14.5.07

IGLOO DE CACOS DE VIDRO


Este fim-de-semana adquiri numa feira de velharias, por dois euros, um livro intitulado Uma Fatia de Poesia…, de um para mim completamente desconhecido Michael Ehrlich. Trata-se de uma edição de 1957, com desenhos assinados por Matos Simões e Ernesto de Carvalho (?), composta por pequenos contos escritos em português e algumas poesias na língua de Victor Hugo. Ainda não li o livro, nem sei se o vou ler, nem é disso que quero falar. Teimo apenas que não valha os dois euros que por ele dei. O segundo conto, muito curto, é sobre dois garotos esqueléticos que troçam de uma menina gorda. A menina gorda quer rir dos garotos esqueléticos que dela troçam mas não consegue, só lhe dá para chorar. Li esta coisa e lembrei-me dos igloos de Mario Merz que vi há anos na Fundação Serralves. Lembro-me que vê-los provocou em mim uma sensação que não deve ter andado longe dessa menina gorda que queria rir de quem troçava dela e não conseguiu, dando-lhe só para o choro, mesmo que fosse um choro seco, talvez o pior de todos os choros. Merz foi um dos grandes nomes da chamada arte povera (pobre), assim baptizada por Germano Celant, em 1967, por ter na sua base a manipulação de materiais desvalorizados do quotidiano. O trabalho de Mario Merz é mais elaborado do que esta visão simplista possa transparecer. Nessa exposição de Serralves os igloos misturavam néons com desperdícios de vidro, ramos de árvore com ferro, dando forma a um espaço tridimensional dúbio embora carregado de uma significação conceptual que acaba por ser o sustento destas obras enquanto arte. Lida a coisa de outra maneira, apela-se ainda a uma atitude política de ir contra a comercialização e a industrialização da arte moderna. Critica-se a suposta submissão da arte pop à sociedade de consumo e põe-se em causa o advento das novas tecnologias na criação artística. O conceito não é mau, o resultado é que, com honrosas excepções – Michelangelo Pistoletto, por exemplo –, me pareceu sempre muito pobre. Daí que, confrontado com os igloos, a minha vontade de rir tivesse sido travada pelo choro de quem diz de si para consigo: ora aqui está uma grande ideia que resulta num objecto sem jeito algum. Que os fãs do trabalho de Mario Merz não se sintam ofendidos pelas palavras singelas deste pobre escrevinhador, tão longe de pretender criticar a genialidade do que não entende como de representar o papel do pedante a debitar teorias sobre assuntos que não domina. Falo, quero dizer, escrevo meramente na condição de “espectador” ou, melhor escrevendo, fruidor. Muita da arte contemporânea tem este problema de se sustentar em grandes ideias, conceitos bastante convincentes, reflexões credíveis e persuasivas, mas resultar numa ausência de comunicação confrangedora. Não sei onde reside o problema, certamente residirá naquele que não consegue predispor-se a aceitar o conceito na sua (anti)forma final. Eu gostava de saber apreciar um objecto artístico exclusivamente pela dimensão conceptual dos materiais de que é feito, gostava de saber olhar para um igloo feito de cacos de vidro e ver nessa construção um gesto que é uma reacção «à mecanização e à hipertecnologia de uma sociedade pós-industrial desumanizada». Sinceramente que gostava de possuir tal capacidade. Não me sendo possível, continuarei, tal como a menina gorda que via apenas garotos esqueléticos nos garotos que dela troçavam, a ver cacos de vidro reunidos em forma de igloo numa grande parte das obras de referência «de um dos nomes maiores da arte povera e de um dos mais significativos criadores do nosso século».

3 Comments:

At 8:32 da tarde, Blogger etanol said...

Será falta de corpo para uma boa ideia? Será que os discursos dos artistas por vezes estão distantes do resultado final das suas obras? A da menina a chorar não entendi bem! Desenhos do Matos Simões? Caramba! é um mestre casapiano, professor nas Belas-artes, só o apanhei numa avaliação, o homem odiava mulheres, viu-me e desatou aos berros, eu fiquei cheia de medo, mas passado uma semana soube que me tinha dado um 14, vá lá, é dificil entender os malucos, tens de me mostrar essa publicação, fiquei curiosa.
Maria João

 
At 11:45 da tarde, Blogger LB said...

Porra henrique, pode ser do moscatel que estou aqui a sorver com languidez, mas esse texto captou exactamente o que senti ao ver em Sintra umas peças que, creio eu, pertenciam à exposição Joe Berardo. Adorei a parte da pintura, e algumas instalações, mas depois cheguei a uma parte que tinha apenas umas tendas, uns igloos. Havia o igloo da selva, o igloo urbano, a tenda da guerra etc. Uma pessoa entrava dentro da tenda e ouvia sons ambientes da selva, sons da cidade, sons da guerra. E era isto. uau.

O conceito era infatilóide e as tendas podiam muito bem estar nas traseiras da Decathlon. Enfim. Não fruí, senti-me apenas parvo.

 
At 9:15 da tarde, Anonymous Anónimo said...

o trabalho tá legal, mas a palavra "igloo" tá totalmente errada :D , APRENDAM A ESCREVER ANTES DE PUBLICAR !

 

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