26.5.07

Boas novas #1– Pássaros

No espaço de uma semana, entraram dois pássaros diferentes no meu atelier; lembrei-me de compartilhar isto convosco, porque o Henrique iniciou aqui a nova série dedicada a coisas positivas; acho que os pássaros que me visitaram trouxeram qualquer coisa boa que não sei bem o que é. O primeiro nem dei por ele entrar, estava calor e abri as janelas do atelier, porque lá o sol é muito forte ao fim da tarde e até liguei a ventoinha que está no tecto para refrescar esta parte da casa, faço sempre isso para o ar circular. O sacana do gato Plácido tinha aparecido também lá fora nas escadas, com os seus miados, vinha com o focinho todo sujo, com resto de uma teia de aranha, pensei logo que tinha colocado o nariz onde não era chamado e dei-lhe biscoitos. O Plácido tem andado com bom aspecto, soube depois que o vizinho do prédio ao lado lhe dá abrigo – é um vizinho peculiar, que anda a fazer um estudo para adaptar plantas tropicais ao clima português e plantou duas árvores à porta do prédio, na calçada mesmo e que agora fazem uma espécie de arco natural na entrada do edifício; ele plantou um jardim meio selvatico-tropical nos quintais do prédio ao lado, e é óptimo olhar para lá quando estou a trabalhar no atelier. O meu atelier é um privilégio sossegado para quem vive mesmo no centro de Lisboa, porque me dá a calma e o sossego de quem está no campo dentro da cidade, uma espécie de mundo à parte onde posso estar concentrada a pintar e a escrever. Lisboa tem destas coisas, é uma cidade cheia de hortas, meio saloia no seu interior, gosto muito deste lado de campo dentro da cidade; o meu quintal precisa de ser arranjado, estive com diversas obras na casa e em mim própria nos últimos tempos por isso ainda não foi possível, mas depois da visita dos pássaros acho que me vou dedicar a construir um pequeno jardim, já está na altura de cuidar daquele espaço abandonado; recentemente, limpei-o e foram remendadas as escadas de metal de acesso aos quintais, que estavam partidas e como vivo no primeiro andar, nem podia ir lá abaixo, só pedindo à minha vizinha do rés-do-chão que entretanto morreu (como dizia o Luíz Pacheco, antes ela do que eu); o quintal actualmente tem os muros derrubados devido à queda de uma ramada de um pinheiro na vizinhança e o resto de uma nespereira que está carregada de fruta – digo o resto porque a vizinha que já morreu um dia resolveu mandar cortar metade da árvore sem me pedir autorização porque lhe fazia sombra às suas flores, que coisa ruim fazer mal a uma árvore, eu ainda lhe disse que ela tinha era uma enorme sombra dentro da cabeça, mas não serviu de nada perante os factos. Bem, já estou para aqui a distrair-me com assuntos pouco positivos, vamos aos pássaros e aos seus voos. Como já referi, o primeiro nem dei por ele me entrar dentro de casa, fechei as janelas ao fim do dia, a única coisa estranha que reparei foi que a gata Lua não dormiu aos meus pés, mas isso acontece quando chega o calor, ela vai para outros cantos da casa. De manhã quando fui ao atelier, vejo um pássaro meio desorientado a voar e a pousar entre a ventoinha do tecto e uma porta do armário aberta no lado contrário; a Lua estava totalmente louca com aquele ser voador, subia para a mesa, tentava trepar as paredes para lá chegar; o pássaro, apesar de tudo cantava de um lado ao outro; perante este espectáculo, abri as janelas para o pássaro poder ir à sua vida e ele lá se libertou; durante a tarde, enquanto ouvia os pássaros a cantar lá fora, ainda pensei que algum seria aquele que por aqui pernoitou. Quanto ao segundo pássaro, ele visitou-me na quinta-feira passada, o outro tinha ficado por aqui na quinta-feira anterior. Estava de volta de um trabalho difícil, a ilustração de um poema de um amigo meu, não vos posso dizer o conteúdo do poema, nem de quem é, têm de comprar o próximo número da revista Big Ode para saberem esta parte da estória. A única coisa que vos digo para criar suspense é que a revista vai ter um suporte pouco convencional, com originais assinados e que por isso estou de castigo a escrever à mão cem vezes aquele poema com a minha ilustração. Estava a ouvir o concerto para flauta nº 1 de Mozart com um sol radioso, e pelas janelas abertas entrou um pardal, talvez atraído pela música, Mozart é mágico. A lua não estava comigo, devia estar a dormir a sesta na outra ponta da casa, ainda bem se não assustava-o, ele entrou e foi directo para a ventoinha, depois pousou na mesa, depois no chão, foi cantando e voando por cá até sair. Foi um momento tão inexplicável que fui a correr telefonar ao meu amigo que escreveu o poema, dar-lhe a boa nova e disse-lhe que se calhar o pássaro andava por aqui por causa da fruta da nespereira do quintal. Ele respondeu-me que eu tinha era muita sorte, porque ele também tem uma nespereira e os pássaros só iam lá para comer-lhe a fruta e nunca lhe entraram em casa, só teve visitas de morcegos. Fiquei triste com a resposta, mas depois pensei que deveria continuar a tarefa de copiar o poema, porque a visita do pássaro talvez estivesse relacionada com o que estava a fazer, e que seriam boas novas para ele também. Agora guardo na memória a presença das visitas destes pássaros, são momentos inefáveis, como a música de Mozart que estava a ouvir, são um voo de passagem que nos limpa a alma, nos liberta, momentos que se vivem apenas como um todo na memória. Sinto saudades do canto e voo destes pássaros e gostava muito que me visitassem outra vez – mas estas coisas só o destino é que sabe delas, nem tudo está nas minhas mãos. O máximo que poderei fazer é continuar a ouvir Mozart enquanto trabalho no atelier, e deixar as janelas abertas para entrar o ar do campo na cidade; quero mesmo arranjar aquele quintal abandonado e criar ali um jardim, para os pássaros me poderem visitar à vontade.

Maria João

9 Comments:

At 8:59 da manhã, Anonymous Anónimo said...

olha, uma coisa positiva é vir aqui e ler estes textos.

Luís Ene

 
At 12:43 da tarde, Anonymous Sissi said...

Boa ideia, Maria João, arranjar o quintal para os pássaros. A notícia vai voar por aí de ninho em ninho... um Verão cheio de chilreios te espera. Nem tudo está perdido em Lisboa!

 
At 3:00 da tarde, Blogger Luis Eme said...

Acho boa ideia...

Jardim e pássaros, combinam... embora os gatos nem sempre estejam de acordo com essas harmonias...

 
At 4:45 da tarde, Blogger etanol said...

Obrigada pelos vossos comentários e paciencia em ler isto. Pois é Sissi e Luís Eme, um jardim tem algo de harmonioso entre o natural e a natureza humana, se eu o construir neste sitio abandonado, os pássaros ficaram livres para o visitarem, como já o fazem e poderei ser eu a visita-los no exterior, eles poderam fazer ninhos nas arvores e voar por lá à vontade, porque a gata lua tem o seu territorio na casa e sente-se ameaçada com estes seres voadores, é naturalmente uma predadora. Tenho de construir um espaço harmonioso no exterior também e cuidar dele, não quero que a minha casa seja uma gaiola para passaros ou que eles por mero acaso se tornem presas dos instintos defensivos da lua.
Maria João

 
At 7:21 da manhã, Blogger Sandman of the Endless said...

Pense numa insônia... ;)

 
At 3:09 da tarde, Blogger Vítor Leal Barros said...

paciência para ler isto, joão? ainda bem que não guardaste a visita dos pássaros só para ti e a partilhaste connosco... no que me toca, tudo isto refrescou-me o dia...

 
At 4:53 da tarde, Blogger etanol said...

olá Victor, bem-vindo, já tinha saudades das tuas visitas e olha, as janelas estão abertas.
:)
Maria João

 
At 4:27 da manhã, Blogger jacqueline said...

é muito bom daqui do brasil, encontrar por acaso um texto como esse que ilumina a alma...
hoje um pardal entrou no meu apartamento que fica no 15 andar, espero que traga bons ventos a mim tambem....

 
At 10:15 da tarde, Anonymous liliam said...

pois é muito bom saber que os passaros tbem querem fazer parte da nossa vida,hoje a tarde eu estava na cozinha quando ouvi um barulho no chão fui olhar um ou uma pardal bem gordinha passeando bem bela(o)me viu saiu voando pela porta, não demorou muito denovo o mesmo pardal entrou subiu no armario meviu e saiu denovo.Espero que sejam boas vindas, paz ,amor tud de bom.

 

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