24.10.07

Fragmento #57 – Colchão

Aquela garrafa de água do caramulo contínua junto da cama, passado tanto tempo até parece mania, mas não é, posso acordar durante a noite com sede, a água já não é da nascente e fui renovando-lhe o conteúdo consoante a necessidade – não podemos mergulhar nas mesmas águas, é o devir no mundo. Continuo a dormir com a porta e a janela aberta, preciso de espaço para sonhar, mas mudei pequenas coisas, já não sou uma saltimbanca dentro de casa, já não desmonto a cama para poder endireitar as costas, agora tenho um estrado de madeira que me eleva do chão; acumula-se demasiada tralha com o tempo a passar, isto de mudar de cama e arrumar os livros é para ganhar espaço. Tive dores de costas horríveis durante todo o verão, fui ao médico e ele afirmou que se deve à perca de massa muscular – já sou quase metade do que fui, o médico aconselhou-me a natação, a água tem de facto propriedades especiais, mas ainda não me inscrevi, adiante, vou adiando. Agora o estrado com o colchão endireita-me as costas, as dores passaram e tive de mandar um dos colchões para o lixo, a lua lhe tinha tratado da saúde. Nunca mais começa a chover e só tenho gripes no verão, esqueceste-te do teu tecto móvel aqui que me acompanhou no Inverno passado – como é costume, perdi as chaves em todo o lado, os isqueiros, os óculos nunca sei onde andam, mas o tecto móvel regressou sempre ao seu lugar quando saía fora de portas. Tenho um vizinho que plantou duas árvores à porta do prédio e o cavalheiro sorumbático ainda não tem prateleiras por isso empilhou os livros todos no chão, agora que habita paredes-meias comigo. Eu continuo a achar que meias só nas pernas e estou a deixar de acampar dentro da própria casa, por isso os livros de arte habitam agora o corredor, por baixo das malas de viajem por causa do excesso de peso, se calhar deveria envia-los mesmo era para as ruas da cidade: este plano será um projecto de arte com futuro, realizado a partir de um conto de Jorge Luís Borges, um conto necrófilo onde anunciou a morte de um grande pintor em Buenos Aires; um pintor torna-se artista quando morre e este grande pintor não podia representar porque a religião não lho permitia, então representava e pintava tudo de negro por cima, mas deixava os títulos das representações, um pouco como acontece na arte contemporânea actual, sobretudo na que vai mais à frente do seu tempo. Agora reduzi a biblioteca aos ensaios e ficções em prateleiras pretas, a música e a filosofia estão no mesmo sítio, bem mais perto de onde durmo, com o mesmo cuidado, mas as partituras agora habitam umas enormes caixas onde os anjos se beijam; guardo os livros de poesia onde estavam os de arte, são mais frágeis ao tempo a passar e às agressões do meio ambiente, por isso separei-os dos ensaios e das ficções. A lua como é sábia não faz estas distinções, tanto pode adormecer por cima de um ensaio como de uma ficção e aprecia muito a escultura que estou a modelar que é um cocktail entre arte e poesia, muito polifónico para a sua sesta. Eu gostava mesmo era que começasse a chover para o teu tecto móvel me acompanhar, o tempo este ano parece que não quer entrar na queda da folha.

Maria João

2 Comments:

At 9:24 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Muito bonito Maria João, este texto!
Beijinhos
Joaquim

 
At 12:30 da manhã, Blogger etanol said...

Obrigada, Joaquim.
Beijinhos
Maria João

 

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