3.3.07

Deus ou a água que nos foi roubada

Homenagem aos meus seis camaradas
desintegracionistas
mortos e vivos

Os meus olhos mataram a luz nos olhos de
Monique, mas Belinda vingou-se: bebeu-me o sangue
quase todo. Mesmo assim, vamos os três em bando
para lá dos doze satélites de Júpiter
fugindo a um rebanho enorme de planetóides que
nasceu da água, talvez encontremos a ideia sangrenta
de Deus que perdi na infância
(ou já foi na adolescência, à porta dos bailes?).
Viajamos com música numa ogiva preta e vermelha
como se fora uma mosca de rasgadas proporções
a ogiva foi baptizada em Plutão, nasceu do pó
tem o nome diabólico de Deus Procura-se
mas sabemos fundo: a água que nos foi roubada
vai aparecer no céu em fogo dos meteoros
as pistolas de lama são como roseiras a arder
os olhos não servem para fazermos deles foguetões.
Vejo a cabeleira de Belinda, sonho os cheiros de
Monique, e
o que sinto – rangentes – são ciúmes. Aves
destroçadas por baba de cometa, ranço de sapo
peixes metálicos que ensinem os pássaros a desovar.
Somos um trio de gestos sulfurosos
gravita-se para o fundo do passado sobe-se ao futuro
temos uma charrua longa luminosa parecida com licor de
aranhas, podemos atravessar o espaço fechado e misterioso
como um dedo. Os perfumes enfurecem-nos. Aqui,
as trevas crescem velozes, aumentam o escuro,
o titânio e o vanádio deixarão de ser brancos.
Aos olhos febris de Monique e Belinda, o pânico
pode explodir sempre, porque a luz vem dos venenos
aproxima-se a luz que rói os ossos e as pedras.
Caminha-se para onde? Talvez para um sítio onde
o sangue não se discuta, talvez para o planeta
das plantas sonâmbulas, um poço coberto de
matricárias. Agora, Monique, são os teus densos
que me matam. As flechas de césio percorrem todos os sons
esgotam todos os azimutes: de novo, o sangue
está ameaçado. Os poços submersos foram cobertos de
ferrolhos. Belinda (eternamente nua) regressou
do futuro. E, agora, percebe-se que a luz endoideceu
ou foi sugada pelo último buraco negro
que fica para os lados de Andrómeda.
Há um silêncio de cinza-chumbo a vogar
já não existem ideias carnívoras; é a luz à solta
como cães danados como a luz danada até ao ranger do cio.
A febre que venha – tenho flores de valeriana.
Hoje, as trevas venceram por dentro do caos.
E o corpo das raparigas falhou mas os dentes não.
Bailem muito em pensamento: não vou deixar morrer a luz
comigo; não me sinto suíno, sou tiranossauro.
Deus pode esperar.

Estoril – Inverno de 2002/2003

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Fernando Grade nasceu no Estoril, a 1 de Abril de 1943. Poeta e artista plástico, ficcionista e prosador, organizou recitais, dirigiu colóquios sobre poesia, fez conferências acerca de artes plásticas, realizou teatro de acção, etc. Tem também trabalhos de crítica de arte dispersos por vários jornais. Foi igualmente crítico literário e de televisão, autor de crónicas e editor. Como poeta, publicou, sob o pseudónimo de Abel Sabaoth e em nome próprio, mais de 25 livros individuais, dos quais se destaca O Vinho dos Mortos. Foi um dos criadores e teóricos do Desintegracionismo (1964-1965), considerado um dos últimos movimentos da poesia portuguesa.

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