13.9.07

OS ROMÂNTICOS E OS DECADENTES


O céu tinha sido varrido
e as Madonnas sentadas pelos prados
mostravam os seios brancos de neve e amamentavam os meninos.
Entraram na cena os poetas e procuraram as suas amadas,
cada um a sua Madonna. E as raparigas assustadas
viram-se postas em nuvens onde não conseguiam estar sentadas
até as mais angélicas, etéreas, caíam
pelos revérberos da névoa. Melancólicos,
os poetas mudaram, puseram-se a cantar virgens mortas,
fizeram do frio túmulo, da branca mortalha
o seu céu e celebraram aí as suas festas
com grandiloquentes hinos à noite –
até que um, estremecendo, levantou na cripta
a tampa do caixão: e viu horrorizado os vermes
disputarem os melhores petiscos
do corpo da amada. – Agora, todos os poetas
ficaram esclarecidos, apressaram-se a sentar
as moças sobre os joelhos e a aceitar as drogas do patrão.
Mas, com o absinto no sangue, saíam perturbados
para o ar da manhã e convertiam-se a chorar
à Madonna lá em cima, a cuja cabeceira infinita
há muito se tinham instalado os físicos com frios instrumentos.


Tradução de João Barrento.

Georg Maurer

Georg Maurer nasceu em 1907 na Roménia. Foi viver para a Alemanha em 1926, onde estudou História da Arte, Literatura e Filosofia em Leipzig e Berlim. Tradutor e crítico de arte, exerceu forte influência nos poetas da RDA depois da guerra. Publicou o primeiro livro em 1936, intitulado Vozes Eternas. Morreu em 1971.

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