12.1.07

[SEM TÍTULO]

e se lá no cio acorda o sono
esse lábio incita línguas lassas
à míngua de sangue reaviva o sopro
no levante onde bóia o arco eleito –
são mãos que entornam o mar
em ressegadas laringes sobrepulsas
mas o eixo que move os peixes paira
ao longe abutre cerca o sol morrido –
e se lá seu ventre é angra escura
ânfora de escuma tragando o remoinho
se o anzol lançado fere o torso afaga
a quilha arfante zumbida de abelhas
a roxa vaga raiva e lambe o arco-íris
até que à tona morna surjam escamas
apodrecidas algas cor de lótus –
no poente dorme o arco redestenso

e se lá no céu a lua neva nós
os caninos enjaulados tornamos o véu
de alas rociadas – aurora lunular
abrindo em brios nova rota ou reta
trilha em tempo de eclipse – elipse
de luar em que deslumbra a flor do ócio

José Lino Grünewald

José Lino Grünewald nasceu em 1931 no Rio de Janeiro. Jornalista e advogado, destacou-se na imprensa como crítico literário e de cinema. Em 1957 tornou-se membro do grupo Noigandres, ao lado de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Ronaldo Azevedo. Traduziu várias obras de autores tão diversos como Walter Benjamin, Ezra Pound, Jean-Luc Godard, William Carlos Williams, etc. Organizou várias antologias e publicou, em 1987, o livro Escreviver. Faleceu em 1999.

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