em Portugal. Existem grandes e pequenos filhos da puta e etc...O " Cachecol do artista" do Luiz Pacheco também é um texto de referencia, onde se pede tudo no limite.Bom, como sou mulher é melhor não andar à pedrada porque as mulheres, sabe se lá porquê, são boas para apedrejar, devem ser de vidro. O Fag afirma que somos todos culpados, entendo, mas a culpa nunca ajudou a resolver nada. Se calhar temos todos responsabilidades perante o estado do país, nascemos e fazemos parte dele. Sinto-me no conficionário: por minha culpa ainda vou tendo um telhado, o meu caschecol familiar fofo e quente, estou sem emprego desde 2002 a viver de biscates e pedinchinces, é humilhante e sufucante, antes dava aulas aos miúdos na idade da ormona, uma violência que prefiro nem falar, mas agora nem isso se arranja; ainda não fui parar debaixo da ponte, o que pode acontecer a qualquer momento, a decandencia, e depois a unica solução será abrir mesmo a perna, dar o cu para receber qualquer coisinha, umas cunhas por exemplo. E para isso nem é preciso curriculo, ir para o ataque ali na rua à noite, o que interesa é mesmo dar o que se tem, o corpinho. Posso sempre regressar à casa de deus e ingressar num convento, mas isso já não se usa no séc.xxi, em vez de ir para debaixo da ponte, não sei, qual é a vossa opinião?
Maria João

 
At 2:43 da manhã, Blogger Vida Involuntária said...

Maria João,

Gostei do teu comentário, forte e pertinente.È um discurso que valoriza um certo dizer feminino, pois em vários blogues que às vezes percorro, os comentários e posts "delas" são um misto de vacuidades para/poéticas e servilismo "sedutor" e coisinhas "in".

Se calhar estás desempregada,porque um tal senhor influemte telefonou a outro, que tinha o filho "ao alto", e o rapaz passou-te a perna, mesmo tendo menos currículo do que tu....
Há anúncios de Concursos, cujos lugares já estão no papo de alguém. Ainda o Mariano Gago falou, há tempos, no "Prós e Contras" que essa cena dos Concursos nas Universidades, tinha que ser clarificada.

Henrique, desculpe, mas acho tristíssima essa da Ética ser subsidiária da Necessidade. O que diz pode ser "realista" mas a nível ético é pelo menos, de um grande cinismo, para não dizer coisa mais feiota, atendendo a que o "cinismo" é uma atitude filosófica, que respeito. Porque o verdadeiro cínico conhece, no seu íntimo, o verdadeiro filão arterial do verso e do reverso.

"Quem não põe a Vida de acordo com o Pensamento, acaba por pôr o Pensamento de acordo com a Vida".
Adivinhe quem disse.Um "estóico", claro.É que tenho isto escrito numa agenda dos meus teen. E orgulho-me disso.

Logo, chamem à Ética outra coisa.

(Maria João, como há 15 Movimentos do "Não,all the sperm is sacred" , pelo menos até 11 de Fevereiro, não devem faltar verbas, trabalho, "instalations" e "performances", para empregar muita gente. Mesmo que te custe, o que acredito, sempre podes pôr umas Madonnas do Caravaggio a chorar pelo "sperm"....a bom preço.)

 
At 10:35 da manhã, Blogger hmbf said...

Inês: Você acredita em Deus? Eu não. Por isso julgo que a ética é subsidiária das necessidades. Você acredita em valores morais absolutos e universais? Eu não. Por isso julgo que a ética é subsidiária das necessidades. Você pensa que o que é moralmente correcto não varia no tempo e no espaço? Eu estou convencido de que varia. Por isso julgo que a ética é subsidiária das necessidades. A moral não é independente do contexto histórico e cultural em que se interpreta, por isso mesmo a ética é subsidiária das necessidades. Por isso mesmo ainda discutimos a despenalização da IVG e achamos obsoleta a discussão num país europeu no séc. XXI. O que foi moral ontem, pode não o ser hoje; e o que é hoje moral, poderá vir a ser, no futuro, a vergonha de todos nós. O que dita isso? As necessidades. «Quem tem fome, até os filhos come». Adivinhe quem disse isto. Um sacrílego, claro.

Maria João: Eu também tenho o meu telhado, seja ele de barro ou de vidro. Todos temos os nossos telhados. Não os tivéssemos, iríamos mesmo para as Caraíbas construir hotéis. 

Rui Lage: Ok. Não há nada a fazer. Eu digo que não só no mundo da poesia verificamos pedinchice, mas que temos fortes razões para desconfiar que o mesmo suceda nos mundos da política, empresarial, universitário, etc. Tu não achas isto razoável, chamas-lhe «o catarro da demagogia» embora reconheças a actualidade das palavras de Carlos de Oliveira (!). Eu desconfio que os parentes das pessoas mais influentes, instaladas e poderosas têm muito mais facilidade que as outras em aceder ao emprego. Tu não achas isto razoável, chamas-lhe «a puta da demagogia» – porque o teu pai é presidente da CCDR-N e tu estás desempregado! E daí? O meu pai é comerciante e eu estou empregado. Isto prova alguma coisa? Eu tento explicar que o meu desafio não é uma asseveração, é uma dúvida, uma desconfiança. Tu extrapolas «sobre um enorme equívoco que existe hoje na sociedade portuguesa» como se esse equívoco fosse meu, eu que aqui dei voz, uma lástima!, à puta da demagogia e ao catarro da demagogia. E depois há esta frase maravilhosa: «É que não são as figuras que ocupam lugares cimeiros na condução do rumo do país (que por acaso nem rumo chega a ter) aquelas que se podem dar ao luxo da "cunha" e do tráfico de influências». A frase é tua, não é do Rui Costa. Tu é que falaste em “cunha” e tráfico de influências, misturando-o com «manobras e estratégias» no funcionalismo público, generalizando incautamente o comportamento dos «chefões da coisa pública que arranjam tachos para toda a gente» (a princípio particularizaste com um exemplo pessoal, para depois generalizares desta maneira! – mas para ti isto parece razoável, nada demagógico, correctíssimo), para acabares com apelos à denúncia (Acho bem! Por que não uma nova PIDE para tratar destas coisas?). Achas isto politicamente incorrecto? Eu não. Todos os dias ouço conversa dessa nas tascas aqui do bairro. Agora explica-me lá essa contradição em que eu incorre, porque, sinceramente, não estou a ver. Nem é que tenha alguma coisa contra a contradição, a realidade é ela mesma contraditória, ambígua, absurda. Mas pronto, explica-me lá, em função da lógica dos teus critérios hermenêuticos que contradição há em sublinhar as especiais obrigações dos políticos nesta matéria (são eleitos, vão a votos, não estão sós no processo, tenho isso por adquirido) e estar contra esse clima pidesco de denúncia e bufice contrapondo-o à obrigação ética pessoal. Quando digo «sê ético o mais que puderes», digo-o pensando em todos os cidadão, ocupem os cargos que ocuparem. Como tu bem sabes, não ser especialmente ético não significa ser criminoso. A denúncia de nada serviria. Já dei exemplos atrás. De que me serve denunciar a suposta falta de ética, por exemplo, de um Presidente da Câmara que empurra, tanto quanto pode e nunca em desacordo com a lei, o seu filho para o suceder. O rapaz chega a presidente de uma jota local, o pai abre-lhe o caminho para as concelhias, o gajo torna-se deputado, vem para a CM como vereador, o senhor presidente facilita-lhe a vida na vereação dando-lhe todas as condições para um excelente trabalho, a comunicação social dá um jeitinho, os toscos vão lá pôr o voto. Queres denunciar o quê? Podendo haver aqui muita coisa pelo meio que não é aprovável do ponto de vista ético, nada há que não seja legítimo. Agora não crês tu que de facto os de cima devem dar o exemplo? Olha, experimenta dar aulas e chega sempre atrasado. Logo vês o respeitinho que mereces dos teus alunos. Mas isto, para ti, é obviamente uma treta. Por isso não metas nas minhas mãos palavras que a minha boca jamais diria. Tu interpretas assim: «Por um lado, apelas à responsabilidade e ética individuais, por outro, dizes que os políticos é que devem dar o exemplo, e, para cúmulo, não um exemplo de ética "tout court", mas um "exemplo do que JULGAM ser ético ou não"!» Eu digo assim: sê ético o mais que puderes (isto cabe a todos, os políticos também são gente, a todos indiscriminadamente, ressalvando as especiais obrigações dos mestres, dos pais, dos políticos, das pessoas que estão em cargos de decisão importantes, pois essas têm, sem dúvida, sobre si o ónus da exemplaridade. Portanto, a moral desta história parece ser: somos indivíduos, mas nem tudo é política. Na esfera privada fazemos coisas que não são políticas. Dizer que tudo é política nega a própria política. Mas isto é que é a puta da demagogia a falar!

 
At 11:48 da manhã, Blogger FAG said...

Isto está a filosofar-se bastante. Eu também não acredito na ética sem a necessidade. O Rui Lage acerta em cheio quando diz que há uma Ética para todos. Claro que há, é a que o poder dominante pretende impor. Mas essa Ética com letra grande é uma abstracção e uma aberração, porque na vida real há éticas, entre as quais a mafiosa, que está a impor-se assustadoramente e já abrnge o comportamento dos Estados mais fortes: o que são os «castigos», as «retaliações», as «propostas irrecusáveis» dos países grndes relativamente aos pequenos que não se portam na linha da Ética dominante? Quem diz Ética diz política...

 
At 11:51 da manhã, Blogger etanol said...

Eu tenho vergonha de estar desempregada, abrigada pela família aos 37 anos e ir vivendo dos biscates que apanho. Acho que tudo se deve ao facto de ser murcona, como se diz aí no Porto, sou mesmo uma otária. Vi, tem toda a razão,tenho de me mandar para a vida, para o ataque, umas madonas para o petrólio divino ou algo assim.É claro que não me dão nada por causa do telhado da família que me abriga, como não consigo abrir a perna e sou otária, não tenho interesse nenhum. Uma mulher com inquietações espirituais no séc.xxi em Portugal só pode ser murcona, ainda por cima existe sempre em cada esquina um machinho qualquer com o orgulho ferido a querer descarregar as suas frustações em cima de otárias, um belo prato prato para encher a barriginha de alguns. Tenho recebido todo o tipo de propostas no meio da humilhação, lembro-me agora de um galerista alemão ao qual mostrei o meu trabalho em 2003. Ele relatou-me a sua paixão pela caça, tinha uma propriedade onde onde organizava caçadas a javalis e depois vendia a carne dos bichos para ter dinheiro para apoiar artistas novos na galeria. Os alemães são engraçados, vêm as portuguesas sempre como potenciais mulhersinhas, têm lá muitas a servir à decadas. Bom, vou ter de abrir a perna, porque já vou estando fora de prazo e qualquer dia já ninguém me quer para nada - quem é otário casa com cristo, anda aqui para ser morto.
Maria João

 
At 11:55 da manhã, Anonymous ruilage said...

Desisto, Henrique, desisto, de todo. Já percebi o que havia a perceber. Bufos e PIDES, dizes tu, não é? Eis portanto o país da trapaça no seu melhor. Os cunheiros deste país são-no por vocação e talento. Congratulam-se mutuamente. Afinal, não há nada de mal numa cunhazita, nem de resto há nada que possamos fazer quanto a isso, não é assim? Olha aquele é que foi esperto! Se não os podes vencer, junta-te a eles. Denunciar a cunha!!!??? Onde é que já se ouviu falar em tal coisa!!!??? Ah seu bufo, a querer uma nova PIDE!

Misturar corrupção com cunha!? olha a loucura!!! Mas que é isso!? Corrupção é só quando há notas debaixo da mesa! E de resto, quem mete cunhas é só a malta com grandes talentos e habilitações, somente precisada de um empurrãozinho... Os medíocres não metem cunhas, não senhor. Ora passa pela cabeça de alguém pensar que alguém que mete uma cunha está a tirar o emprego a um pobre diabo eventualmente com mais méritos e capacidades...? Qual quê! Ou a passar à frente do pobre diabo com uma doença terminal que não tem cunha o pobre diabo em estado terminal que a tem...? Nada.

Pois olha, para mim, cunha É CORRUPÇÃO: corrompe, por um lado, as regras ÉTICAS da sociedade, o fair-play, a justiça, e, por outro, corrompe eticamente aquele que a ela recorre. Ponto final. Não há nada a fazer, de facto.

 
At 1:13 da tarde, Blogger hmbf said...

Ó Rui Lage, desculpa lá mas estás a dar-me vontade de rir. Ou eu estou a falar chinês ou não sei falar ou tu, de facto, és teimoso até ao osso. Não há mal nisso, eu também sou. :) Repara bem: tu dizes que tudo é política, mas que é demagogia dizer que são as figuras que ocupam lugares cimeiros na condução do rumo do país aquelas que se podem dar ao luxo da "cunha" e do tráfico de influências (sem que eu tivesse dito minimamente isto), para depois vires dizer que a «cultura da "cunha", os "arranjinhos", os telefonemas "a resolver", resultam - Ah se resultam! - mas é ao nível, sobretudo, do funcionalismo público mais anónimo, das autarquias mais "resguardadas" (pela interioridade), das junta de freguesia e por aí fora». Mas estes últimos não fazem parte do mundo da política? Por que terás tu cingido a minha dúvida às «figuras que ocupam lugares cimeiros na condução do rumo do país», quando eu falei «na política, no meio universitário, no mundo empresarial» e em «ex-presidente qualquer (pode ser de município, junta, o que quiseres), de um ministro, secretário de estado, etc (neste etc. cabe tanta coisa)? Se isso não foi tresler, o que foi? Basicamente, chamas demagogia ao que tu próprio acabas depois a fazer quando apontas os «chefões da coisa pública do interior» como a pior das escumalhas que para aí há. Não haverá chefões da coisa pública do interior honestos? Mas não queres perceber o óbvio: se o meu pai quiser empregar um afilhado, tem todo o direito de o fazer. O afilhado aproveita a cunha, o meu pai emprega quem quiser. É um empresário independente, autónomo, emprega quem quiser, dá cunhas a quem quiser, e isso não é corrupção. Nos municípios e noutros cargos públicos, sob o pretexto da confiança emprega-se muita “gente de confiança” legitimamente. Tu sabes que é cunha, mas não há corrupção. A cunha é aí legitimada pela lei que permite que essas coisas se façam. De resto, no teu discurso só encontro a demagogia que me acusas. Foges ao essencial, esquivas-te às questões fundamentais, treslês e não queres admiti-lo. Por exemplo, quando dizes isto: «Pois olha, para mim, cunha É CORRUPÇÃO: corrompe, por um lado, as regras ÉTICAS da sociedade, o fair-play, a justiça, e, por outro, corrompe eticamente aquele que a ela recorre.» Mas a cunha é corrupção por de facto sê-lo ou só enquanto o Rui Lage a interpreta? E que coisa é essa das regras éticas das sociedade? Há sociedades onde é ético roubar, mediante certas circunstâncias. Sabias? Há outras onde até é ético apedrejar pessoas até à morte. Sabias? Na nossa sociedade é ético – entenda-se moralmente aceitável – aproveitar oportunidades, a que tu chamarias de cunha e corrupção, sem que isso ponha minimamente em causa a idoneidade das pessoas. Já dei exemplos. Queres mais? Mas agora não te vás embora, não te livras de uma coisa. Diz-me lá, tu que és pela denúncia: quantos desses chefões que tu dizes tão bem conhecer e tão bem saber dos seus métodos tu já denunciaste? Quem são eles? Onde estão? Que fizeram? Tu dizes que os conheces, que sabes o que eles fazem, que devemos denunciá-los. Pois agora exijo-te que o faças. Denuncia-os. Diz-me lá quem são eles, onde estão, o que fizeram. Já foste à judiciária? Não vás. Denuncia-os aqui, homem! Quero saber quem eles são. Tu, ó denunciante, abre-nos lá os olhos e dá-nos nomes!

 
At 1:25 da tarde, Blogger FAG said...

O depoimento da murcona otária Maria João é uma obra-prima de sátira corrosiva. De acordo, os alemães que se fodam.
O Rui Lage agora está a ceder à puta da demagogia. Alguém disse aqui que a cunha e a corrupção eram coisa boa? Só se disse, de todas as maneiras e feitios, que o pobre não tem dinheiro para resistir a isso e que, para sobreviver, tem de recorrer a essas infâmias que os políticos e os poderosos, de barriga cheia, não erradicam. Uma barriga vazia pode alimentar-se de Ética?

 
At 1:53 da tarde, Blogger hmbf said...

Nem mais, fag. Mas acrescento: os políticos e os poderosos, de barriga cheia, não erradicam essa infâmia porque lhes dá jeito que ela prevaleça.

 
At 3:42 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Vocês falam de um mundo que desconheço. Um mundo onde a cunha corrompe e tal, onde há éticas e demagogias e outras coisas extremamente dignificantes. No puto de mundo onde vivo as mulheres choram desesperadas porque estão grávidas e não sabem onde desencantar mais 50 contos para infantário. Aqui diagnostica-se um cancro e a operação salvadora da vida demora 6 meses e já não vai a tempo.
Digo mais, qual de vós tendo um filho doente nos braços não era capaz de fazer todos os telefonemas que se lembrasse e até dar o cuzinho ao director do hospital se isso lhe salvasse a vida?
Mundo perverso desumano e desenvolvido onde a igualdade é palavra desprovida de significado. Mas isso é claro são males de pobres mal formados que nunca leram kafka, até porque depois de 14 h de trabalho já nem para foder há pachora.

Aurora Silva
Ps: desculpem-me a brutalidade das palavras decorre da brutalidade dos dias.

 
At 3:58 da tarde, Blogger hmbf said...

Aurora, tudo certo. Mas esse «falam», assim no plural, parece-me muito injusto depois de tudo o que escrevi.

 
At 4:13 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Esforcei-me por fazer incidir a conversa no seguinte:

- é mais fácil ser “ético” com a barriga cheia.
- é mais difícil ser “ético” com a barriga vazia.
- quem tem a barriga cheia (leia-se inteligência, cultura, etc.) tem mais responsabilidade.
- quem afirma coisas como estas não o faz por acreditar ser uma encarnação delas, como se o facto de elas se produzirem no seu corpo significasse que o seu corpo é rijo e valente como um dia de sol (em Tavira).

Aurora:
Ninguém está imune às necessidades, e a ética pertence ao mundo da sobrevivência e não a um qualquer mundo platónico de ideias giras (como tu bem percebes). No plano da ética não há lugar a condecorações e quem ache que tem mais mérito, no plano ético, é porque não entende que o pedaço bom que lhe calhou só vale alguma coisa se for transformado, pela acção, noutra coisa que faça do mundo um lugar objectivamente menos injusto. A ética não vale nada como critério de avaliação mas deve servir para muito como princípio de acção.

Rui Costa

 
At 4:14 da tarde, Anonymous Anónimo said...

e tens toda a razão :(
desculpa
Aurora

 
At 4:22 da tarde, Blogger hmbf said...

Rui Costa, completamente de acordo.

 
At 4:46 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Rui, é claro que concordo contigo, acho até que já falamos pessoalmente sobre este assunto. Eu não defendo a cunhice, nunca fui lambe –botas. Só me parece que não fica nada mal admitir que quando a necessidade aperta, somos todos capazes de coisas, digamos, muito humanas.
Aurora.

 
At 4:55 da tarde, Anonymous homem da cave said...

Será mais honesto o autor do blog publicar a lista de presidentes de Câmara, secretários de estado, etc., com filhos empregados à custa do exercício de cargos públicos. Pessoalmente não os conheço, portanto... Francamente, este desafio parece-me demagogo, ao nível de qualquer motorista de táxi, surpreendente por vir do responsável de um blog que revela inteligência. Há dias assim...

 
At 5:19 da tarde, Blogger etanol said...

Fag, obrigada, prometo um post sobre as german wings. Aurora, se fizeres as malas para agarrar um oportunidade diferente,não deixes de ser como és, não te deixes comer porque gente bruta há em todo o lado. Não deixes de ter essa tua garra, tu sabes como ninguém que nestas questões a realidade está sempre à frente da ficção, ultrapassa-a. Rui: acho que tens umas ideias giras, estou à espera das acções.

 
At 5:30 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

Henrique,
Reveja as suas terminologias, pois ÉTICA E MORAL são coisas diferentes.
A Ética já vem do Paganismo,- o Deus judaico-cristão não entra neste campeonato. Se bem se lembra,ÉTICA não tem nada a ver com "Aborto" e Moral, que esta última pressupõe dogmas e preceitos.
Direi mesmo que quem não tem Ética são as bestas que querem que um país inteiro fique subjugado a uma ideia arcaica e pacóvia de fertilidade humana e de identidade procriadora.

Sugiro aos "ideólogos" que aqui vêm para reverem conceitos básicos e umas "ideias lindinhas" que até nem são platónicas e depois "iluminem" a humanidade...Que por mim, não curto sítios de confusão mental, que não levam a nada. O "economicismo" - mesmo a nível de relações humanas - e o "utilitarismo" que são o que substitui nas mentes pouco exigentes, os afectos, o saber e a ÉTICA, não me interessam, de todo.

Entretanto vou achar ético: assaltarem a minha casa, violarem a minha filha,contribuir por subscrição para as mamas novas da minha vizinha,difamarem o meu nome, dar 500 euros ao arrumador e assim por diante.AS NECESSIDADES DEVEM SER RESPEITADAS!!!

Não sejam ridículos!!!E já agora apresentem a Escola Filosófica e o corpo teórico que sustenta esse "arranjismo", para além obviamente do mapa de Porugal e do excelente "Discurso sobre o filho da puta",do não menos excelente Alberto Pimenta, que em boa hora lembrou a Maria João.

Vi.

 
At 6:02 da tarde, Anonymous Anónimo said...

etanol:
eu não pretendo que tu me reconheças autoridade para dizer o que digo porque eu não acho que ninguém precise de autoridade para falar senão a que vem da sua própria convicção. quanto ao lado do exemplo, não deves esperar que os outros façam para tu bateres palmas a seguir. imagina que eu sou um fraco, um gajo altamente inseguro, cheio de reumatismo na cabeça – não poderei por causa disso acreditar, genuinamente, que a ética que interessa é a da acção ? E imagina ainda que eu tento agir e ajo mas os resultados são todos ínfimos ou insignificantes – perco o direito de pensar, de exprimir os meus pensamentos; torno-me um gajo “inético”? (a ética também existe no mundo dos fracos, dos gajos altamente inseguros, cheios de reumatismo na cabeça).

Rui Costa

 
At 6:32 da tarde, Blogger hmbf said...

homem da cave: Quem falou em denunciar? Fui eu? Quem é pela denúncia? Sou eu? Quem disse que os filhos dos presidentes, etc, foram empregados à custa do exercício de cargos públicos? O que eu disse, e repito, porque você não soube nem vai querer saber lê-lo foi isto: «Desafio quem quer que seja a dizer-me o nome de um presidente ou ex-presidente qualquer, de um ministro, secretário de estado, etc, que tenha um filho no desemprego.» É um desafio retórico, reconheço, mas não é demagógico. É do tipo daquele que Michael Moore fez quando foi perguntar aos congressistas quantos dos seus filhos estavam na guerra do Iraque.

Inês: Sei muito bem o que é Ética, não preciso de rever nada. Você é que precisa de rever algumas coisas, sobretudo depois dessa afirmção eloquentíssima: «A Ética já vem do Paganismo,- o Deus judaico-cristão não entra neste campeonato. Se bem se lembra,ÉTICA não tem nada a ver com "Aborto" e Moral, que esta última pressupõe dogmas e preceitos.» Não lhe sugiro o Peter Singer nem que veja o telejornal da SIC hoje à noite, mas vou citá-la, a propósito da questão da relação entre necessidades e ética: «O filho do médico - que os médicos jovens,já são de outro campeonato (não generalizemos)ou do político desempregado, tem outros "custos" psicológicos que não tem o filho ou filha dos "humildes". É o "falhado", o "chulote", o que "não-quer-fazer-nenhum", o que "não saiu à Família". (...) Não podemos ser simplistas, nem esquemáticos demais. Porque uma coisa é lavar pratos em Londres ou em Hamburgo e outra lavá-los na tasca em frente ao consultório do papá. Quanto à trafulhice generalizada, em todos os sectores, no portugalinho, como você assinala no seu post, a propósito da "coisa" artística, já está mais que demonstrada.» E por aqui me fico, são palavras suas. Bem mais sábias que as dos outros, está de ver. Que extraordinário volte-de-face!!! Já agora, Inês, você sabe discutir alguma coisa sem pessoalizar e partir para a ofensa? E não me venha chamar de virgem ofendida, que depois do que escreveu sobre mim e sobre este weblog até lhe ficaria mal.

 
At 7:13 da tarde, Blogger etanol said...

Sim Costa, toma lá um beijinho ético.
Maria João

 
At 7:22 da tarde, Blogger Vida Involuntária said...

A dicotomia Teroria/Prática, como outras: Razão/Emoção;(o Erro de Descartes) Masculino/Feminino; Belo/Feio; Saúde/Doença,
cada vez estão mais apagadas e inaplicadas, pelo menos, no Ocidente.
Logo, ética teórica e ética prática é uma dissociação não pertinente. Uma não existe sem a outra.Só em joquinhos de palavras.

Por isso mesmo - para acompanhar a evolução do Conhecimento e do Saber Fazer, os nossos jovens "performers": músicos, actores, cantores, bailarinos, etc, foram fazer teses de mestrado e doputoramento. Para saberem reflectir e teorizar sobre a sua prática e profissão artística. E assim não ficarem uns ignorantes com um "dom".
Os mestrados e doutoramentos não se fazem só para armanço e progressão na carreira.

O problema é que instalada nas Facs e nas Escolas Superiores, com cunhas de opus day e aventais ou dos Partidos, ou dos apelidos, está uma fauna incompetente e sem ética.
E os que regressam depois do grau feito, são objevcto das maiores traições, rasteiras e avinagraadas invejas.
Viva Portugal!Mesmo em conversas de táxi...

 
At 7:58 da tarde, Blogger hmbf said...

É sempre bom ter taxistas com quem falar e aprender. Quanto lhe devo?

 
At 8:29 da tarde, Anonymous homem da cave said...

«Desafio quem quer que seja a dizer-me o nome de um presidente ou ex-presidente qualquer, de um ministro, secretário de estado, etc, que tenha um filho no desemprego.» Ok, na sua perspectiva isto não é um apelo à delação mas sim um mero exercício de retórica. Compete-me aceitar. Mas retórica pobre e algo trauliteira.
«Quem disse que os filhos dos presidentes, etc, foram empregados à custa do exercício de cargos públicos?» Se não era isso que estava implícito no seu desafio, porquê invocar apenas titulares de cargos públicos? Porque não também motoristas de táxi? Ou o Belmiro de Azevedo, cujo filho também foi empregado pelo pai? Está mal? Não sou o defensor oficioso dos titulares de cargos públicos mas há que ter cuidado com determinadas afirmações pouco sustentadas em factos conhecidos e notórios, que não passam de meras meras suposições, tentando desesperadamente que a realidade case com as suas afirmações. Quando os factos são especulativos não há grande base para discussão.
Quanto aos poetas mendigos havia muito a dizer. Pena que o remate do seu post tenha desviado o tema principal...

 
At 9:06 da tarde, Blogger hmbf said...

homem da cave: Quanto à primeira questão, está no seu direito considerar o que quiser. Óptimo que não tenha resistido a entrar na conversa, mesmo sendo ela pobre e algo trauliteira. Gosto de trocar palavras com gente da sua estirpe.

Quanto à segunda questão, parece-me que você não leu o que eu disse. Mas como eu já havia referido, você não vai querer ler por mais que eu repita em letras grandes: «No entanto, não será também assim na política, no meio universitário, no mundo empresarial?» Você só está a ler o que lhe interessa e não o que está escrito. O desafio remete para pessoas com influência, poderosas, em cargos de decisão públicos porque os privados não me interessam. Como já disse e repito, os privados empregam quem quiserem, quando e como quiserem. O problema é deles. A ética para eles, em sociedades capitalistas, é, como sabe, muito mais elástica. (estou a ser irónico, mas não andarei longe da verdade)

Agora veja bem se me entende: a minha desconfiança prende-se à ideia de que quanto mais próximo do poder mais facilmente se acede a um cargo, seja ele público ou privado. Isto parece-me óbvio, não sei por que há-de causar tanta polémica. Já dei vários exemplos. Posso dar outro. Vamos imaginar que o seu pai é presidente, vá lá, de um banco; isso faz com que ele conheça imensa gente; logo, abrem-se-lhe as possibilidades relativamente a oportunidades de todo o género e feitio; até pode um cliente, sabendo que você está desempregado, chegar ao pé do seu pai e dizer-lhe: «eh, pá, diga lá ao rapaz para passar pelas nossas caves que precisamos de provadores de vinhos»; você vai e fica. Está a ver a coisa? Agora não me acuse a mim de afirmações pouco sustentadas. Não fiz nenhuma. Zero de zero. Só deixei no ar uma dúvida que me assola. Mas o Rui Lage deve saber muita coisa sobre isso, pois ele próprio afirma que sabe bem do que fala. Eu sei o que vai aparecendo nos jornais: Fátima Felgueiras, Isaltino, o tal Ministro Martins da Cruz, Avelino F. Torres, etc… São esses casos que me levam a crer que não é apenas no mundo da poesia que o encosto dá resultado.

Numa coisa concordo consigo, desviámo-nos no essencial. Culpa minha, que quis que o assunto não fosse exclusivamente literário. Confesso: ando um bocado fartote.

P.S.: Ah! Que saudades de um post com comentários! Obrigado a todos.

 
At 12:13 da manhã, Anonymous Anónimo said...

É preciso varrer a escumalha salazarista e comunista da engrenagem, para que se possa voltar a respirar no país. Poupem-se só as pessoas.

 
At 12:57 da manhã, Blogger LB said...

Ohhh... já acabou? estava a gostar disto!

Se um bom escritor ou poeta nasce de cunhas, qual é o mal? Não tem mal nenhum. Mas é muito raro. Assim como é muito raro um filho de rico fazer fortuna.

Acho que o Henrique diz o essencial: Certo é que bater a portas, saltar pelas janelas, desbravar caminhos e derrubar muros nunca foi para quem pode mas antes para quem quer.

Portanto, isto da vida tem piada é a correr e combater, é isso que forma o espírito. Gogol tem tiradas fabulosas no Almas Mortas (obrigado FAG) sobre isto. Há um agricultor rico (porque muito disciplinado e trabalhador) que diz ao Tchitchikov (que lhe pede empréstimo) que se ele também quer ser rico, a melhor ajuda que ele lhe pode dar é, não lhe dar dinheiro nenhum. Só assim ele dará valor ao dinheiro e conseguirá amealhar.

Eu cá também trabalhei num restaurante aos fins de semana durante um ano (e em vindimas). O meu primeiro emprego a sério foi-me oferecido no último ano da universidade por um professor meu (uma figura conhecida, político e administridador de grandes empresas) que por acaso era presidente de um instituto. Escolheu-me com base, unicamente, no mérito. Mas quando fui para essa organização, senti uma necessidade de mostrar que não era "o menino do presidente". Senti todo o estigma da "cunha". Nunca fui maltratado (pelo contrário) mas senti que o meu ponto de partida era um handicap contra outros colegas que tinham concorrido em concursos com centenas de candidatos. Quando esse presidente saiu, o meu estatuto lá dentro regressou à estaca zero.

Por isso, e eu que não sou mau tipo, acredito numa justiça.

Acho que os medíocres, mais tarde ou mais cedo pagam pela sua mediocridade, e o seu lugar ou estatuto, é desfeito e não sobra nada. Os exemplos conhecidos abundam. Também concordo com quem aqui disse que o problema é mais grave quanto mais medíocres são os meios. A minha experiência diz-me isto. A minha experiência também me diz que a nova geração é diferente. Tenho amigos a trabalhar (e eu próprio) e sinto isso completamente. Há mais abertura, mais honestidade. Os trabalhadores são mais qualificados, têm uma cultura mais arejada. A penalizaçõa social por se ser um corrupto, é grande, e é cada vez maior. Há algo que o dinheiro ou as cunhas não compram, que é o respeito dos outros. Há homens que desesperam para serem levados a sério. João Jardim, por exemplo, é um deles. É o rei deles. Vive isolado, num mundo faz de conta. Sabe que fora desse mundo, não vale nada. E é por isso que esperneia tanto. Podemos ir descendo na escala. De Fátimas Felgueiras a Avelinos Ferreiras Torres, todos existem em microcosmos, e fora desses microcosmos, não são nada. E sabem-no. E o destino deles será sempre o esquecimeno e a miséria.

Quanto aos poetas, lá está a tal merda de que eu falo... qual é o interesse de publicar poesia ou livros só para oferecer a amigos, e essa poesia nem ser lida? Não tem interesse nenhum. Creio que nem o Rui Lage, nem o Rui Costa ou Henrique querem isto. Portanto que se foda. Esses tais poetas (que não sei quem são porque não percebo um corno de poesia) nunca terão o reconhecimento, o vosso reconhecimento, tal como não têm o de leitores. E o que é a tal crítica e jornais literários? É uma merda, uma abstracção qualquer.

O mais importante, nisto dos livros, é o passa palavra. Já discuti isto por telefone com o FAG no outro dia. Existem movimentos, vagas de fundo, que nem os editores ou críticos ou marketeers percebem. Um livro lê-se, ou não se lê. E concordo com o Henrique, é preciso uma justiça social porque é verdade que há pessoas que têm que se esforçar 3 vezes mais para conseguir as coisas. Não é o meu caso. Filho único, classe média alta, sou bonito, tenho sucesso com as mulheres, tenho 1:85m, emprego, biblioteca em casa desde o momento zero, tri-lingue, pais professores, etc. Isto para mim é tudo um gozo, uma brincadeira. Sei que tenho rede, que nunca passarei fome. Enho essa ausência de «realismo» na minha vida. às vezes invejo os escritores que num momento ou noutro da vida, fazem o que o Henrique descreveu: correr, bater a portas etc. Sempre me fascinaram. Tenho um amigo que fez isso, largou o curso pela guitarra. Deu-se mal, voltou passados passados 4 anos para o acabar. Acartar baldes de massa não é necessariamente inspirador. O que vos desejo a todos é as maiores felicidades, e no que poderei fazer, meterei cunhas por vocês todos sim. Um dia chegará a nossa vez. Ora não...

 

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